"A química sexual pode mascarar uma relação péssima?", por psicóloga Vera de Melo
Há relações que funcionam lindamente na cama e miseravelmente no resto.
- 29 ago, 08:04
E o mais perigoso é que o sexo pode ser tão bom que nos convence de que a relação também é.
É difícil admitir que alguém com quem temos uma química sexual extraordinária pode ser, ao mesmo tempo, alguém com quem somos profundamente incompatíveis.
Porque quando existe desejo, quando o corpo responde, quando aquela pessoa nos toca e parece que tudo faz sentido, é muito fácil acreditar que aquilo tem de significar alguma coisa maior.
"Se sentimos isto, é porque existe amor"; "Se a atração é tão forte, é porque fomos feitos um para o outro"; "Se na cama somos perfeitos, talvez os outros problemas não sejam assim tão importantes." E é aqui que podemos começar a enganar-nos. Porque o corpo pode dizer "quero" quando a vida está a dizer "não".
Podemos desejar alguém que não nos dá segurança. Podemos ter uma sexualidade extraordinária com alguém que não sabe comunicar connosco. Podemos sentir uma ligação física brutal com alguém que nos faz sofrer emocionalmente. E isso não torna o desejo falso. Torna apenas o desejo insuficiente para provar que uma relação funciona.
A química sexual tem uma força enorme. Quando existe atração, novidade, antecipação e excitação, o cérebro envolve sistemas relacionados com recompensa e motivação.
Queremos aproximar-nos daquela pessoa. Pensamos nela. Esperamos pela próxima mensagem. Sentimos falta. Fantasiamos.
E quanto mais intensa é esta experiência, mais facilmente lhe atribuímos um significado. É aqui que acontece uma das confusões mais comuns nas relações: confundimos intensidade com compatibilidade.
Mas sentir muito não é o mesmo que funcionar bem. Uma pessoa pode provocar-nos um desejo enorme e, ainda assim, ser incapaz de nos dar aquilo de que precisamos numa relação. Pode fazer-nos sentir desejados e fazer-nos sentir inseguros. Pode saber exactamente como nos tocar e não saber minimamente como cuidar de nós. Pode conhecer o nosso corpo e desconhecer completamente o nosso mundo emocional.
E é precisamente por isso que algumas relações são tão difíceis de abandonar. Porque não são más o tempo inteiro. Se fossem, talvez fosse mais fácil.
O problema é que existem momentos absolutamente extraordinários no meio de outros profundamente dolorosos. Discutem. Afastam-se. Ficam magoados. Sentem falta. Voltam a aproximar-se. E depois têm sexo fantástico. Durante algumas horas, tudo parece resolvido. Sentem novamente aquela ligação. A proximidade regressa. O desejo confirma aquilo que queriam acreditar: "Está tudo bem entre nós." Mas não está necessariamente.
O sexo pode ter resolvido a tensão sem ter resolvido o problema. E esta diferença pode manter um casal preso durante anos.
Porque o conflito desaparece por algumas horas, mas a dificuldade de comunicação continua. A desconfiança continua. A incompatibilidade continua. O ressentimento continua. Só que agora existe novamente proximidade e, com ela, a esperança de que talvez desta vez seja diferente.
É aqui que a psicologia ajuda a perceber porque algumas relações instáveis podem tornar-se tão difíceis de largar.
Quando momentos de grande sofrimento são alternados com momentos de enorme recompensa emocional, pode surgir aquilo que conhecemos como reforço intermitente.
A recompensa aparece de forma imprevisível e, por isso, a procura por ela pode tornar-se particularmente persistente.
É o "quando estamos bem, somos incríveis". E essa frase pode ser uma verdadeira armadilha. Porque não estamos apenas ligados à pessoa.
Estamos ligados à expectativa do próximo momento bom. Ao próximo reencontro. À próxima noite perfeita. Ao próximo "agora vai ser diferente". E, pouco a pouco, começamos a avaliar a relação pelos seus melhores momentos, em vez de avaliarmos o padrão.
Mas uma relação não pode ser medida pelo melhor fim de semana que tivemos. Tem de ser medida também pela forma como nos tratamos nos dias difíceis. Pela maneira como discutimos. Pela capacidade de pedir desculpa. Pelo respeito pelos limites. Pela confiança. Pela forma como conseguimos estar juntos quando não existe desejo para nos distrair de tudo o resto.
Porque é muito fácil perguntar: "Temos química?" A pergunta mais difícil é: "Somos compatíveis?" Química é aquilo que sentimos. Compatibilidade é aquilo que conseguimos construir. E as duas podem existir separadamente.
Podemos ter uma química sexual extraordinária com alguém com quem não conseguimos construir uma vida. Tal como podemos ter uma relação emocionalmente muito segura e precisar de trabalhar a dimensão sexual. Uma coisa não garante a outra.
Por isso, se quiseres perceber o que realmente existe numa relação, experimenta imaginar que o sexo desaparecia durante algum tempo. Não para sempre. Só o suficiente para não poderes usar a química como resposta.
Continuarias a escolher aquela pessoa? Continuarias a gostar de conversar com ela? Admirarias quem ela é? Sentir-te-ias seguro? Confiarias nela? Gostarias da forma como te trata? Conseguiriam passar um domingo inteiro juntos sem precisar de transformar o desejo na cola da relação? Porque esta pergunta pode revelar uma coisa desconfortável.
Às vezes, não estamos apenas apaixonados pela pessoa. Estamos apaixonados pela forma como nos sentimos quando essa pessoa nos deseja. Sentimo-nos bonitos. Interessantes. Importantes. Vivos.
E quando alguém nos devolve uma versão de nós próprios que tínhamos deixado de ver, é muito fácil confundir essa sensação com amor.
Mas uma relação não pode existir apenas para nos fazer sentir desejados. Precisa também de nos permitir sentir seguros.
Precisa de respeito, de confiança, de amizade, de capacidade para reparar depois de uma ferida, de espaço para existir vulnerabilidade sem medo, precisa de sobreviver à vida real.
Porque a vida real não acontece apenas na cama. Acontece quando estamos cansados, irritados, quando temos problemas, discordamos. quando alguém falha, quando precisamos de apoio, quando já não estamos excitados e, mesmo assim, precisamos de escolher como tratar o outro.
É aí que percebemos se existe apenas química ou se existe relação. O sexo pode ser extraordinário e a relação ser péssima.
Pode existir fogo sem “existir chão. E uma relação sem chão pode até ser emocionante durante algum tempo. Mas ninguém consegue viver permanentemente em queda.
Por isso, talvez não devêssemos perguntar apenas: "Como é o sexo entre nós?" Mas também: "Como me sinto depois?"; "Como me trata quando não quer nada de mim?"; "Quem é esta pessoa quando o desejo desaparece?"
Porque o verdadeiro teste de uma relação não acontece quando duas pessoas se desejam loucamente. Acontece quando o desejo baixa, a vida desafia e, mesmo assim, continuam a saber cuidar uma da outra.
Química pode incendiar uma relação. Mas só a qualidade da relação decide se vale a pena ficar.
