Crónicas

"As férias são mesmo uma prova de fogo para o casamento?", por psicóloga Vera de Melo

Todos os anos acontece o mesmo. Passamos meses à espera das férias. Imaginamo-las como um período de descanso, proximidade e felicidade. Sonhamos com manhãs sem despertador, refeições demoradas, passeios ao fim da tarde e mais tempo para a relação. Mas, para muitos casais, as férias acabam por trazer exatamente o contrário.

  • 18 jun, 20:00
Vera de Melo
Vera de Melo Foto: D.R.

Mais discussões. Mais irritação. Mais conflitos. Mais distância emocional.

E surge então a pergunta: serão as férias uma verdadeira prova de fogo para o casamento?
A resposta curta é sim.
Mas provavelmente não pelas razões que a maioria das pessoas imagina.

Não é o hotel.
Não é a viagem.
Não é o calor.
Não são as crianças.
Pelo menos não diretamente.
O que acontece é que as férias têm uma característica psicológica muito particular: retiram os distraidores que habitualmente mantêm os problemas da relação adormecidos.

Durante grande parte do ano, os casais vivem numa espécie de equilíbrio funcional. Trabalho, horários, filhos, responsabilidades domésticas, compromissos familiares e obrigações diárias ocupam uma enorme quantidade de espaço mental.
A rotina pode ser cansativa, mas tem uma vantagem.
Organiza a vida.
Estrutura o tempo.
E, muitas vezes, impede que determinados problemas venham à superfície.

Quando chegam as férias, essa estrutura desaparece.
De repente, duas pessoas que estavam habituadas a cruzar-se entre reuniões, tarefas e listas intermináveis de afazeres passam a estar juntas durante muitas horas consecutivas.
E é nesse momento que algumas relações descobrem uma verdade desconfortável.
Estavam habituadas a funcionar.
Mas já não sabiam verdadeiramente estar.

A psicologia mostra que a proximidade não depende apenas da quantidade de tempo partilhado. Depende sobretudo da qualidade da ligação emocional.

É possível passar muito tempo ao lado de alguém e sentir uma enorme solidão. Também é possível passar poucas horas juntos e sentir uma ligação profunda.

As férias tendem a expor esta diferença. Quando existe proximidade emocional, o aumento do tempo partilhado costuma fortalecer a relação.
Quando existem ressentimentos acumulados, conflitos não resolvidos ou necessidades emocionais ignoradas, o mesmo aumento de tempo pode amplificar tensões que já estavam presentes.
É como aumentar o volume de uma música. Não cria uma nova melodia. Apenas torna mais audível aquilo que já lá estava.

Existe ainda outro fenómeno psicológico relevante.
As expectativas.
Poucas situações geram expectativas tão elevadas como as férias. Muitas pessoas chegam ao verão com uma fantasia inconsciente. Acreditam que aqueles dias irão compensar meses de cansaço. Que os conflitos desaparecerão. Que a paixão regressará. Que a comunicação melhorará.
Que finalmente haverá tempo para tudo aquilo que ficou por dizer durante o ano.

O problema é que as férias não têm esse poder. Uma mudança de cenário não produz automaticamente uma mudança emocional.
Se um casal tem dificuldades em comunicar em casa, provavelmente continuará a ter dificuldades num resort à beira-mar. Se existe distância emocional em janeiro, ela não desaparece magicamente em agosto.

O que muda é que passa a existir menos espaço para a ignorar.
Por isso, muitas das discussões que surgem durante as férias não nascem verdadeiramente nas férias.
Apenas se tornam visíveis.
Aquele comentário aparentemente insignificante sobre o restaurante. A irritação com os horários. A discussão sobre os filhos. O conflito acerca do dinheiro.

Frequentemente, estes episódios funcionam como a ponta visível de algo muito mais profundo.
Necessidades emocionais que não foram reconhecidas. Mágoas antigas. Sentimentos de desvalorização. Sensações de desigualdade dentro da relação.
Questões que não começaram naquele momento, mas que encontraram finalmente espaço para se manifestar.

Outro aspeto importante prende-se com a forma como homens e mulheres tendem, em média, a encarar o descanso.
Embora existam inúmeras exceções, muitos casais chegam às férias com expectativas radicalmente diferentes.
Para um elemento do casal, descansar significa não ter horários.
Para o outro, significa aproveitar ao máximo cada dia.
Um quer aventura.
O outro quer tranquilidade.
Um quer socializar.
O outro quer isolamento.
Nenhuma destas necessidades está errada.

O problema surge quando cada pessoa assume que a sua definição de férias é a definição correta.
Na realidade, muitos conflitos conjugais não resultam da incompatibilidade de personalidades.
Resultam da ausência de negociação.
Aquilo que parece uma discussão sobre programas ou horários é frequentemente uma discussão sobre reconhecimento.
Sobre sentir que a própria necessidade também importa.

Existe ainda uma questão menos falada.
As férias aumentam a exposição emocional.
Durante o ano, o trabalho oferece identidade, objetivos, distração e validação. Quando esse contexto desaparece temporariamente, algumas pessoas ficam mais vulneráveis ao contacto com emoções que habitualmente mantêm ocupadas.
Insatisfação. Frustração. Solidão. Dúvidas. Cansaço acumulado.
Por vezes, aquilo que parece uma crise conjugal é, na realidade, uma crise individual que se torna mais visível durante o período de pausa.

As férias não criam necessariamente os problemas.
Criam silêncio suficiente para que eles possam ser ouvidos.
Mas seria injusto olhar para tudo isto de forma pessimista.
Porque as férias também oferecem algo raro.
Tempo.
E o tempo continua a ser um dos recursos mais importantes para a intimidade.

As mesmas férias que expõem fragilidades podem criar oportunidades de aproximação. Podem permitir conversas que nunca acontecem durante a correria do quotidiano.
Podem devolver espaço ao humor, à cumplicidade e ao afeto. Podem lembrar duas pessoas das razões que as fizeram escolher-se. A diferença não está na ausência de conflitos.
Está na forma como os conflitos são vividos. Os casais mais saudáveis não são aqueles que nunca discutem. São aqueles que conseguem manter a sensação de equipa mesmo quando discordam.
Conseguem ouvir antes de responder.
Conseguem reparar as pequenas feridas emocionais antes que elas se transformem em muros.
Conseguem lembrar-se de que o objetivo não é ganhar uma discussão, mas proteger a relação.

Por isso, talvez as férias sejam realmente uma prova de fogo para o casamento.
Mas não porque destruam relações.
As férias fazem algo mais importante.
Revelam.
Mostram o estado real da ligação quando o ruído da vida abranda. E aquilo que revelam pode ser desconfortável ou profundamente reconfortante.
Depende menos do destino escolhido e mais da qualidade da relação que duas pessoas construíram ao longo do caminho.
Porque, no final, as férias não testam apenas a capacidade de um casal descansar junto.
Testam a capacidade de continuar a escolher-se quando já não existem distrações suficientes para esconder aquilo que sente.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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