"Brain Rot: a epidemia silenciosa que está a roubar a nossa atenção", por psicóloga Vera de Melo
Passamos horas a consumir informação, mas cada vez mais pessoas sentem dificuldade em concentrar-se, refletir e manter a atenção.
- 15 jun, 16:12
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O fenómeno conhecido como brain rot está a levantar questões importantes sobre o impacto da vida digital no funcionamento da mente.
Passas de vídeo em vídeo. Respondes a uma mensagem enquanto lês um email. Interrompes uma tarefa para verificar uma notificação e, quando voltas ao que estavas a fazer, já nem te lembras exatamente onde ias.
Se isto te parece familiar, não estás sozinho.
Nos últimos meses, uma expressão tem ganho popularidade nas redes sociais: brain rot. Apesar de não ser um diagnóstico psicológico, o termo descreve uma sensação que muitas pessoas reconhecem cada vez melhor: a dificuldade em manter a atenção, pensar com profundidade, concentrar-se durante longos períodos ou simplesmente permanecer presente numa única tarefa.
Mas o que nos diz a psicologia sobre este fenómeno?
O cérebro humano não foi desenhado para lidar com uma sucessão interminável de estímulos. Notificações, vídeos curtos, mensagens, notícias, publicações e conteúdos que disputam constantemente a nossa atenção. Cada interrupção exige que o cérebro mude de foco, e essa mudança tem um custo.
A investigação em psicologia cognitiva mostra que a atenção é um recurso limitado. Quanto mais frequentemente alternamos entre tarefas, mais energia mental consumimos. O resultado pode traduzir-se em fadiga mental, menor capacidade de concentração, dificuldades de memória e uma crescente sensação de dispersão.
O problema não está apenas na quantidade de tempo que passamos online. Está também na forma como consumimos informação.
Os conteúdos rápidos e altamente estimulantes oferecem pequenas recompensas imediatas ao cérebro. Aos poucos, habituamo-nos a esperar novidade constante. Como consequência, atividades que exigem paciência, esforço ou reflexão começam a parecer mais difíceis. Ler um livro, acompanhar uma conversa longa, estudar ou dedicar-se a uma tarefa complexa pode tornar-se um verdadeiro desafio.
Muitas pessoas interpretam esta dificuldade como falta de disciplina ou motivação. No entanto, em muitos casos, o que existe é uma mente sobrecarregada por excesso de estímulos.
A boa notícia é que o cérebro possui uma extraordinária capacidade de adaptação.
Tal como treinamos os músculos do corpo, também podemos treinar a atenção. Pequenas mudanças podem produzir resultados significativos: criar momentos sem notificações, limitar o consumo de conteúdos rápidos, fazer uma tarefa de cada vez, recuperar hábitos de leitura ou reservar alguns minutos diários para simplesmente estar em silêncio.
A atenção cresce quando é exercitada.
Num mundo que nos pede constantemente para olhar para tudo ao mesmo tempo, talvez o verdadeiro desafio seja voltar a aprender a olhar para uma coisa de cada vez.
Porque o problema pode não ser o teu cérebro estar a falhar.
Talvez esteja apenas a tentar sobreviver a um mundo que nunca para de lhe pedir atenção.
E talvez uma das formas mais importantes de cuidar da saúde mental, hoje, seja proteger aquilo que temos de mais valioso: a capacidade de estar verdadeiramente presentes na nossa própria vida.
