Crónicas

Menos birras, menos "falta muito?": psicóloga Vera de Melo sugere 7 estratégias para viajar com crianças neste feriado

Para muitas famílias, os feriados são sinónimo de passeio e tempo de qualidade. Mas, antes de chegar ao destino, há um percurso que pode pôr à prova a paciência dos mais pequenos e dos adultos.

Psicóloga Clínica
  • 2 jun, 15:11

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Com a aproximação do feriado, muitas famílias preparam-se para passar várias horas na estrada. Embora os adultos estejam focados no destino, as crianças vivem a experiência de forma diferente. O tempo parece passar mais devagar, a necessidade de movimento é maior e a capacidade de lidar com a espera ainda está em desenvolvimento. Por isso, aquilo que para um adulto é apenas uma viagem pode transformar-se num verdadeiro desafio para uma criança.

Deixo algumas dicas:

 

1. Prepara a criança para o que vai acontecer
O cérebro das crianças sente-se mais seguro quando consegue antecipar o que vai acontecer. Quando uma viagem surge sem explicação, é mais provável que apareçam ansiedade, impaciência e muitas perguntas.
Antes de saírem, explica de forma simples quanto tempo irão estar no carro, onde vão parar e o que irão encontrar no destino. Com as crianças mais pequenas, pode ajudar associar a duração da viagem a referências concretas, como refeições, músicas ou pausas.
Por exemplo, em vez de dizeres "faltam três horas", podes dizer: "Primeiro vamos ouvir algumas músicas, depois paramos para comer qualquer coisa e, a seguir, continuamos o caminho."
Quando a criança sabe o que esperar, sente maior controlo sobre a situação.

 

2. Ajusta as expectativas ao ritmo da infância
Muitas vezes, o problema não está no comportamento da criança, mas nas expectativas dos adultos. É natural que uma criança tenha dificuldade em permanecer sentada, calma e entretida durante várias horas.
Os mais pequenos precisam de movimento, novidade e interação. Quando esperamos que se comportem como adultos durante demasiado tempo, acabamos por interpretar comportamentos normais como falta de colaboração.
Em vez de pensares "ele não consegue estar quieto", pode ser mais útil pensar "o corpo dele está a pedir movimento". Esta mudança de perspetiva reduz a irritação dos pais e ajuda a responder às necessidades reais da criança.

 

3. Não tentes eliminar todo o aborrecimento
Vivemos numa época em que existe uma enorme pressão para manter as crianças constantemente entretidas. No entanto, o aborrecimento não é um problema que precise de ser eliminado a qualquer custo.
Quando uma criança tem algum tempo sem estímulos constantes, o cérebro começa naturalmente a procurar alternativas. É muitas vezes nesses momentos que surgem histórias inventadas, jogos espontâneos e conversas inesperadas.
Os ecrãs podem ser uma ajuda em determinados momentos, mas não precisam de ocupar toda a viagem. Alternar períodos de entretenimento com momentos mais tranquilos favorece o desenvolvimento da criatividade e da tolerância à frustração.

 

4. Faz pausas para mexer o corpo
As crianças regulam muitas das suas emoções através do movimento. Correr, saltar, explorar e brincar ajudam-nas a libertar energia acumulada e a reduzir o desconforto físico associado a permanecer muito tempo sentadas.
Quando começam a surgir sinais de irritação, inquietação ou conflitos entre irmãos, nem sempre o problema é emocional. Muitas vezes, o corpo está simplesmente a precisar de se mexer.
Uma pausa de dez minutos pode evitar uma hora de queixas dentro do carro. Sempre que possível, escolhe locais onde a criança possa andar um pouco, explorar o espaço e recuperar energia antes de voltar à estrada.

 

5. Transforma a viagem numa aventura
As crianças lidam melhor com a espera quando se sentem envolvidas. Em vez de serem passageiras passivas, podem tornar-se participantes da viagem.
Podem procurar carros de determinada cor, contar pontes, identificar animais pelo caminho ou acompanhar a rota num mapa. Também podes criar pequenos desafios, como descobrir algo novo em cada local onde param.
Quando existe um objetivo ou uma missão, a atenção deixa de estar concentrada apenas no tempo que falta para chegar.

 

6. Leva snacks e água
Muitas birras que parecem emocionais têm, na verdade, uma origem física. A fome, a sede e o cansaço diminuem a capacidade de autorregulação das crianças.
Um adulto consegue perceber que está mais irritado porque ainda não almoçou. Uma criança raramente faz essa ligação. Em vez disso, manifesta o desconforto através de queixas, impaciência ou conflitos.
Ter água acessível e pequenos snacks nutritivos pode prevenir muitas situações difíceis. Além disso, as pausas para comer também ajudam a quebrar a monotonia da viagem.

 

7. Lembra-te de que as emoções são contagiosas
As crianças observam constantemente os adultos e utilizam-nos como referência para interpretar aquilo que está a acontecer. Se os pais ficam tensos com o trânsito, irritados com atrasos ou frustrados com pequenos imprevistos, é provável que as crianças absorvam esse estado emocional.
Isto não significa que os pais tenham de estar sempre bem-dispostos. Significa apenas que vale a pena ter consciência do impacto que o próprio comportamento pode ter no ambiente familiar.
Quando os adultos conseguem lidar com os contratempos com alguma calma e flexibilidade, estão a transmitir uma mensagem muito importante: os problemas podem surgir, mas é possível enfrentá-los sem entrar em pânico.
No final, aquilo de que os filhos mais se recordarão não será o número de quilómetros percorridos nem o tempo passado no carro. Serão as gargalhadas inesperadas, as músicas cantadas em conjunto, os jogos inventados pelo caminho e a sensação de terem vivido algo especial em família. Porque, muitas vezes, as melhores memórias não começam quando chegamos ao destino. Começam logo que a viagem começa!

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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