Crónicas

"Como educamos os nossos filhos para terem empatia quando só nos apetece dizer: 'Se vires confusão, foge'?", por Vera de Melo

Quando acontece um episódio de violência grave envolvendo jovens, há uma parte de nós que fica presa ao acontecimento durante dias. Pensamos na vítima. Pensamos na família. Pensamos nos jovens envolvidos. E, inevitavelmente, pensamos nos nossos próprios filhos.

  • 17 jun, 15:16

É nesses momentos que a educação deixa de ser uma teoria bonita e passa a ser uma inquietação profundamente pessoal.

Porque passamos anos a ensinar os nossos filhos a respeitar os outros, a defender quem é mais vulnerável, a não serem indiferentes ao sofrimento alheio. Dizemos-lhes que a empatia importa. Que não devem rir quando alguém é humilhado. Que não devem excluir um colega. Que devem ajudar quando alguém precisa.

Mas quando vemos imagens de violência extrema, quando percebemos que uma simples saída entre amigos pode transformar-se numa tragédia, surge uma voz diferente dentro de nós.

Uma voz mais primitiva.
Mais instintiva.
Mais parental.
E essa voz não diz: "Ajuda."
Essa voz diz: "Afasta-te."
"Vai embora."
"Não te metas."
"Foge."

À primeira vista, estas duas mensagens parecem incompatíveis. Como podemos educar para a empatia e, simultaneamente, ensinar os nossos filhos a protegerem-se?
A verdade é que este conflito não representa um fracasso educativo. Representa uma das tensões mais complexas da condição humana.

Por um lado, somos seres sociais. O nosso cérebro foi moldado para viver em grupo. A sobrevivência da espécie dependeu, durante milhares de anos, da capacidade de cooperar, proteger os mais vulneráveis e responder ao sofrimento dos outros. A empatia não é apenas uma qualidade moral. É uma competência evolutiva.

Por outro lado, também estamos biologicamente programados para sobreviver.

Quando sentimos perigo, o cérebro ativa mecanismos automáticos de proteção. A amígdala cerebral identifica a ameaça antes mesmo de termos tempo para refletir sobre ela. O organismo prepara-se para lutar, fugir ou congelar. O medo não é um sinal de fraqueza. É um sistema de segurança.

O problema surge quando tentamos educar os nossos filhos ignorando uma destas dimensões.
Se educarmos apenas para a autoproteção, podemos criar jovens que aprendem a olhar apenas para si próprios. Jovens que desenvolvem uma espécie de anestesia emocional perante a dor dos outros. Jovens que pensam que qualquer problema que não lhes diga respeito deve ser evitado.

Mas se educarmos apenas para a solidariedade, sem falar sobre risco, perigo e limites, podemos transmitir uma ideia irrealista da vida. Como se ajudar significasse sempre intervir diretamente. Como se a coragem fosse sinónimo de exposição ao perigo.

A psicologia mostra-nos que a verdadeira maturidade não nasce dos extremos.
Nasce da integração.
O objetivo não é escolher entre empatia e segurança.
É ensinar a conjugá-las.

Talvez uma das maiores falhas da educação contemporânea seja continuarmos a falar da empatia como uma emoção e não como uma competência.
Sentir empatia é relativamente fácil.
A maioria das pessoas sente desconforto perante o sofrimento de alguém.
O difícil é saber o que fazer com esse desconforto.

É por isso que tantas pessoas assistem a situações de violência sem agir. Não porque sejam indiferentes. Não porque sejam más pessoas. Mas porque entram num estado psicológico de bloqueio.

A investigação em psicologia social descreve este fenómeno há décadas.
Quando várias pessoas assistem ao mesmo acontecimento, tende a surgir aquilo que se chama difusão da responsabilidade. Cada indivíduo acredita, de forma mais ou menos inconsciente, que outra pessoa fará alguma coisa.
Ao mesmo tempo, existe medo.
Existe confusão.
Existe a dificuldade em perceber rapidamente o nível real de perigo.
Existe o receio de se tornar a próxima vítima.

É fácil julgar quem ficou parado quando observamos a situação à distância. É muito mais difícil compreender o que acontece no cérebro humano quando a violência surge de forma inesperada e caótica.

Por isso, talvez a questão não seja ensinar os nossos filhos a serem heróis.
Talvez seja ensiná-los a serem responsáveis.
E existe uma diferença importante entre as duas coisas.
O herói entra na narrativa para salvar.
A pessoa responsável procura a forma mais eficaz de ajudar.

Por vezes, isso implica intervir.
Por vezes, implica chamar as autoridades.
Por vezes, implica procurar ajuda junto de outros adultos.
Por vezes, implica filmar para recolher prova e não para publicar nas redes sociais.
Por vezes, implica afastar-se para procurar apoio.
E, em determinadas circunstâncias, implica reconhecer que avançar sozinho para uma situação violenta pode apenas aumentar o número de vítimas.

A empatia madura compreende esta diferença.
Não confunde compaixão com impulsividade.
Não confunde coragem com imprudência.
Não confunde ajuda com sacrifício.
Talvez seja precisamente esta mensagem que os jovens mais precisam de ouvir.

A empatia não significa colocar a própria vida em risco.
Significa não ficar indiferente.
Significa reconhecer que o sofrimento de outra pessoa merece uma resposta.
Mesmo que essa resposta não seja a intervenção direta.
Vivemos numa época em que muitos adolescentes crescem expostos a imagens constantes de violência. Vídeos, agressões, humilhações públicas e episódios chocantes circulam diariamente nos ecrãs. Existe o risco de a repetição criar habituação. Quando vemos sofrimento demasiadas vezes, podemos começar a senti-lo menos.
É por isso que educar para a empatia se tornou mais importante do que nunca.
Mas educar para a empatia não é apenas ensinar a sentir.
É ensinar a pensar.
A avaliar.
A decidir.
A agir de forma responsável.

É ensinar que uma pessoa forte não é aquela que enfrenta todos os perigos.
É aquela que consegue manter os seus valores mesmo quando sente medo.
No fundo, aquilo que desejamos para os nossos filhos não é que se tornem heróis.
Também não é que se tornem espectadores passivos.
Desejamos que se tornem seres humanos capazes de proteger a própria segurança sem perder a capacidade de se preocupar com os outros.
Porque uma sociedade saudável não é construída por pessoas que se atiram para todos os riscos.
Mas também não é construída por pessoas que passam pela dor dos outros como se ela não existisse.

Talvez a mensagem mais equilibrada que possamos transmitir seja esta:
"Se vires uma situação perigosa, protege-te primeiro. Mas nunca permitas que o medo te transforme numa pessoa indiferente. Nem sempre poderás intervir diretamente. Mas haverá quase sempre alguma forma segura de ajudar."

Entre a imprudência e a indiferença existe um espaço fundamental.
É nesse espaço que nasce a responsabilidade.
É nesse espaço que cresce a cidadania.
E é nesse espaço que a verdadeira empatia encontra o seu lugar.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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