"Jogos de apostas: quando a esperança de ganhar começa a destruir a vida", por Vera de Melo
O vício do jogo é uma perturbação psicológica reconhecida e não resulta de falta de carácter, irresponsabilidade ou ausência de força de vontade.
- 10 ago, 15:09
Os jogos de apostas fazem hoje parte do quotidiano de muitas pessoas. Estão no telemóvel, nas redes sociais, na televisão e até durante as transmissões desportivas. São apresentados como entretenimento, uma forma rápida de ganhar dinheiro ou de tornar um jogo de futebol mais emocionante. O problema é que, para algumas pessoas, aquilo que começa como uma simples diversão transforma-se num vício capaz de destruir relações, estabilidade financeira e saúde mental.
O vício do jogo é uma perturbação psicológica reconhecida e não resulta de falta de carácter, irresponsabilidade ou ausência de força de vontade. O cérebro é programado para procurar recompensas e, sempre que existe a possibilidade de um ganho, mesmo que pequeno, é libertada dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. O mais curioso é que não é apenas ganhar que alimenta este mecanismo. A incerteza sobre o resultado torna-o ainda mais poderoso, levando a pessoa a acreditar que a próxima aposta poderá compensar todas as perdas anteriores.
É precisamente aqui que surge uma das armadilhas mais perigosas. Depois de perder dinheiro, muitas pessoas sentem uma necessidade quase irresistível de continuar a apostar para recuperar aquilo que perderam. Em vez de parar, entram num ciclo que aumenta o prejuízo financeiro e o sofrimento emocional. A esperança de recuperar transforma-se numa prisão.
As consequências vão muito além da conta bancária. Surgem mentiras para esconder o problema, dívidas, conflitos familiares, dificuldades no trabalho, isolamento, ansiedade, depressão e um profundo sentimento de culpa e vergonha. Muitas pessoas deixam de desfrutar da vida, vivem obcecadas com a próxima aposta e perdem progressivamente o controlo sobre as suas decisões.
A vergonha faz com que o pedido de ajuda seja frequentemente adiado. Existe o receio de ser julgado ou de admitir que o problema saiu do controlo. No entanto, quanto mais cedo existir intervenção, maior é a probabilidade de recuperar a qualidade de vida e evitar consequências ainda mais graves.
O tratamento psicológico é fundamental porque não procura apenas impedir que a pessoa jogue. Ajuda a compreender as razões que mantêm este comportamento, a identificar os gatilhos emocionais, a desenvolver estratégias para controlar o impulso, a aprender formas mais saudáveis de lidar com o stress, a frustração ou a solidão e a reconstruir a autoestima e a confiança. Em algumas situações, poderá também ser importante o acompanhamento psiquiátrico, sobretudo quando coexistem ansiedade, depressão ou outras perturbações.
A recuperação exige tempo, compromisso e apoio, mas é possível. Quanto mais cedo a pessoa reconhecer o problema, maior será a probabilidade de quebrar este ciclo antes que as perdas se tornem irreparáveis.
Se sentes que as apostas ocupam cada vez mais espaço na tua vida, se apostas mais dinheiro do que tinhas planeado, se escondes este comportamento das pessoas de quem gostas ou se continuas a jogar na esperança de recuperar o que perdeste, não ignores estes sinais. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza. É uma decisão de coragem e o primeiro passo para recuperar o controlo da tua vida.
Nenhuma aposta vale a tua paz, a tua família ou a tua saúde mental.
