Crónicas

"Estou de férias... mas o telemóvel não sabe disso", por psicóloga Vera de Melo

Nesta crónica, a psicóloga Vera de Melo reflete sobre o facto de o nosso cérebro nunca chegar a estar verdadeiramente em modo de descanso durante as férias.

  • 26 jun, 10:00

Rodeada de amigos e família, Vera de Melo lança mais um livro

Vera de Melo apresenta novo livro na Feira do Livro de Lisboa

Vera de Melo lança novo livro: "Acredito que o nosso coração é uma bússola invisível"

Psicóloga Vera de Melo fala sobre novos projetos: "Vou sair da minha zona de conforto"

Psicóloga Vera de Melo cria estratégias para ajudar os pais a afastarem os filhos dos ecrãs

Não vai acreditar no que Vera de Melo fez em criança: "Fugi e disse que não tinha sido eu"

Decides que vais descansar. Fazes as malas, mudas de cenário, desligas o computador. Mas basta o telemóvel tocar e o teu cérebro volta imediatamente ao trabalho.

Atendes? Ignoras? Respondes só "porque é rápido"?

E, de repente, aquilo que devia ser um dia de descanso transforma-se numa sucessão de interrupções.

Isto não acontece apenas porque existem pessoas que insistem em ligar. Acontece porque o nosso cérebro foi treinado para responder.

Na psicologia chamamos a isto um ciclo de reforço. Sempre que atendes uma chamada ou respondes a uma mensagem, mesmo não querendo, alivias momentaneamente a ansiedade de pensar "e se for importante?". Esse alívio funciona como uma recompensa para o cérebro. Na próxima chamada, a vontade de atender será ainda maior.

É por isso que tantas pessoas dizem: "Não queria responder... mas acabei por fazê-lo."

O problema é que o cérebro nunca chega a entrar verdadeiramente em modo de descanso. Permanece num estado de vigilância permanente, à espera da próxima notificação. Os níveis de cortisol mantêm-se elevados, a atenção fica fragmentada e a recuperação mental torna-se muito mais lenta.

Se isto te acontece, experimenta estas estratégias.

Antes de mais, distingue uma urgência de uma expectativa. Nem todas as chamadas precisam de uma resposta imediata. Muitas apenas refletem a expectativa de disponibilidade criada ao longo do tempo.

Depois, faz um pequeno exercício cognitivo. Sempre que o telemóvel tocar, não respondas automaticamente. Faz uma pausa de dez segundos e pergunta a ti próprio:

"Se eu não atender agora, qual é a pior coisa que pode acontecer?"

Na maioria das situações, vais perceber que a resposta pode esperar.

Outra estratégia consiste em criar uma regra clara para ti. Em vez de decidir em cada chamada, decide antes. Por exemplo:

"Durante as férias só atendo chamadas da família ou de situações previamente combinadas." Quando a decisão já está tomada, o cérebro deixa de gastar energia em negociações internas.

Também pode ser útil observar a culpa que aparece quando não respondes. Pergunta-te: "Esta culpa significa que estou a fazer algo errado... ou apenas que estou a fazer algo diferente daquilo a que as outras pessoas estão habituadas?" São coisas muito diferentes.

E, por fim, lembra-te de uma ideia importante. Cada vez que interrompes o teu descanso para responder a algo que podia esperar, estás a ensinar aos outros que estás sempre disponível. Mas, acima de tudo, estás a ensinar ao teu cérebro que nem nas férias é seguro desligar.

Descansar não é ignorar responsabilidades. É reconhecer que a tua saúde mental também merece um lugar na tua lista de prioridades.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados