Crónicas

"Estamos a criar crianças emocionalmente frágeis sem perceber?", por psicóloga Vera de Melo

Há uma coisa que tenho observado cada vez mais nas famílias que acompanho: pais que fazem tudo para que os filhos não sofram e, sem perceberem, acabam por lhes dificultar a aprendizagem mais importante de todas: aprender a lidar com aquilo que não podem controlar.

  • 24 ago, 14:43

Queremos que os nossos filhos sejam felizes. É natural. Queremos poupá-los à dor, à rejeição, à frustração, ao fracasso, às discussões, às desilusões. Queremos facilitar-lhes a vida porque sabemos como custa vê-los sofrer.

O problema começa quando confundimos proteger com impedir que vivam experiências difíceis.

Uma criança chega a casa porque discutiu com um amigo e imediatamente o pai pega no telefone para falar com a mãe do outro menino. A filha tira uma má nota e o pai vai à escola perceber o que aconteceu. O filho perde um jogo e ouvimos logo: "O árbitro estava contra vocês." A criança esqueceu-se do trabalho de casa e alguém corre para o levar à escola. Está aborrecida e recebe imediatamente um ecrã. Está frustrada e recebe aquilo que pediu. Está triste e o adulto tenta, a toda a velocidade, fazê-la deixar de estar triste.

É amor. Claro que é amor. Mas amor não é resolver tudo. E esta distinção é fundamental.

Na psicologia do desenvolvimento sabemos que a autonomia não nasce porque dizemos a uma criança "tens de ser autónoma". Constrói-se através de pequenas experiências em que a criança tenta, falha, tenta novamente, resolve problemas, toma decisões e percebe que é capaz.

Quando um adulto está constantemente a antecipar dificuldades e a resolvê-las antes de a criança ter oportunidade de experimentar, pode estar a transmitir uma mensagem sem intenção nenhuma de o fazer: "Tu não consegues." E uma criança pode aprender muito depressa aquilo que os adultos acreditam sobre ela.

É aqui que aparece aquilo a que chamamos, em psicologia, superproteção. Não é simplesmente amar demasiado. É interferir excessivamente para evitar que a criança experiencie situações que poderiam ser desagradáveis, difíceis ou frustrantes.

E a ironia é que, ao tentarmos impedir a ansiedade, podemos acabar por alimentá-la. Porque uma criança precisa de descobrir, através da experiência, que consegue sobreviver ao desconforto. Que pode ficar nervosa e apresentar um trabalho. Que pode perder e continuar a jogar. Que pode ser rejeitada por um amigo e encontrar outro. Que pode ter uma nota baixa e melhorar. Que pode ouvir "não" e continuar a sentir-se amada. Que pode discutir com alguém e aprender a reparar a relação.

A isto chama-se tolerância à frustração. E não se ensina através de discursos. Ensina-se através da vida.

Pensemos numa criança que está a aprender a andar de bicicleta. Se cada vez que perde o equilíbrio o pai agarrar imediatamente na bicicleta, ela pode sentir-se mais segura naquele instante. Mas nunca terá oportunidade de descobrir que consegue recuperar o equilíbrio.

Na vida emocional acontece exactamente o mesmo. Se cada vez que uma criança sente desconforto nós eliminamos a situação que o provocou, ela aprende que o desconforto é perigoso e que precisa de alguém para o eliminar.

Se, pelo contrário, estivermos presentes e dissermos "eu sei que isto custa, mas vamos perceber como podes lidar com isto", estamos a transmitir outra mensagem: "Não posso evitar que a vida seja difícil. Mas posso ajudar-te a descobrir que és capaz."

E esta é uma das diferenças entre criar uma criança protegida e criar uma criança preparada. Uma criança protegida pode precisar que alguém lhe abra caminho. Uma criança preparada sabe que, quando encontra um obstáculo, pode tentar descobrir como o ultrapassar.

Isto não significa deixar os filhos sozinhos perante o sofrimento. Não significa dizer "resolve tu" quando estão em dificuldades. Não significa ignorar ansiedade, tristeza ou medo. Pelo contrário. A criança precisa de um adulto disponível para a ajudar a regular aquilo que ainda não consegue regular sozinha. É através dessa co-regulação que, progressivamente, vai desenvolvendo capacidade de autorregulação.

Mas estar disponível não é assumir o controlo. É estar ao lado. Há uma diferença enorme entre dizer "eu faço por ti" e dizer "vamos fazer juntos". Entre telefonar imediatamente ao professor e perguntar primeiro "o que achas que podes fazer para resolver isto?". Entre impedir uma criança de perder e ajudá-la a lidar com a derrota. Entre oferecer imediatamente uma solução e ajudá-la a pensar.

Talvez este seja um dos maiores desafios da parentalidade actual: aceitar que ver um filho sofrer faz parte de ser pai ou mãe. Não gostamos. Custa. Às vezes dói mais a nós do que a eles.

Mas uma infância sem frustração não prepara ninguém para uma vida adulta sem frustração. E essa vida não existe.

Mais cedo ou mais tarde, vão ouvir um não. Vão ser rejeitados. Vão falhar. Vão perder alguém. Vão ter um professor de quem não gostam. Vão encontrar pessoas que não os compreendem. Vão candidatar-se a alguma coisa e não ser escolhidos. Vão apaixonar-se por alguém que não sente o mesmo.

Não conseguimos estar presentes em todas essas situações para lhes retirar a dor. Mas podemos fazer uma coisa muito mais importante. Podemos ensiná-los que a dor não significa que estão em perigo. Que falhar não significa que são um fracasso. Que perder não significa que são perdedores. Que ser rejeitado não significa que não são suficientemente bons. E que pedir ajuda não significa ser fraco.

Talvez, por isso, a pergunta que devíamos fazer mais vezes enquanto pais não seja "Como posso evitar que o meu filho sofra?" Mas: "Como posso ajudá-lo a descobrir que consegue lidar com aquilo que a vida lhe trouxer?"

Porque proteger uma criança é, muitas vezes, querer colocá-la dentro de uma bolha. Mas prepará-la para a vida é ensiná-la, aos poucos, a sair dela. E talvez o maior acto de amor não seja impedir que os nossos filhos caiam. Talvez seja estar suficientemente perto para que, quando caírem, saibam que conseguem levantar-se.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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