Crónicas

"João Neves podia chegar num Ferrari. Chegou de Peugeot. E isso diz muito mais do que parece", por psicóloga Vera de Melo

Começou a circular nas redes sociais: João Neves, jogador do Paris Saint-Germain, chegou ao centro de treinos ao volante de uma Peugeot Partner branca.

  • 2 set, 16:16

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Não era um Ferrari, um Lamborghini ou um daqueles carros de luxo que tantas vezes associamos à imagem de um futebolista de topo. Era uma carrinha. Uma carrinha simples, quase anónima, daquelas que vemos todos os dias na estrada e às quais normalmente ninguém presta atenção. E talvez seja precisamente por isso que a imagem tenha chamado tanto a atenção.

João Neves é um dos jovens futebolistas portugueses mais reconhecidos da sua geração. Joga num dos maiores clubes do mundo, tem acesso a um universo de dinheiro, fama e estatuto que a maioria das pessoas nunca conhecerá. E, ainda assim, aparece a chegar ao treino numa carrinha que não parece ter qualquer preocupação em anunciar o sucesso de quem vai lá dentro.

É importante não tirarmos conclusões absolutas a partir de uma fotografia. Não sabemos se aquela é a viatura que usa habitualmente ou se foi apenas uma situação pontual. Mas podemos aproveitar esta imagem para pensar numa coisa que vai muito além do futebol: a forma como confundimos, tantas vezes, sucesso com aquilo que conseguimos mostrar.

Vivemos numa época em que parece existir uma necessidade permanente de provar que estamos bem. O carro, a roupa, a casa, as viagens, o restaurante, o telemóvel, as fotografias, os seguidores.

Parece que, para provarmos que conseguimos, temos de mostrar que temos. Como se o sucesso só fosse verdadeiro quando é visível aos olhos dos outros.

E depois aparece um rapaz de 21 anos, jogador do PSG, a chegar ao treino numa carrinha. E a imagem quase nos obriga a parar. Porque talvez uma das maiores formas de liberdade seja precisamente não precisar de parecer aquilo que já se é.

João Neves não precisa de um carro caro para provar que é jogador do PSG. O carro não acrescenta talento aos pés, não melhora o passe, não aumenta a capacidade de trabalho, não transforma um jogador mediano num grande jogador.

O que o levou até ali aconteceu muito antes de alguém reparar no carro que conduzia. Começou na formação, nos treinos, na disciplina, na capacidade de trabalhar, de aprender, de persistir e de suportar a exigência. E esta é uma aprendizagem que deveríamos transmitir muito mais às crianças: o sucesso não precisa de ser anunciado o tempo todo.

Há uma diferença enorme entre ter sucesso e precisar de parecer bem-sucedido. Uma coisa constrói-se. A outra exibe-se. E nem sempre andam juntas.

Também por isso esta história pode ser uma oportunidade para pensarmos naquilo que estamos a ensinar às crianças quando valorizamos demasiado aquilo que as pessoas têm. Elas aprendem depressa. Aprendem que a roupa de marca vale mais, que o telemóvel mais caro significa mais, que o carro maior representa maior sucesso, que determinadas casas, viagens ou objetos dizem alguma coisa sobre o valor de quem os possui.

E, sem darmos conta, podemos estar a ensinar-lhes uma ideia perigosa: tu vales aquilo que consegues mostrar. Depois essas crianças crescem e tornam-se adultos permanentemente preocupados com a comparação. A olhar para o lado. A perguntar se têm o suficiente, se parecem bem, se os outros acham que são bem-sucedidos, se têm mais ou menos do que alguém. E passam uma parte enorme da vida a tentar construir uma imagem que seja suficientemente boa aos olhos dos outros.

Talvez devêssemos ensinar o contrário. Que podemos gostar de coisas bonitas sem precisar de as usar para provar o nosso valor. Que podemos ter dinheiro sem fazer dele a nossa identidade. Que podemos comprar um carro de luxo porque gostamos de carros, e não porque precisamos que alguém pense que somos importantes. Que podemos vestir uma marca sem achar que somos melhores por isso. E que também podemos conduzir uma carrinha simples sem que isso diga absolutamente nada sobre aquilo que somos ou sobre o lugar que conseguimos alcançar.

Porque as coisas são coisas. O problema começa quando passam a ser medidas de valor pessoal. Quando já não compramos porque gostamos, mas porque precisamos que os outros percebam que podemos comprar. Quando já não viajamos apenas para viver experiências, mas também para produzir fotografias. Quando já não fazemos as coisas por nós, mas para sermos vistos a fazê-las.

E talvez seja aqui que esta história de João Neves se torna especialmente interessante para os mais novos. Porque, para muitas crianças, um jogador de futebol representa o sonho máximo: talento, dinheiro, fama, reconhecimento. Mas talvez a parte mais importante desta história seja precisamente aquela que não aparece no preço de um carro. Não é preciso parecer rico para ter sucesso. Não é preciso ter o último modelo. Não é preciso impressionar ninguém. Não é preciso mostrar tudo aquilo que se conquistou.

Podemos chegar muito longe sem nos esquecermos de onde viemos. Podemos ganhar dinheiro sem deixar que o dinheiro nos diga quem somos. Podemos ser reconhecidos sem precisar de ser admirados por toda a gente.

E há outro pormenor daquele episódio que também merece atenção: João Neves não passou simplesmente pelos adeptos. Parou, cumprimentou-os e deu autógrafos antes de entrar para o treino. Talvez seja essa a imagem que devemos guardar. Não a Peugeot. Mas aquilo que ela nos permite pensar.

Porque ninguém se torna grande por conduzir um carro caro. Torna-se grande pela forma como trabalha, pela forma como trata os outros, pela capacidade de continuar a ser pessoa quando a vida começa a dar-lhe muito mais do que alguma vez imaginou.

E talvez esta seja uma boa lição para ensinar às crianças e, provavelmente, também a muitos adultos: não precisas de parecer importante para seres importante.

O teu valor não está no que conduzes, no que vestes, na casa onde moras, no dinheiro que tens ou naquilo que os outros pensam quando olham para ti.

O verdadeiro sucesso talvez seja poderes ter muito sem precisares de mostrar tudo. É poderes chegar longe sem te esqueceres de quem eras quando ainda estavas a começar. É não precisares de usar aquilo que tens para provar aquilo que és.

Porque, no fim, podemos passar a vida inteira a tentar mostrar aos outros o nosso valor. Ou podemos simplesmente construir uma vida que nos permita saber, mesmo quando ninguém está a olhar, que sabemos quem somos.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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