Crónicas

"É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?", por psicóloga Vera de Melo

E se estiveres numa relação, amares a pessoa que está contigo e, mesmo assim, não conseguires parar de pensar noutra?

  • 28 ago, 11:46

Não querias que acontecesse. Não procuraste. Talvez até tenhas passado semanas a convencer-te de que era só uma fase, uma atração, uma brincadeira sem importância. Mas a pessoa continua a aparecer-te na cabeça.

Uma mensagem muda-te o dia. Um encontro deixa-te a pensar durante horas. Começas a esperar por aquele olhar. E chega um momento em que já não consegues fingir que não sentes nada.

Estás apaixonado por duas pessoas. E agora?

A primeira coisa que aparece costuma ser a culpa. Porque fomos educados para acreditar que o amor é exclusivo até nos sentimentos. Se amas o teu companheiro, não deverias desejar outra pessoa. Se te apaixonaste por alguém, então alguma coisa deve estar errada com a relação que tens. Mas o coração não funciona assim.

Não escolhemos sempre aquilo que sentimos. Podemos escolher ficar. Podemos escolher partir. Podemos escolher alimentar uma aproximação ou colocar-lhe um limite. Mas não conseguimos impedir completamente que alguém nos desperte. E isto é importante porque sentir não é trair. Agir contra aquilo que prometemos é que pode ser.

Uma pessoa pode estar numa relação feliz e sentir atração por outra. Pode amar profundamente o companheiro e, ainda assim, sentir desejo, curiosidade ou até paixão por alguém novo.

Isso não significa automaticamente que o amor que existia deixou de ser verdadeiro. Significa que somos humanos.

O problema é que, quando aparece alguém novo, raramente aparece apenas a pessoa. Aparece também aquilo que ela nos faz sentir.

Talvez faça anos que não te sentes desejado daquela maneira. Talvez ninguém te olhe assim há muito tempo. Talvez aquela pessoa te faça rir de uma forma que já tinhas esquecido. Talvez te faça sentir interessante, bonito, jovem, livre. E é aqui que podemos começar a confundir uma coisa muito importante.

Às vezes não nos apaixonamos apenas pela pessoa. Apaixonamo-nos pela versão de nós próprios que existe quando estamos com ela. E essa sensação pode ser poderosíssima. Sobretudo quando a nossa relação atual entrou na rotina. Porque a rotina não significa necessariamente falta de amor, mas pode fazer desaparecer algumas das coisas que nos fizeram apaixonar. Já não há surpresa. Já não há aquela expectativa. Já não há o nervosismo de esperar uma mensagem. Conhecemos demasiado bem a pessoa. Sabemos o que vai dizer. Sabemos como vai reagir. Sabemos onde vai deixar as chaves. Sabemos até a forma como vai respirar quando está irritada.

E, de repente, aparece alguém que não conhecemos. E tudo é novidade. Uma mensagem parece especial. Um olhar parece carregado de significado. Um encontro parece um acontecimento.

O cérebro adora novidade. A antecipação e a recompensa associadas a uma relação nova podem tornar a experiência extremamente intensa. E intensidade é uma coisa perigosa quando estamos a tentar perceber se estamos perante amor. Porque podemos sentir uma coisa com enorme força e, ainda assim, não saber se ela tem capacidade para sobreviver à realidade.

É muito fácil comparar a pessoa nova com o companheiro de anos. Mas estamos a fazer uma comparação injusta. Estamos a comparar uma relação real com uma relação que ainda vive, em grande parte, de expectativa.

De um lado estão as contas, os problemas, os dias maus, as responsabilidades e as discussões. Do outro estão as mensagens, os encontros, o desejo e a fantasia. Claro que a segunda parece mais leve. Ainda não teve tempo de ficar pesada.

E talvez seja por isso que, antes de destruir uma relação por causa de outra pessoa, seja importante perceber uma coisa: se essa pessoa desaparecesse amanhã, continuarias a sentir que a tua relação já não te chega?

Porque, às vezes, alguém novo não é a razão pela qual queremos sair. É apenas aquilo que nos permite perceber que já queríamos sair. E outras vezes é exatamente o contrário. A relação estava bem. Nós estávamos bem. E aquela pessoa apareceu e despertou qualquer coisa que não esperávamos. Isso também acontece. E não precisamos de transformar automaticamente esse sentimento numa decisão. Podemos senti-lo sem o alimentar. Podemos reconhecer que alguém nos atrai sem começar uma relação emocional escondida.

Podemos ter pensamentos sem transformar todos os pensamentos em comportamentos. Porque sentir não nos obriga a agir. E esta é uma diferença que muitas pessoas esquecem.

"Eu não consegui evitar." Talvez não tenhas conseguido evitar sentir. Mas conseguiste evitar enviar aquela mensagem. Ou não. E são coisas diferentes. Porque quando começamos a criar intimidade com outra pessoa, a situação muda.

Quando contamos coisas que já não contamos ao nosso parceiro. Quando procuramos aquela pessoa. Quando escondemos conversas. Quando esperamos por uma mensagem. Quando começamos a viver uma relação dentro da relação. Já não estamos apenas a sentir. Estamos a escolher. E é aí que a responsabilidade aparece.

Mas existe outra coisa que também precisamos de aceitar: podemos amar duas pessoas e, mesmo assim, não poder ficar com as duas.

Porque amar não é o único critério para decidir com quem queremos construir uma vida. Também precisamos de compatibilidade, de confiança, de respeito, de valores semelhantes, da capacidade para atravessar dificuldades, de vontade de construir.

Podemos amar alguém e não conseguir viver bem com essa pessoa. Podemos desejar alguém e perceber que, fora da paixão, não temos quase nada em comum. Podemos ter uma história enorme com alguém e perceber que já não queremos continuar. E podemos apaixonar-nos por alguém novo e descobrir que aquilo que parecia extraordinário era, afinal, extraordinariamente novo. Por isso, talvez a pergunta não seja "quem amo mais?" Porque amor não é uma competição.

Talvez seja: "Com quem quero viver a vida real?". Não apenas as férias. Não apenas os jantares. Não apenas o sexo. Não apenas as mensagens à meia-noite. A vida real. As contas. Os problemas. Os dias em que ninguém está bonito. Os momentos em que um de nós está cansado. As discussões. As decisões difíceis. A doença. O medo. A rotina. O domingo sem planos.

É aí que percebemos muito mais sobre uma relação do que num momento de paixão. Porque a paixão pergunta: "O que sinto quando estou contigo?" O amor maduro também pergunta: "O que conseguimos construir juntos?"

E talvez seja aqui que muitas pessoas se perdem. Ficam tão preocupadas em descobrir qual das duas pessoas amam mais que se esquecem de perceber quem são elas próprias dentro de cada relação.

Com quem és mais tu? Com quem te sentes mais seguro? Com quem não precisas de representar? Com quem consegues falar quando estás magoado? Com quem consegues discordar sem ter medo de perder o amor? E, sobretudo, que tipo de relação queres viver?

Porque às vezes a escolha não é entre duas pessoas. É entre duas versões da tua vida. Uma que conheces, outra que imaginas.

E escolher implica aceitar que não vais saber como teria sido a outra. É isso que torna estas decisões tão difíceis. Queremos garantias. Queremos saber que não vamos arrepender-nos. Queremos escolher e ter a certeza absoluta de que é a pessoa certa.

Mas o amor não oferece garantias. Oferece escolhas. E talvez a maior maturidade esteja em perceber que não precisamos de ter controlo absoluto sobre aquilo que sentimos. Precisamos de ter honestidade suficiente para não transformar os nossos sentimentos numa mentira para outra pessoa.

Porque não és uma má pessoa por te apaixonar por alguém quando já estás numa relação. Mas és responsável pelo que fazes depois de perceber isso.

Podes esconder. Podes alimentar. Podes viver duas histórias. Ou podes parar. Olhar para a tua vida. Perceber o que está a acontecer. E tomar uma decisão que seja coerente contigo e respeitosa para quem está envolvido.

Porque, sim, é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. O que não é possível é garantir que ninguém vai sair magoado quando tentamos manter duas vidas em simultâneo.

E talvez a pergunta mais importante não seja: "Qual das duas pessoas amo?" Mas: "Que escolha consigo fazer sem me trair a mim próprio nem enganar quem confia em mim?"

Porque podemos não mandar no coração. Mas mandamos na forma como o tratamos.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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