"As férias acabaram, mas não precisas de voltar a 200 km/h. Estratégias para um regresso sem stress", por Vera de Melo
As férias não servem apenas para descansarmos da vida. Também podem servir para percebermos como queremos voltar a vivê-la. Por isso, regressa. Mas regressa devagar.
- 2 set, 08:04
Há pessoas que regressam das férias e, no primeiro dia, já estão a responder a emails às sete da manhã, a marcar reuniões, a tentar recuperar tudo o que ficou pendente e a sentir culpa porque ainda têm a cabeça na praia.
Como se descansar tivesse sido uma interrupção da vida.
Como se, ao regressar, fosse obrigatório recuperar imediatamente o mesmo ritmo, a mesma produtividade e a mesma disponibilidade de antes.
E talvez seja precisamente aqui que começa o stress.
O problema não é voltar ao trabalho. É acreditar que temos de voltar imediatamente ao mesmo ritmo.
O nosso cérebro não funciona como um interruptor.
Durante as férias, mudam os horários, o sono, a exposição à luz, a quantidade de estímulos, as exigências e, muitas vezes, a própria forma como usamos a nossa atenção.
Temos menos decisões para tomar, menos urgências e mais espaço mental.
Depois, de repente, chegam os despertadores, os horários, os emails, os prazos, as reuniões, o trânsito e aquela frase tão conhecida:
“Agora é que vai ser.”
E o cérebro recebe tudo de uma vez.
Por isso, o regresso precisa de ser uma transição, não uma corrida.
1. NÃO TENTES RECUPERAR A TUA VIDA TODA NUM DIA
No primeiro dia, não precisas de resolver tudo. Aliás, tentar fazê-lo pode aumentar a sensação de sobrecarga. Quando temos demasiadas tarefas em simultâneo, aumentamos a carga cognitiva e torna-se mais difícil decidir por onde começar. Faz uma coisa simples: escolhe três prioridades para o dia.
Três. Não quinze.
Pergunta:
“Se hoje só conseguisse fazer três coisas, quais fariam realmente diferença?”
Começa por aí.
O resto pode esperar.
2. NÃO CONFUNDAS CANSAÇO COM DESMOTIVAÇÃO
Esta distinção é importante.
Às vezes regressamos e pensamos:
“Já não tenho vontade de trabalhar.”
Mas será mesmo falta de motivação?
Ou será simplesmente o corpo a adaptar-se novamente a um ritmo diferente?
Antes de tirares conclusões sobre a tua carreira, o teu trabalho ou a tua vida, dá-te alguns dias. Nem toda a resistência é um sinal de que precisas de mudar de vida. Às vezes é apenas o desconforto de voltar à rotina.
3. PREPARA O TEU CÉREBRO PARA O REGRESSO
Não esperes pelo primeiro dia para descobrir tudo o que tens para fazer. Na véspera, dedica 10 minutos a organizar o que está pendente.
Escreve.
Separa.
Prioriza.
Decide o que pode esperar, porque uma coisa é ter muitas tarefas, outra é ter muitas tarefas a circular dentro da cabeça ao mesmo tempo.
Quando passamos as preocupações para o papel, reduzimos a necessidade de manter tudo ativo na memória de trabalho.
E isso dá ao cérebro uma coisa preciosa: sensação de controlo.
4. PROTEGE O SONO
O sono é uma das primeiras coisas que sacrificamos quando sentimos que temos demasiado para fazer. É também uma das primeiras coisas de que o cérebro precisa para funcionar melhor. Se durante as férias alteraste os horários, volta progressivamente à rotina. Não tentes corrigir tudo numa noite.
Mantém horários relativamente consistentes, procura luz natural pela manhã e evita transformar o final do dia numa extensão do trabalho. Porque um cérebro privado de sono fica mais vulnerável à irritabilidade, à dificuldade de concentração e à perceção de stress.
Dormir não é perder tempo. É recuperar recursos psicológicos.
5. NÃO TRANSFORMES O REGRESSO NUMA PUNIÇÃO
Esta talvez seja uma das armadilhas mais frequentes. As férias acabam e desaparecem também os pequenos prazeres.
Acabam os passeios.
Os jantares demorados.
O café sem pressa.
O tempo com os filhos.
A leitura.
O silêncio.
E tudo passa a ser: Trabalho, casa, tarefas, dormir.
Até às próximas férias.
Mas não tem de ser assim.
Escolhe pelo menos uma coisa que te fez bem nas férias e mantém-na na tua rotina.
Não precisas de viver permanentemente de férias. Mas também não precisas de viver permanentemente em modo de sobrevivência.
6. FAZ PAUSAS ANTES DE PRECISARES DELAS
Esperamos muitas vezes pelo momento em que já estamos exaustos para parar. É como esperar que o carro fique sem combustível para procurar uma bomba de gasolina. As pausas devem fazer parte do funcionamento normal do dia.
Levanta-te. Anda alguns minutos. Respira. Olha para longe. Bebe água. Afasta-te do ecrã.
E, sobretudo, não transformes todas as pausas em mais estímulo.
Descansar não é mudar do email para o Instagram.
O cérebro também precisa de momentos com menos informação.
7. CRIA UMA FRONTEIRA ENTRE O TRABALHO E A TUA VIDA
Uma das grandes dificuldades do mundo atual é que podemos sair do trabalho sem nunca realmente sair dele.
O computador fecha.
Mas o email continua na cabeça.
A reunião terminou.
Mas continuamos a repetir a conversa.
Chegamos a casa.
Mas estamos emocionalmente no escritório.
Cria um pequeno ritual de encerramento.
Nos últimos minutos do dia, escreve o que ficou pendente e qual será a primeira tarefa do dia seguinte.
Depois fecha.
É uma forma simples de dizer ao cérebro:
“Não preciso de continuar a resolver isto agora.”
8. APRENDE A NÃO ESTAR DISPONÍVEL PARA TUDO
O regresso das férias é uma boa altura para rever limites.
Nem todas as mensagens precisam de resposta imediata.
Nem todas as reuniões são indispensáveis.
Nem todos os pedidos têm de ser aceites.
Nem tudo o que é urgente para alguém precisa de se tornar urgente para ti.
Disponibilidade permanente não é sinónimo de competência.
E dizer “agora não consigo” também pode ser uma forma saudável de cuidar do trabalho que já tens.
9. MEXE O CORPO
Quando estamos stressados, não é apenas a nossa cabeça que sente.
O corpo também fica em alerta. Por isso, o movimento pode ser uma ferramenta simples para ajudar a regular tensão e energia.
Não precisa de ser ginásio. Pode ser uma caminhada de 20 ou 30 minutos.
Pode ser subir escadas. Pode ser dançar enquanto arrumas a casa.
Pode ser sair depois do trabalho e andar sem destino durante algum tempo.
Às vezes, precisamos de tirar o stress do corpo antes de conseguirmos tirá-lo da cabeça.
10. NÃO TENHAS PRESSA DE VOLTAR A SER “A MESMA”
Esta é talvez a parte mais importante. As férias podem ter-te mostrado coisas que a rotina esconde.
Que estás cansada.
Que precisas de mais tempo.
Que tens estado demasiado disponível.
Que queres estar mais presente com os teus filhos.
Que gostavas de voltar a ler.
Que precisas de sair mais.
Que não queres passar a vida a correr.
Não ignores essas descobertas.
Porque talvez o objetivo do regresso não seja voltar exatamente à pessoa que eras antes das férias.
Talvez seja voltar com algumas mudanças.
Menos pressa.
Mais limites.
Mais presença.
Mais descanso.
Mais vida para além do trabalho.
E se, nestes primeiros dias, sentires alguma resistência, cansaço ou até tristeza por as férias terem terminado, não te assustes.
Não precisas de gostar do regresso imediatamente.
Podes estar feliz com a tua vida e ter saudades das férias.
As duas coisas podem coexistir.
E talvez seja essa a verdadeira aprendizagem:
As férias não servem apenas para descansarmos da vida.
Também podem servir para percebermos como queremos voltar a vivê-la.
Por isso, regressa.
Mas regressa devagar.
Não precisas de voltar a 200 km/h.
