"Estamos a diagnosticar demasiado as crianças?", por psicóloga Vera de Melo
Há uns anos, quando uma criança estava constantemente a mexer-se na sala de aula, ouvia-se dizer que "não pára quieta".
- 25 ago, 12:54
Se tinha dificuldades em concentrar-se, era "preguiçosa". Se tinha medo de dormir sozinha, era "mariquinhas". Se passava por uma fase de tristeza, alguém dizia que "eram manias". Hoje sabemos mais. Felizmente.
Sabemos que há crianças com PHDA, perturbações de ansiedade, depressão, perturbações do espectro do autismo, dificuldades específicas de aprendizagem e muitas outras condições que podem interferir profundamente com o seu desenvolvimento e com a forma como vivem a escola, a família e as relações.
Durante demasiado tempo, algumas crianças sofreram porque os adultos interpretavam sintomas como defeitos de personalidade. Por isso, não tenho qualquer dúvida de que identificar precocemente uma dificuldade pode mudar uma vida.
Mas existe outra conversa que também precisamos de ter. Será que, por vezes, estamos a transformar demasiado depressa comportamentos desafiantes em diagnósticos?
Uma criança está inquieta e alguém pergunta imediatamente se terá PHDA. Uma adolescente está triste e surge a suspeita de depressão. Um menino não quer ir à escola e fala-se logo em ansiedade. Uma criança tem dificuldades sociais e começa imediatamente a procurar-se uma explicação diagnóstica.
O problema não está em fazer perguntas. O problema está em querer respostas demasiado rápidas para comportamentos que podem ter muitas explicações diferentes.
Uma criança não existe fora do contexto. E isto é fundamental.
Uma criança que não consegue concentrar-se pode estar com PHDA. Mas pode também estar ansiosa. Pode estar a dormir mal. Pode estar a atravessar uma separação dos pais. Pode estar a sofrer bullying. Pode ter dificuldades de aprendizagem e estar a evitar tarefas que lhe são particularmente difíceis. Pode estar emocionalmente sobrecarregada.
O comportamento é aquilo que vemos. Mas aquilo que vemos nem sempre explica aquilo que está a acontecer. É por isso que uma avaliação psicológica não pode ser uma caça ao diagnóstico.
Tem de ser uma tentativa de compreender a criança. O que está a acontecer? Desde quando? Em que situações? Acontece em casa e na escola? Acontece com todas as pessoas ou apenas com algumas? O que aconteceu antes de este comportamento começar? Que impacto está a ter? O que ajuda? O que piora?
São perguntas aparentemente simples, mas podem mudar completamente a compreensão de um caso. Porque uma criança pode parecer desatenta numa sala de aula e estar perfeitamente concentrada quando está a fazer uma atividade de que gosta. Outra pode apresentar dificuldades apenas perante determinadas tarefas. Outra pode ter um comportamento muito diferente na escola e em casa.
E é precisamente aí que uma avaliação séria se distingue de uma etiqueta rápida. O diagnóstico, quando existe, pode ser extremamente importante. Pode permitir compreender melhor a criança. Pode ajudar a família. Pode orientar a escola. Pode abrir acesso a estratégias adequadas. Pode retirar culpa.
Uma criança que durante anos ouviu "és preguiçosa" pode sentir um enorme alívio quando percebe que existem razões para determinadas dificuldades e, sobretudo, que existem estratégias que a podem ajudar.
Mas há uma linha que precisamos de ter cuidado para não ultrapassar. Uma criança tem um diagnóstico. Não é o diagnóstico. Parece uma diferença pequena, mas psicologicamente pode ser enorme.
Quando uma criança começa a pensar "eu sou hiperativo", "eu sou ansiosa", "eu sou autista", "eu não consigo concentrar-me", existe o risco de aquela descrição começar a ocupar espaço demais na construção da identidade. E uma criança está precisamente numa fase em que ainda está a descobrir quem é.
Precisamos de lhe dizer: "Tu tens esta dificuldade"; "Há coisas que te custam mais"; "Há estratégias que te podem ajudar"; "Vamos perceber como funciona o teu cérebro."
Mas também: "Há muitas coisas que sabes fazer"; "Há muitas características tuas que não cabem num diagnóstico"; "Uma dificuldade não define aquilo que podes vir a conseguir."
Isto não significa negar um diagnóstico. Significa colocá-lo no lugar certo. Um diagnóstico deve ser uma ferramenta para compreender melhor uma criança, não uma sentença sobre aquilo que ela poderá ser.
E existe ainda um perigo no extremo oposto: o medo de "diagnosticar demasiado" não pode servir para ignorar sofrimento real. Porque também há crianças que passam anos a ouvir: "É uma fase."
Há crianças que estão profundamente ansiosas. Há crianças deprimidas. Há crianças com dificuldades de atenção significativas. Há crianças que sofrem na escola todos os dias. Há crianças cujo comportamento é a única forma que encontraram para dizer que alguma coisa não está bem. E dizer-lhes simplesmente "tens de te esforçar mais" pode ser profundamente injusto.
Por isso, talvez o equilíbrio esteja precisamente aqui. Não patologizar todas as diferenças. Mas também não normalizar todo o sofrimento. Não transformar uma criança num diagnóstico. Mas também não ter medo de diagnosticar quando existe um problema real. Não procurar uma etiqueta para explicar tudo.
Procurar compreender o que aquela criança precisa. Porque, no fundo, a pergunta mais importante não é: "Que diagnóstico é que esta criança tem?" É: "O que está a acontecer com esta criança?" E essa pergunta obriga-nos a olhar para muito mais do que sintomas. Obriga-nos a olhar para a família, para a escola, para as relações, para a história, para o desenvolvimento e para aquilo que aquela criança está a tentar dizer através do comportamento.
Às vezes, a resposta será um diagnóstico. Outras vezes será uma mudança na escola. Pode ser acompanhamento psicológico. Pode ser orientação aos pais. Pode ser uma avaliação complementar. E, por vezes, pode simplesmente ser uma criança que precisa de tempo para amadurecer.
O mais importante é que não confundamos compreender com etiquetar. Porque uma criança não precisa que lhe digamos quem é. Precisa de adultos disponíveis para a ajudar a descobrir quem pode vir a ser.
