"Há pessoas incapazes de pedir desculpa... e há um motivo para isso", por Vera de Melo
Curiosamente, o maior inimigo de um pedido de desculpa nem sempre é o orgulho. É a vergonha.
- 12 ago, 08:37
"Eu nunca faria isso."
"Não foi bem assim."
"Estás a exagerar."
"Também tiveste culpa."
Há pessoas que, mesmo quando é evidente que erraram, parecem incapazes de pronunciar uma palavra tão simples: "desculpa".
À primeira vista, a explicação parece óbvia. Pensamos que são pessoas orgulhosas, arrogantes ou incapazes de reconhecer os próprios erros. Mas a psicologia mostra-nos que a realidade é, muitas vezes, bem mais complexa.
Curiosamente, o maior inimigo de um pedido de desculpa nem sempre é o orgulho.
É a vergonha.
Embora muitas vezes sejam confundidas, culpa e vergonha são emoções muito diferentes.
A culpa diz-nos: "Fiz uma coisa errada."
A vergonha diz-nos: "Eu sou uma pessoa errada."
Esta diferença muda tudo.
Quando uma pessoa sente culpa, consegue reconhecer o erro sem colocar em causa o seu valor. É precisamente essa capacidade que lhe permite reparar o dano, assumir responsabilidades e pedir desculpa.
Mas quando o que sente é vergonha, admitir o erro torna-se uma ameaça à própria identidade. O cérebro deixa de estar preocupado em reparar a relação e passa a tentar proteger a autoestima.
É aqui que entram os chamados mecanismos de defesa, descritos pela psicologia há décadas. Sem se aperceber, a pessoa começa a negar o que aconteceu, a minimizar o impacto das suas atitudes, a racionalizar o comportamento ou até a atribuir a culpa ao outro. Não porque esteja necessariamente a mentir de forma consciente, mas porque a mente procura aliviar um sofrimento interno que é difícil de suportar.
É por isso que, tantas vezes, uma conversa sobre um erro acaba por transformar-se numa discussão onde a responsabilidade parece desaparecer.
Quem está à frente sente-se invalidado.
Quem está a defender-se sente-se atacado.
E ambos acabam por sair magoados.
A forma como crescemos também pode explicar parte desta dificuldade.
Uma criança que foi constantemente criticada, humilhada ou castigada quando errava pode aprender uma lição silenciosa: errar é perigoso. Em adulta, sempre que falha, o cérebro ativa automaticamente estratégias de autoproteção. Em vez de admitir o erro, tenta justificar-se, explicar-se ou convencer-se de que a culpa pertence a outra pessoa. Não porque seja má mas porque aprendeu que errar significava perder amor, aprovação ou segurança.
Também os estilos de vinculação ajudam a compreender este comportamento.
Pessoas com um estilo de vinculação evitante tendem a sentir um enorme desconforto perante a vulnerabilidade. Pedir desculpa implica baixar as defesas, reconhecer o impacto das próprias ações e aceitar que o outro pode estar magoado. Para quem vive a proximidade emocional como uma ameaça, esse passo pode ser particularmente difícil.
Há ainda outro fenómeno interessante.
Quem acredita que um erro define o seu valor tende a defender-se. Quem acredita que um erro pode ensinar alguma coisa tende a responsabilizar-se. Isto não significa que todas as pessoas que nunca pedem desculpa tenham vivido experiências difíceis ou apresentem o mesmo funcionamento psicológico. Há quem, simplesmente, tenha aprendido que nunca precisa de assumir responsabilidades. E há também traços de personalidade que tornam esta capacidade mais limitada.
Mas compreender não significa desculpabilizar. Uma explicação não é uma justificação porque, independentemente da origem deste comportamento, o impacto nas relações é real.
Quando um pedido de desculpa nunca chega, o que fica não é apenas o erro, fica a sensação de que a dor do outro não foi vista.
E é precisamente aí que muitas relações começam a quebrar.
Pedir desculpa não é humilhar-se.
Não é perder uma discussão.
Não é admitir que somos maus.
É mostrar maturidade suficiente para dizer: "Reconheço que aquilo que fiz teve um impacto em ti."
As relações não precisam de pessoas perfeitas. Precisam de pessoas capazes de reparar porque a confiança não se constrói pela ausência de erros. Constrói-se na coragem de os reconhecer, na humildade de pedir desculpa e na vontade genuína de fazer diferente.
Talvez seja essa a maior diferença entre quem protege o ego e quem protege uma relação.
