Crónicas

"A bebé esquecida na carrinha: o impacto psicológico de uma tragédia", por Vera de Melo

Quando ouvi a notícia da bebé de 18 meses que morreu depois de ter sido esquecida numa viatura de uma creche, senti exatamente o mesmo que muitos pais sentiram: um aperto no peito, afinal quando uma criança morre, nenhuma família fica indiferente.

  • 26 jul, 18:55

Há notícias que não conseguimos simplesmente ler. Entram-nos pela pele. Fazem-nos olhar para os nossos filhos de maneira diferente. Fazem-nos abraçá-los com mais força. E fazem-nos pensar: "E se fosse comigo?"

Mas, depois do choque, começa outra fase. A procura de culpados.

É humana. O nosso cérebro precisa desesperadamente de encontrar uma explicação para aquilo que parece inexplicável.

Precisamos de acreditar que houve uma razão, porque isso dá-nos uma falsa sensação de controlo. Se descobrirmos o motivo, convencemo-nos de que connosco nunca acontecerá. Só que, enquanto procuramos respostas, há dezenas de pessoas cuja vida também mudou para sempre.

Esta tragédia não terminou quando a notícia foi publicada. Nesse momento, começou o sofrimento de muitas outras pessoas. Começou uma dor que não aparece nas manchetes.

Há uma família cuja dor não conseguimos imaginar.

A família perdeu muito mais do que uma filha. Perdeu o futuro que imaginava.

Perdeu o primeiro dia de escola.

As festas de aniversário.

Os abraços inesperados.

As birras que um dia iriam dar lugar a saudades.

Na psicologia sabemos que o luto não é apenas aprender a viver sem alguém. É aprender a viver com todos os sonhos que morreram ao mesmo tempo. E quando a morte acontece de forma tão inesperada, o cérebro entra em choque.

Perder um filho é uma das experiências mais devastadoras que um ser humano pode viver. Nos primeiros dias, o cérebro entra num estado de sobrevivência. Muitas pessoas descrevem a sensação de estarem a viver um filme ou um pesadelo. É como se tudo acontecesse em câmara lenta.

Há pais que continuam a ouvir a voz do filho. Outros acordam durante a noite convencidos de que tudo não passou de um pesadelo. Há quem se culpe por decisões que, naquele momento, pareciam absolutamente normais.

"E se naquele dia não tivesse ido?"

"E se tivesse telefonado a saber como estava?"

A culpa instala-se mesmo quando não existe responsabilidade. É a forma que o cérebro encontra para tentar voltar atrás no tempo e mudar um final que já não pode ser mudado.

Nenhum pai deveria enfrentar esta dor sozinho. O apoio psicológico não serve para apagar o sofrimento. Serve para impedir que o sofrimento destrua completamente quem fica.

Mas há outras pessoas que também vão precisar de ajuda.

Quando uma tragédia destas acontece, é fácil esquecer que existem pessoas que terão de acordar todos os dias com a memória daquele momento. Independentemente da investigação e das responsabilidades que venham a ser apuradas, há profissionais que poderão carregar esta dor para o resto da vida.

Os profissionais daquela escola nunca mais serão os mesmos.

Há imagens que ficam gravadas para sempre. Há noites sem dormir. Há pessoas que deixam de conseguir entrar numa sala de aula sem reviver aquele dia. Há quem desenvolva ataques de pânico, ansiedade ou depressão. E haverá quem nunca mais consiga voltar a trabalhar com crianças.

A culpa pesa. E, quando não é trabalhada, transforma-se facilmente em vergonha. A vergonha isola. Faz acreditar que já não se merece voltar a sorrir.

É por isso que também estas equipas precisam de apoio psicológico. Não para desculpar o que aconteceu. Mas porque também são seres humanos e o trauma existe.

O trauma não fica apenas na memória. Fica no corpo. No coração acelerado. Na ansiedade. Na dificuldade em respirar. Na sensação permanente de perigo.

E ninguém consegue cuidar dos outros quando está emocionalmente destruído.

E as outras crianças?

Muitas vezes pensamos que, por serem pequenas, não percebem. Percebem muito mais do que imaginamos. Talvez não compreendam a notícia, mas sentem o ambiente. Sentem os adultos mais calados. Sentem o medo. Sentem a tristeza.

E quando uma criança sente que os adultos perderam a segurança, também ela deixa de se sentir segura. Algumas começam a chorar mais quando chegam à escola. Outras deixam de dormir bem. Outras voltam a pedir colo constantemente. Não é "uma fase". É a forma como o cérebro infantil diz: "Eu também estou assustado."

E os pais?

Se és pai ou mãe, talvez tenhas sentido mais medo.

Talvez tenhas abraçado o teu filho durante mais tempo.

Talvez tenhas telefonado para a escola só para confirmar que estava tudo bem.

Talvez tenhas imaginado cenários que preferias nunca ter imaginado.

Não significa que estejas a exagerar. Significa apenas que o teu cérebro está a tentar proteger aquilo que mais amas.

Nos próximos dias, milhares de pais vão deixar os filhos na escola com o coração mais apertado.

É completamente natural!

O nosso cérebro aprende muito através das emoções. Depois de uma notícia destas, fica em estado de alerta. Que fiques mais ansioso quando o telefone toca. Que imagines cenários que nunca tinhas imaginado. Não lutes contra esses pensamentos.

Reconhece-os. Mas não deixes que passem a comandar a tua vida.

Não alimentes o medo com horas de notícias repetidas. Fala com a escola. Conhece os procedimentos. Faz perguntas. A confiança também se constrói através da transparência. Há pequenas atitudes que ajudam a recuperar alguma segurança. Fala com a escola. Pergunta quais são os procedimentos de segurança, sem receio de parecer exigente. Conhece quem cuida do teu filho. A confiança constrói-se na relação.

Se o teu filho for mais velho e falar sobre esta notícia, escuta primeiro antes de responder. Pergunta: "O que é que tu achas que aconteceu?" Muitas vezes, as crianças têm medos diferentes daqueles que imaginamos.

Evita que vejam repetidamente imagens ou notícias sobre esta tragédia. O cérebro infantil não consegue filtrar a informação como o cérebro de um adulto.

E, acima de tudo, continua a transmitir-lhes uma mensagem essencial: "Os adultos estão aqui para cuidar de ti."

Mas há uma lição que nunca devemos esquecer.

Vivemos numa sociedade que acredita que os erros acontecem apenas aos outros. Mas a psicologia ensina-nos precisamente o contrário. O cérebro humano falha. Falha quando está cansado. Quando vive na rotina. Quando faz demasiadas tarefas ao mesmo tempo.

Não é por isso que deixamos de exigir responsabilidades. Mas também não podemos acreditar que basta confiar na memória das pessoas.

É precisamente por isso que a segurança nunca pode depender apenas da memória de uma pessoa. Tem de depender de procedimentos, de verificações, de equipas que trabalham em conjunto porque proteger uma criança não é confiar que ninguém se vai esquecer. Proteger uma criança é criar sistemas para que, mesmo quando um ser humano falha, uma criança continue protegida.

Que este acontecimento nos torne mais atentos, mais exigentes e mais conscientes de que a saúde psicológica também faz parte da segurança.

Cuidar de uma criança não é apenas evitar acidentes é garantir que ela cresce num mundo onde os adultos fazem tudo o que está ao seu alcance para cuidar dela. E quando falham, têm a coragem de aprender, mudar e fazer melhor.

Lembra-te nenhuma criança deveria depender apenas da memória de um adulto para chegar em segurança ao colo de quem a espera.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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