Crónicas

"Disney Dad: quando o amor se transforma em compensação", por Vera de Melo

Há pais que entram na vida dos filhos como presença. E há pais que entram como evento.

Psicóloga Clínica
  • 10 mai, 12:06

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Chegam carregados de planos, presentes, entusiasmo, permissividade e promessas de um fim de semana inesquecível.

São os pais do 'hoje não faz mal', do 'não contes à mãe', das compras impulsivas, das sobremesas antes do jantar e das regras temporariamente suspensas. À primeira vista, parecem apenas pais divertidos. Pais leves. Pais próximos.

Mas, psicologicamente, o fenómeno do chamado "Disney Dad" revela algo muito mais profundo do que simples descontração parental.

Revela medo. Porque a maioria destes pais não está a tentar amar menos. Está, na verdade, a tentar desesperadamente não perder lugar emocional na vida dos filhos.

O termo "Disney Dad" surgiu para descrever um padrão comum após separações ou divórcios: o progenitor que transforma o tempo com os filhos numa experiência constante de entretenimento, enquanto evita as partes emocionalmente mais exigentes da parentalidade, como limites, rotina, frustração ou responsabilidade.

E o mais interessante é que este comportamento raramente nasce de egoísmo consciente. Na maioria das vezes, nasce de culpa.

Quando um pai deixa de viver diariamente com os filhos, acontece uma mudança emocional silenciosa que muitas pessoas subestimam. Ele deixa de participar nos momentos pequenos. Já não está presente na rotina da escola, no banho antes de dormir, nos trabalhos de casa, nas birras do final do dia ou nas conversas aparentemente banais que, na verdade, constroem intimidade emocional profunda.

E o cérebro humano sente intensamente aquilo que perde.

Sobretudo quando essa perda ameaça identidade.

Porque muitos pais começam a questionar-se silenciosamente: "E se eu deixar de ser importante?"; "E se os meus filhos precisarem mais do outro progenitor?"; "E se eu passar a ser apenas uma visita divertida?"

A culpa parental instala-se exatamente aí. E a culpa tem uma característica psicológica muito particular: ela raramente cria equilíbrio. Cria compensação.

Quando alguém sente que falhou emocionalmente, tende a oferecer algo em excesso para aliviar internamente essa dor.

Alguns compensam com presentes. Outros com permissividade. Outros transformam cada encontro numa tentativa constante de criar felicidade.

Sem perceber, o amor começa a ser confundido com performance emocional.

Cada fim de semana precisa de ser especial.

Cada momento precisa de gerar entusiasmo.

Cada encontro precisa de deixar marca.

Só que a relação começa lentamente a depender de estímulo em vez de presença. E as crianças, naturalmente, respondem a isso. O cérebro infantil procura prazer imediato. Procura ambientes leves, divertidos e emocionalmente fáceis. Um progenitor associado à ausência de regras e à recompensa constante torna-se extremamente apelativo. Enquanto um adulto representa horários, responsabilidades e limites, o outro representa liberdade, dopamina e excitação emocional.

Mas aquilo que atrai uma criança nem sempre corresponde ao que a faz sentir-se segura. Porque segurança emocional não nasce da ausência de frustração. Nasce da consistência.

Uma criança precisa de adultos previsíveis. Precisa de sentir que existe alguém capaz de permanecer emocionalmente disponível mesmo quando ela está difícil, irritada, frustrada ou desagradável. Precisa de limites porque os limites organizam emocionalmente o cérebro infantil. Criam estabilidade interna.

Criam sensação de proteção.

E talvez esta seja a parte mais difícil da parentalidade: aceitar que amar uma criança implica, muitas vezes, tolerar não ser sempre o favorito.

O "Disney Dad" tem frequentemente dificuldade exatamente nisso. Não porque não ame os filhos. Mas porque o medo de perder vínculo emocional é tão intenso que começa, sem perceber, a procurar aprovação constante através da diversão.

E é aqui que a dinâmica se torna emocionalmente delicada. Porque quando o amor aparece sempre associado a entretenimento, a criança pode crescer com uma associação inconsciente perigosa: a ideia de que relações saudáveis devem ser constantemente estimulantes, fáceis e prazerosas.

Mas relações humanas reais não funcionam assim. As relações mais seguras raramente são as mais excitantes o tempo todo.

São as mais estáveis.

São aquelas onde existe espaço para silêncio, frustração, aborrecimento, rotina e imperfeição sem que o vínculo desapareça.

Aliás, muitos filhos de "Disney Dads" só compreendem esta dinâmica na idade adulta. Durante a infância adoram a ausência de regras e a sensação constante de novidade. Mas mais tarde começam a perceber que aquilo que mais constrói vínculo não são os momentos extraordinários.

São os momentos repetidos.

Quem estava presente nos dias normais.

Quem conseguia ouvir sem precisar de impressionar.

Quem permanecia emocionalmente disponível quando a vida deixava de ser divertida.

Porque presença emocional verdadeira raramente parece espetáculo.

Parece continuidade.

No fundo, o fenómeno do "Disney Dad" fala sobre algo profundamente humano: o medo de deixarmos de ser escolhidos por quem amamos. E talvez seja precisamente isso que torna este tema tão emocionalmente complexo. Porque muitos destes pais não estão a tentar substituir amor por diversão. Estão apenas a tentar garantir, da única forma que sabem, que continuam a ter um lugar seguro no coração dos filhos. Só que os filhos não precisam de um pai inesquecível todos os fins de semana. Precisam de alguém emocionalmente presente quando o espetáculo termina.

Talvez o verdadeiro amor parental comece exatamente no momento em que um pai deixa de tentar ser inesquecível… e aprende apenas a só estar!

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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