"Como explicar a morte às crianças? O que dizer quando não temos palavras", por Vera de Melo
As crianças precisam de saber a verdade, mas precisam de a receber numa linguagem que consigam compreender.
- 20 ago, 15:34
Há conversas para as quais nenhum pai ou mãe se sente verdadeiramente preparado.
A morte é uma delas.
Quando morre alguém próximo, a primeira vontade de muitos adultos é proteger a criança. Evitar palavras difíceis. Esconder a tristeza. Dizer que “foi fazer uma viagem”, que “adormeceu” ou que “foi para um lugar melhor”.
Fazemo-lo por amor.
Mas, paradoxalmente, aquilo que pensamos estar a protegê-la pode deixá-la ainda mais confusa.
As crianças precisam de saber a verdade, mas precisam de a receber numa linguagem que consigam compreender.
E há uma regra muito importante: não precisamos de explicar tudo. Precisamos de explicar o suficiente para que a criança não fique sozinha a tentar inventar as respostas.
“A avó morreu.” E agora?
Pode parecer uma frase demasiado dura.
Mas é precisamente a palavra certa.
Morreu.
As crianças precisam de perceber que a morte significa que o corpo deixou de funcionar: a pessoa deixou de respirar, o coração deixou de bater e não vai voltar.
Evitar a palavra “morte” pode criar mais confusão.
Se dissermos que alguém “adormeceu”, por exemplo, uma criança pode começar a ter medo de dormir. Se dissermos que “foi viajar”, pode ficar à espera que volte.
A nossa tentativa de suavizar a realidade pode, sem intenção, criar novos medos.
Mas as crianças entendem a morte da mesma forma que os adultos?
Não.
E isto é fundamental.
Uma criança pequena pode compreender a ausência antes de compreender a irreversibilidade da morte. Pode perguntar várias vezes onde está a pessoa, quando volta ou porque não pode falar com ela.
Não está necessariamente a ignorar o que aconteceu.
Está a tentar construir, aos poucos, uma realidade que ainda não consegue compreender completamente.
E há outra coisa que pode surpreender os adultos: uma criança pode chorar durante alguns minutos e, pouco depois, ir brincar.
Isso não significa que não esteja triste.
As crianças vivem o luto de uma forma diferente dos adultos. Podem entrar e sair da tristeza. Podem fazer perguntas, brincar, rir e voltar a perguntar pela pessoa.
Não devemos interpretar o brincar como falta de sofrimento.
Brincar também pode ser uma forma de o cérebro infantil respirar.
“Foi por minha causa?”
Esta é uma das perguntas que precisamos de antecipar.
As crianças, sobretudo as mais pequenas, podem acreditar que os pensamentos, comportamentos ou acontecimentos que viveram tiveram influência na morte.
“Foi porque eu me portei mal?”
“Foi porque ontem fiquei zangado?”
“Foi porque desejei que ela desaparecesse?”
É essencial retirar essa culpa.
Explicar claramente: “Nada do que disseste, pensaste ou fizeste provocou a morte.”
E se a criança perguntar: “Tu também vais morrer?”
Esta é provavelmente uma das perguntas que mais assusta os pais.
E muitas vezes respondemos rapidamente: “Claro que não!”
Mas essa promessa não é possível.
Podemos dizer:
“Todas as pessoas morrem um dia. Mas eu estou aqui, estou saudável e espero estar contigo durante muitos e muitos anos. Agora estás seguro e eu vou continuar a cuidar de ti.”
É uma resposta difícil porque não elimina a incerteza.
Mas ensina uma coisa muito importante: podemos falar de temas assustadores sem destruir a sensação de segurança.
Devemos levar a criança ao funeral?
Não existe uma resposta igual para todas as crianças.
Pode ser importante permitir a participação, desde que seja preparada para aquilo que vai encontrar e tenha liberdade para decidir, de acordo com a idade e maturidade.
Podemos explicar previamente o que vai acontecer, quem estará presente e como as pessoas poderão reagir.
“Algumas pessoas vão chorar. Outras podem abraçar-se. Podemos ficar tristes. Tu também podes chorar. E se não quiseres chorar, também está tudo bem.”
O mais importante é que a criança não seja obrigada a representar uma determinada emoção.
E nós, adultos?
Também podemos chorar à frente dos nossos filhos.
Aliás, talvez seja importante que nos vejam chorar.
Não precisamos de esconder todas as emoções para sermos figuras seguras.
Podemos dizer:
“Estou triste porque gostava muito desta pessoa. Estou a chorar porque sinto saudades. Mas estou aqui contigo e vou cuidar de ti.”
Isto ensina à criança algo extraordinariamente importante: sentir tristeza não significa deixar de estar seguro.
O luto não é uma conversa que acontece uma única vez.
É uma conversa que pode voltar semanas, meses ou até anos depois. Uma música, um aniversário, um cheiro, uma fotografia ou uma pergunta inesperada pode trazer novamente a pessoa para a memória.
E quando isso acontecer, não precisamos de fugir da conversa.
Podemos falar.
Podemos recordar.
Podemos dizer o nome de quem morreu.
Porque falar de quem partiu não faz com que a criança fique presa à morte.
Ajuda-a a integrar a perda na sua história.
E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que podemos fazer quando alguém morre: não tentar apagar a dor da criança, mas garantir que ela nunca precise de atravessá-la sozinha.
Porque proteger uma criança não é escondê-la das coisas difíceis da vida.
É ensiná-la que, mesmo perante as coisas mais difíceis, há sempre um adulto disponível para lhe dar colo, palavras e segurança.
