Crónicas

"Dois irmãos abandonados numa estrada: o que revela este caso sobre o impacto emocional nas crianças", por Vera de Melo

A notícia abalou o país. Dois meninos, de apenas quatro e cinco anos, foram encontrados sozinhos na Estrada Nacional 253, entre Alcácer do Sal e a Comporta. A mãe e o padrasto foram, entretanto, detidos esta quinta-feira, dia 21, num café em Fátima, segundo avançou a TVI.

Psicóloga Clínica
  • 22 mai, 12:05
Crianças (imagem meramente ilustrativa)

Mas para lá do choque imediato que uma situação destas provoca, há uma pergunta profundamente humana que merece espaço: o que acontece emocionalmente a uma criança quando quem deveria protegê-la desaparece?

Na infância, o cérebro não interpreta o abandono como um "acontecimento". Interpreta-o como uma ameaça à sobrevivência.

Uma criança pequena depende emocionalmente dos adultos para regular o medo, a segurança, o afeto e até a perceção de valor próprio. Quando essa figura falha de forma abrupta, o impacto pode ser devastador. Não apenas no momento, mas também na forma como aquela criança aprenderá a olhar para o mundo, para os outros e para si própria.

O abandono ativa níveis extremos de stress no organismo. O corpo entra em alerta. O coração acelera. O cérebro procura respostas que não consegue compreender. E muitas vezes, mesmo sem palavras para explicar o que sentem, as crianças carregam dentro delas perguntas silenciosas como:
"Fiz alguma coisa errada?"
"Porque é que não ficaram comigo?"
"Será que ninguém me quer?"

É importante perceber que, nestas idades, as crianças não têm maturidade emocional para separar o comportamento dos adultos do seu próprio valor. Muitas acabam por transformar a ausência em culpa.

Outro ponto essencial é que o trauma infantil nem sempre aparece de forma evidente. Algumas crianças tornam-se agitadas, agressivas e/ou desafiantes. Outras ficam excessivamente caladas, vigilantes e/ou emocionalmente desligadas. Há quem desenvolva dificuldades no sono, medo intenso da separação, regressões no comportamento e/ou problemas futuros na criação de vínculos.

E há algo particularmente doloroso nestes casos: o abandono não acontece apenas no instante em que os adultos partem. O abandono continua dentro da criança sempre que ela sente que não é segura, importante ou digna de amor.

Ao mesmo tempo, a psicologia também nos mostra algo importante: a presença de adultos consistentes, afetivos e emocionalmente disponíveis pode fazer uma diferença enorme no processo de recuperação. Relações seguras têm um poder reparador profundo. Não apagam o que aconteceu, mas ajudam a reconstruir confiança, estabilidade emocional e sentido de pertença.

Casos como este despertam indignação social, naturalmente. Mas talvez também devam servir para reforçar uma reflexão coletiva sobre saúde mental, parentalidade, proteção infantil e intervenção precoce. Porque muitas vezes o sofrimento das crianças começa muito antes de se transformar numa notícia.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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