Crónicas

"'Chamar a Jéssica': a trend que viralizou… mas será que funciona?", por Vera de Melo

Nos últimos meses, uma trend começou a ganhar força no Brasil e começa agora a aparecer em Portugal: perante uma birra, um choro intenso ou um momento de desregulação emocional de uma criança, o adulto diz algo como "vou chamar a Jéssica".

Psicóloga Clínica
  • 19 mai, 12:33
Vera de Melo

A "Jéssica" surge como uma figura imaginária, misteriosa e, muitas vezes, associada a medo, autoridade ou ameaça. Em muitos vídeos, basta a referência ao nome para a criança interromper imediatamente o comportamento, ficando em silêncio, imóvel ou visivelmente assustada. O fenómeno espalhou-se rapidamente pelas redes sociais porque provoca surpresa, humor e identificação entre adultos cansados da intensidade emocional infantil. No entanto, aquilo que parece apenas uma brincadeira viral levanta questões importantes do ponto de vista psicológico e do desenvolvimento emocional infantil.

As birras fazem parte do desenvolvimento saudável da criança. São manifestações de frustração, incapacidade de autorregulação, cansaço, sobrecarga emocional ou necessidade de ligação. O cérebro infantil, especialmente nos primeiros anos de vida, ainda não possui maturidade neurológica suficiente para gerir emoções intensas da mesma forma que um adulto. Durante uma birra, a criança não está a "manipular" nem a "testar limites" de forma consistente. Na maioria das vezes, encontra-se num estado de ativação emocional elevado, em que o sistema nervoso entra em alerta e o corpo reage como se estivesse perante uma ameaça. É precisamente por isso que a forma como o adulto responde tem impacto direto na construção da segurança emocional da criança.

 

"Uma criança calma sente-se segura. Uma criança assustada paralisa."

 

Quando surge uma figura ameaçadora imaginária para interromper o comportamento, o que acontece não é regulação emocional, mas sim inibição por medo. A criança não aprende a compreender o que sente, nem a desenvolver ferramentas internas para lidar com a frustração. Aprende, antes, que determinadas emoções podem afastar o amor, provocar abandono ou trazer consequências assustadoras. O silêncio que aparece depois da ameaça pode ser confundido com calma, mas do ponto de vista psicológico são processos muito diferentes. Uma criança calma sente-se segura. Uma criança assustada paralisa.

A utilização de figuras imaginárias ameaçadoras não é nova na história da parentalidade. Em diferentes culturas existiram personagens utilizadas para controlar comportamentos infantis através do medo. O "homem do saco", o "bicho-papão" ou expressões como "o polícia vem buscar-te" fazem parte de estratégias educativas transmitidas entre gerações. A diferença é que, hoje, estas práticas ganharam palco digital, são replicadas em massa e reforçadas através do humor e da validação social. Quando milhares de pessoas reproduzem o mesmo comportamento em vídeos virais, cria-se a sensação de normalidade e legitimidade, mesmo quando existem efeitos emocionais potencialmente negativos.

Do ponto de vista da teoria da vinculação, a criança necessita de sentir que o adulto é uma base segura perante o desconforto emocional. Isto significa que, nos momentos de maior intensidade, o cérebro infantil procura proteção, previsibilidade e co-regulação. Quando o adulto responde com ameaça, ridicularização ou medo, a criança pode experienciar confusão emocional: a mesma figura que deveria trazer segurança torna-se fonte de ameaça. Em alguns casos, isto pode contribuir para padrões de insegurança emocional, hipervigilância ou dificuldade em expressar emoções de forma saudável.

 

"A criança necessita de sentir que o adulto é uma base segura perante o desconforto emocional."

 

Importa também compreender porque é que esta trend gera tanta identificação entre adultos. Muitos pais e cuidadores vivem exaustos, emocionalmente sobrecarregados e sem rede de apoio. As birras repetidas podem ativar sentimentos de impotência, irritação e falha. Nas redes sociais, soluções rápidas e aparentemente eficazes tornam-se altamente apelativas. O problema é que a eficácia imediata nem sempre corresponde a benefício emocional a longo prazo. Um comportamento pode parar naquele instante, mas deixar marcas subtis na forma como a criança interpreta o mundo, as relações e as próprias emoções.

Existe ainda um fenómeno psicológico relevante associado a estas trends: a dessensibilização emocional coletiva. Quando conteúdos potencialmente intimidatórios são apresentados em tom humorístico e acumulam milhões de visualizações, o cérebro social tende a minimizar o impacto real do comportamento. O riso coletivo funciona como validação implícita. Isto não significa que os adultos envolvidos tenham intenção de magoar as crianças. Na maioria das vezes, estão apenas a reproduzir estratégias aprendidas culturalmente, procurando sobreviver ao caos emocional do dia a dia. Ainda assim, intenção e impacto nem sempre coincidem.

A psicologia do desenvolvimento mostra-nos que crianças emocionalmente seguras não aprendem através do medo, mas através da relação. Limites são fundamentais, mas limites não exigem intimidação. Uma criança precisa de adultos capazes de conter emocionalmente sem humilhar, assustar ou desvalorizar aquilo que sente. Isto implica reconhecer que a birra não é um espetáculo para controlar, mas um pedido de ajuda emocional ainda sem palavras suficientes.

 

"Crianças emocionalmente seguras não aprendem através do medo, mas através da relação."

 

O crescimento desta trend também revela algo mais profundo sobre a sociedade contemporânea: a dificuldade coletiva em tolerar emoções intensas, especialmente as emoções das crianças. Vivemos numa cultura orientada para rapidez, silêncio e performance social. Uma criança que chora em público continua a gerar desconforto social em muitos contextos. Assim, estratégias que “desligam” rapidamente o comportamento tornam-se sedutoras, mesmo que emocionalmente empobrecedoras.

Talvez a pergunta mais importante não seja porque as crianças fazem birras, mas porque os adultos sentem tanta urgência em silenciá-las. Porque, muitas vezes, aquilo que mais incomoda não é o choro infantil em si, mas o que ele desperta emocionalmente nos próprios adultos: sensação de perda de controlo, vergonha, impotência ou memórias inconscientes da própria infância emocional.

No meio de trends, vídeos virais e soluções rápidas, continua a existir uma verdade essencial do desenvolvimento humano: crianças não precisam de personagens assustadoras para aprender a regular emoções. Precisam de adultos emocionalmente disponíveis, consistentes e capazes de permanecer presentes mesmo nos momentos mais difíceis. Porque é precisamente aí que o cérebro infantil aprende o que fazer com aquilo que sente.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados