"Dormir com o ex depois da separação impede o luto da relação?", por psicóloga Vera de Melo
Há separações que terminam no momento em que alguém diz "acabou". E há separações que acabam numa conversa, continuam por mensagens, reaparecem num "tenho saudades tuas" e acabam outra vez na cama.
- 1 set, 13:06
E é aqui que começa a confusão. Porque duas pessoas podem saber perfeitamente que a relação terminou e, ainda assim, continuarem a procurar-se fisicamente.
"Foi só sexo"; "Foi uma despedida"; "Precisávamos daquele momento"; "Não significa que vamos voltar." Mas será mesmo que o corpo consegue perceber aquilo que a cabeça decidiu? Às vezes, não.
E é precisamente por isso que dormir com um ex depois da separação pode tornar o processo de luto emocional muito mais complicado.
Uma separação não é apenas deixar de viver com alguém ou deixar de chamar àquela pessoa "namorado" ou "namorada".
É perder uma rotina, uma identidade, expectativas, planos, hábitos, intimidade e uma relação de apego que foi construída ao longo do tempo.
O cérebro não recebe uma notificação a dizer: "Relação terminada. Favor eliminar sentimentos." Não funciona assim.
Continuamos habituados àquela pessoa. Ao toque. À voz. À presença. À mensagem de bom dia. À forma como dormíamos juntos. Ao cheiro. À intimidade.
E é precisamente por isso que o sexo pode ser tão confuso depois de uma separação, porque o corpo reconhece aquela pessoa antes de a cabeça conseguir aceitar que a relação acabou.
E quando voltamos a ter intimidade, podemos sentir durante algumas horas aquilo que estávamos a tentar aprender a viver sem. Proximidade. Desejo. Conforto. Segurança. A sensação de pertença.
E depois vem a manhã seguinte. E com ela, muitas vezes, a pergunta: "Então afinal o que somos?" É aqui que aquilo que parecia apenas um momento pode tornar-se emocionalmente muito mais complicado.
Porque o sexo não é emocionalmente neutro para muitas pessoas. A intimidade sexual pode reforçar sentimentos de proximidade e ligação, através de processos neurobiológicos associados ao prazer e à vinculação.
Não significa que todas as pessoas fiquem emocionalmente ligadas depois de ter sexo. Mas significa que, numa relação que acabou recentemente, voltar a ter intimidade pode reativar um vínculo que ainda está muito presente.
E isso pode dificultar o processo de adaptação à separação. É como tentar fechar uma ferida enquanto continuamos a mexer nela. Pode até parecer que estamos a aliviar a dor. Mas a ferida continua aberta.
E existe outra armadilha. A esperança. Mesmo quando dizemos "não vamos voltar", uma parte de nós pode começar a procurar significados: "Se ainda me deseja, talvez ainda me ame"; "Se dormiu comigo, talvez esteja arrependido"; "Se foi tão bom, talvez ainda exista uma hipótese."
E o problema é que o sexo pode significar coisas completamente diferentes para duas pessoas. Para uma pode ser saudade. Para outra pode ser desejo. Para outra pode ser conforto. Para outra pode ser uma despedida. E para uma delas pode significar "talvez ainda exista uma relação".
Quando não existe uma conversa clara, cada pessoa pode sair daquela cama com uma história diferente na cabeça. E isso pode doer muito.
Porque uma pessoa pensa que está a recomeçar. A outra pensa que está apenas a terminar.
Por isso, não é o sexo em si que impede necessariamente o luto da relação. É aquilo que ele representa e aquilo que acontece emocionalmente depois.
Se duas pessoas conseguem manter uma relação sexual depois da separação sem criar expectativas, sem sofrimento, sem confusão e sem impedir que cada uma siga a sua vida, a experiência pode ser diferente.
Mas sejamos honestos. É muito mais difícil do que parece. Sobretudo quando ainda existe amor. Quando uma das pessoas quer voltar. Quando a separação ainda é recente. Quando existe esperança. Quando uma das pessoas está a tentar afastar-se e a outra continua a procurar contacto.
Nessas situações, "sexo sem compromisso" pode ser uma espécie de contradição emocional. Porque o corpo está a viver proximidade enquanto a cabeça está a tentar aprender a viver ausência. E isso pode prolongar o sofrimento.
Pode criar ciclos de aproximação e afastamento. Hoje dormimos juntos. Amanhã desaparecemos. Depois sentimos saudades. Voltamos a encontrar-nos. Voltamos a ter sexo. Voltamos a afastar-nos. E cada reencontro pode reiniciar aquilo que estávamos a tentar terminar.
É aqui que algumas pessoas ficam presas durante meses. Não estão verdadeiramente numa relação. Mas também não conseguem fazer o luto dela.
Estão naquele território estranho em que já não são um casal, mas continuam a comportar-se como tal em alguns momentos. E esse território pode ser emocionalmente exaustivo.
Porque o luto precisa de espaço. Precisa de ausência suficiente para que o cérebro e a vida se reorganizem. Precisamos de reaprender as rotinas. Precisamos de deixar de esperar aquela mensagem. Precisamos de perceber quem somos fora daquela relação. Precisamos de permitir que a saudade apareça sem imediatamente a transformar numa ação.
E isto é muito importante: sentir saudades não significa que devemos voltar. Sentir desejo não significa que devemos dormir juntos. Sentir falta de alguém não significa necessariamente que a relação devesse continuar.
Às vezes, sentimos falta de uma pessoa que sabemos que não queremos voltar a ter na nossa vida. Porque podemos sentir falta do abraço e não sentir falta da relação. Podemos sentir falta do sexo e não sentir falta das discussões. Podemos sentir falta da companhia e continuar a saber que a separação foi a decisão certa.
O cérebro pode ter saudades daquilo que conhecia mesmo quando sabemos que aquilo já não nos fazia bem.
Por isso, talvez antes de voltares para a cama com o teu ex devesses fazer uma pergunta muito simples: "Se depois desta noite ele me disser que não quer voltar, vou ficar bem?" Se a resposta for não, talvez não seja apenas sexo. Talvez estejas a colocar o teu coração numa situação para a qual ainda não está preparado.
E há outra pergunta ainda mais importante: "Estou a fazer isto porque quero esta pessoa ou porque não consigo suportar a ausência dela?" São coisas muito diferentes.
Porque, às vezes, não queremos voltar para a relação. Queremos apenas deixar de sentir a dor da separação. E o sexo pode proporcionar algumas horas de alívio. Só que depois a dor regressa. E, muitas vezes, regressa maior.
Por isso, dormir com o ex não é automaticamente um erro. Mas quando ainda existe sofrimento, esperança ou dificuldade em aceitar o fim, pode tornar o luto muito mais lento e confuso.
Porque para conseguirmos despedir-nos de uma relação, precisamos de aceitar a ausência. E é muito difícil aceitar a ausência de alguém que continua a entrar na nossa cama.
No fundo, a pergunta não é apenas: "Dormir com o ex faz mal?" É: "Consigo dormir com ele sem voltar a alimentar aquilo que estou a tentar deixar morrer?"
Se a resposta for não, talvez a distância seja, naquele momento, uma forma de cuidado. Não porque deixaste de amar. Mas precisamente porque ainda amas.
E porque, às vezes, para conseguir deixar alguém ir, não basta fechar a porta. É preciso parar de voltar a abri-la sempre que sentimos saudades.
