"Ele segue a 'ex' no Instagram. É traição?", por Vera de Melo
O problema pode não estar no "seguir", mas naquilo que essa ligação representa.
- 11 ago, 08:11
"Porque é que ainda segues a tua 'ex'?"
É uma pergunta que pode parecer pequena, mas muitas vezes esconde uma preocupação muito maior: “Será que ainda sentes alguma coisa por ela?”, “Posso confiar em ti?” ou “Porque é que precisas de manter essa pessoa na tua vida?”
A verdade é que seguir uma "ex" no Instagram não é, por si só, uma traição. Uma relação pode terminar e a ligação digital permanecer sem existir qualquer interesse amoroso. Podem ter amigos em comum, filhos, contactos profissionais ou simplesmente nunca ter sentido necessidade de deixar de se seguir.
Mas também é verdade que nem todos os “follows” têm o mesmo significado.
Há uma enorme diferença entre ter uma "ex" na lista de seguidores e procurar regularmente o perfil dela, reagir às fotografias, trocar mensagens privadas, esconder conversas ou manter uma relação emocional que ultrapassa aquilo que seria expectável entre duas pessoas que já terminaram.
É o contexto que dá significado ao comportamento.
O ciúme não é necessariamente insegurança
Quando alguém sente desconforto porque o parceiro segue uma "ex", é muito fácil ouvir: “Isso é insegurança tua.”
Nem sempre.
A psicologia explica que o ciúme pode surgir quando percebemos uma ameaça, real ou imaginada, à relação. Pessoas com maior ansiedade de vinculação podem ser mais sensíveis a sinais de rejeição ou abandono, mas isso não significa que todas as preocupações sejam irracionais.
Se o parceiro é transparente, consistente e tranquilizador, o mesmo “follow” pode não provocar praticamente nenhuma reação.
Se, pelo contrário, existem segredos, mentiras ou comportamentos ambíguos, a mesma situação pode ser vivida de uma forma completamente diferente.
A confiança não depende apenas daquilo que fazemos. Depende também daquilo que o outro consegue compreender sobre o que fazemos.
As redes sociais complicaram tudo. Antes das redes sociais, uma "ex" podia simplesmente deixar de fazer parte do quotidiano. Hoje pode continuar presente. Pode aparecer nas histórias, nas sugestões, nas fotografias, nos comentários e nos “gostos”. E isso permite uma exposição permanente a pessoas que pertencem ao passado.
Então, quando devemos preocupar-nos?
Não é preciso entrar em pânico porque o namorado segue a "ex".
Mas existem alguns sinais que merecem atenção:
- esconde conversas ou apaga mensagens;
- mente sobre o contacto que mantém com ela;
- procura frequentemente o perfil dela;
- existe flirt ou comentários sexualizados;
- mantém conversas íntimas que não partilha com a companheira;
- fica excessivamente defensivo perante perguntas legítimas;
- compara a atual relação com a relação anterior;
- demonstra vontade de manter uma proximidade que ultrapassa aquilo que seria esperado de uma amizade.
Aqui, já não estamos simplesmente a falar de um "follow".
Estamos a falar de limites, transparência e respeito dentro da relação.
E se ele disser: "É só um Instagram"?
Pode ser.
Mas a questão também pode ser outra.
Se a companheira diz que determinada situação lhe provoca desconforto, não significa que o parceiro tenha de obedecer automaticamente a todas as suas inseguranças. Mas significa que deve existir espaço para conversar sobre elas.
Uma relação saudável não funciona através de controlo.
Não é saudável exigir que o parceiro elimine todas as pessoas do passado, deixar de seguir determinadas pessoas ou provar constantemente que é fiel.
Mas também não é saudável responder a qualquer preocupação com “és louca”, “és insegura” ou “isso é problema teu”.
Entre o controlo e a indiferença existe uma coisa chamada diálogo.
A pergunta mais importante
Talvez a pergunta não deva ser:
"Porque é que segues a tua 'ex'?"
Mas:
"O que significa para ti manter essa ligação?"
E talvez a pergunta que cada pessoa deve fazer a si própria seja:
"Estou desconfiada porque existe alguma coisa concreta no comportamento do meu parceiro ou porque estou a tentar proteger-me de uma possibilidade?"
Esta diferença é fundamental.
Porque uma coisa é existir um comportamento que justifica desconfiança.
Outra é viver permanentemente à procura de provas de uma traição que pode nem existir.
Por isso, mais importante do que perguntar “ele segue a 'ex'?”, é perguntar:
"O comportamento dele protege ou ameaça a confiança da nossa relação?"
Porque, no amor, nem tudo o que é permitido é necessariamente saudável. E nem tudo o que incomoda é necessariamente traição.
O que faz a diferença é a intenção, a transparência e os limites que duas pessoas escolheram respeitar.
