Crónicas

"Chamamos-lhe brincadeira porque ainda não queremos chamar-lhe crueldade", por psicóloga Vera de Melo

"Era só uma brincadeira." É talvez uma das frases que mais me preocupa quando falamos de crianças e adolescentes.

  • 26 ago, 12:09

Porque, muitas vezes, aquilo que para uns é uma brincadeira, para outro é o momento em que começa a ter vergonha de entrar na escola.

Uma fotografia manipulada com inteligência artificial. Um vídeo gravado às escondidas. Uma conversa privada partilhada num grupo. Uma fotografia íntima que circula sem autorização. Uma alcunha que começa por provocar gargalhadas e acaba por se transformar na forma como aquela criança passa a ser vista.

"Era só uma brincadeira." Mas será? Uma brincadeira pressupõe que todos se divertem. Quando uma pessoa ri e outra sofre, já não estamos a falar de brincadeira. Estamos a falar de humilhação.

E talvez este seja um dos grandes desafios da parentalidade e da educação nos dias de hoje: ensinar às crianças que o facto de alguma coisa provocar riso não significa que seja engraçada.

O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, sobretudo nas áreas envolvidas na avaliação das consequências, controlo dos impulsos e tomada de decisão. Ao mesmo tempo, a necessidade de pertença ao grupo é enorme.

E isto cria uma combinação poderosa. O grupo ri. Eu quero pertencer. Partilho. Todos continuam a rir.

E, durante alguns segundos, a sensação de pertença pode falar mais alto do que a capacidade de pensar no sofrimento do outro.

É por isso que dizer apenas "isso é feio" não chega. Precisamos de ensinar empatia. Mas empatia não é dizer a uma criança "tens de te pôr no lugar do outro".

É ajudá-la, concretamente, a imaginar: "E se fosse a tua fotografia?"; "E se amanhã toda a escola tivesse acesso a ela?"; "E se entrasses na sala e soubesses que todos tinham visto?"; "E se ninguém te conseguisse devolver aquilo que perdeste naquele momento?”

Porque há uma coisa que os adultos precisam de compreender: a humilhação pública na adolescência pode ser vivida de uma forma profundamente dolorosa.

Na adolescência, a opinião dos pares ganha um peso enorme na construção da identidade.

É a idade em que começamos a perguntar: "Quem sou eu?"; "Será que gostam de mim?"; "Como é que os outros me veem?".

Por isso, ser exposto, ridicularizado ou excluído pode atingir muito mais do que aquele momento. Pode atingir a autoestima. A sensação de pertença. A confiança. A imagem que aquela pessoa tem de si própria.

E quando colocamos a tecnologia no meio, existe ainda outra dificuldade. O sofrimento deixa de terminar quando a criança chega a casa. Uma humilhação pode continuar a circular enquanto ela dorme. Pode reaparecer no dia seguinte. Pode ser guardada, copiada, reenviada. Pode chegar a pessoas que ela nem conhece.

A criança já não consegue simplesmente "ir embora". E é precisamente por isso que precisamos de falar também com quem assiste. Porque quem cria não é o único interveniente. Quem partilha participa. Quem incentiva participa. Quem comenta participa. E quem percebe que alguém está a ser destruído e decide não fazer nada também precisa de aprender que ficar calado nem sempre é neutralidade.

Há uma pergunta que gosto de fazer aos pais: "Que tipo de pessoa queres que o teu filho seja quando ninguém adulto está a olhar?"

Porque educar não é apenas ensinar uma criança a proteger-se do mundo. É ensiná-la a não se tornar parte daquilo que pode magoar alguém.

Precisamos de ensinar os nossos filhos a ter coragem para não rir. Coragem para não partilhar. Coragem para dizer "isso não tem graça". Coragem para sair de um grupo. Coragem para defender alguém quando seria mais fácil ficar calado.

E talvez precisemos também de ensinar uma coisa muito simples: nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. Nem tudo o que pode ser publicado deve ser publicado. Nem tudo o que provoca gargalhadas é inocente. E nem tudo aquilo a que chamamos "brincadeira" merece esse nome.

Porque, quando uma criança deixa de rir e começa a ter medo, quando deixa de querer ir à escola, quando começa a esconder o telemóvel, quando muda a forma como olha para si própria...  talvez esteja na altura de deixarmos de perguntar: "Quem começou a brincadeira?" E começarmos a perguntar: "Quem ficou a sofrer depois dela?" É aí que começa a verdadeira educação emocional.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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