Crónicas

"Bloquear um ex é imaturidade ou inteligência emocional?", por psicóloga Vera de Melo

Há quem diga que bloquear um ex é infantil: "Se és uma pessoa madura, consegues vê-lo e não sentir nada"; "Bloquear é dar demasiada importância"; "Se já ultrapassaste, para quê bloquear?"

  • 31 ago, 09:07

Mas talvez estejamos a confundir maturidade com capacidade de suportar aquilo que nos faz mal. Porque, às vezes, bloquear alguém não é uma birra. É um limite.

E existe uma diferença enorme entre bloquear alguém para provocar uma reação e bloquear alguém porque sabes que continuar a ter acesso àquela pessoa te impede de seguir em frente.

O botão é exatamente o mesmo. A intenção é que pode ser completamente diferente.

Há quem bloqueie para que o ex perceba que está magoado. Para que fique curioso. Para que pergunte porquê. Para que procure outro caminho para chegar até nós.

Nesse caso, talvez o bloqueio seja apenas mais uma forma de continuar emocionalmente ligado. É o clássico:
"Bloqueei, mas espero que ele dê um jeito de saber que o bloqueei." Isso não é propriamente distância. É uma conversa que mudou de canal.

Mas existe outro tipo de bloqueio. Aquele em que não queres provocar nada. Não queres que a pessoa volte. Não queres que veja o que publicas. Não queres saber com quem está. Não queres receber uma mensagem às duas da manhã. Não queres passar o dia a interpretar um "gosto" numa fotografia.

Queres simplesmente recuperar o silêncio. E aí, bloquear pode ser uma decisão de inteligência emocional. Porque terminar uma relação não significa que o cérebro tenha terminado imediatamente o vínculo.

O apego não desaparece porque decidimos acabar. Continuamos habituados à presença daquela pessoa, às mensagens, às rotinas, à expectativa de contacto. E cada pequena interação pode reativar pensamentos, emoções e esperança.

É por isso que aquele "só vou ver o Instagram uma vez" pode transformar-se numa investigação criminal às duas da manhã.

Quem é aquela pessoa? Porque é que começou a seguir aquela mulher? Porque é que publicou aquela música? Será que aquela frase é para mim? Será que está feliz? Será que já me esqueceu?

E, quando damos por nós, estamos outra vez emocionalmente dentro de uma relação que já terminou. O problema não é o Instagram. É aquilo que acontece dentro de nós quando o usamos para continuar ligados.

Por isso, às vezes, bloquear não é fugir do ex. É parar de fugir de nós próprios. É reconhecer: "Eu ainda não consigo ter esta pessoa à minha frente sem me desorganizar emocionalmente."

E isso não é fraqueza. É autoconsciência. Aliás, inteligência emocional não significa conseguir estar perante qualquer pessoa sem sentir nada. Significa saber reconhecer aquilo que sentimos e agir de forma a proteger o nosso equilíbrio.

Se ver o teu ex não te provoca absolutamente nada, ótimo. Se conseguem manter uma relação cordial, saudável e verdadeiramente desligada, também ótimo.

Mas se cada fotografia te destrói o dia, cada mensagem reacende esperança e cada encontro te deixa a pensar durante horas, talvez manter aquela porta aberta não seja maturidade. Talvez seja apenas sofrimento com acesso ilimitado.

E existe ainda uma diferença importante. Bloquear não significa necessariamente odiar. Não significa que aquela pessoa foi um monstro. Não significa que tudo o que viveram foi mentira. E não significa sequer que nunca mais possam falar.

Às vezes significa apenas: "Neste momento, eu preciso de distância para conseguir recuperar." E isso pode ser uma decisão muito saudável.

O problema aparece quando transformas o bloqueio numa arma. Bloquear e desbloquear para provocar ansiedade. Bloquear depois de uma discussão para obrigar o outro a procurar-te. Desbloquear quando sentes saudades. Voltar a bloquear quando estás zangada.

Isso já não é propriamente um limite. É uma dança emocional. E enquanto danças, continuas presa à mesma música.

Um limite saudável não precisa de ser anunciado. Não precisa de ameaças. Não precisa de "vou bloquear-te para veres". Não precisa de uma explicação de quinze parágrafos. Às vezes é simplesmente uma decisão silenciosa: "Isto não me faz bem. Por isso, vou afastar-me."

E talvez seja esta a parte que mais custa depois de uma separação. Aceitar que não precisas de provar ao outro que estás bem. Não precisas que o ex veja que estás feliz. Não precisas que perceba o que perdeu. Não precisas que tenha saudades. Não precisas de publicar uma vida extraordinária para que ele perceba que seguiste em frente.

Porque enquanto ainda estás preocupada com aquilo que o outro pensa, uma parte de ti continua emocionalmente dependente da sua atenção.

E seguir em frente não é conseguir que o ex veja que já não precisas dele. É chegar ao ponto em que já não precisas que ele veja nada.

Por isso, bloquear pode ser imaturidade. Mas também pode ser inteligência emocional.

Tudo depende da pergunta que está por trás do botão. "Quero que ele sofra?" ou "Preciso de espaço para deixar de sofrer?" A primeira mantém-te ligado. A segunda pode finalmente começar a libertar-te.

Porque, no fim, inteligência emocional não é manter todas as portas abertas para provar que és uma pessoa madura.

Às vezes, inteligência emocional é perceber que algumas portas precisam de ser fechadas. Não para punir quem ficou do outro lado. Mas para conseguires voltar a viver do teu lado.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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