Crónicas

"E se o amor que te criou for o mesmo que te sufoca?", por Vera de Melo e André Fernandes

A psicóloga Vera de Melo e o escritor André Fernandes refletem sobre o impacto de uma mãe narcísica na vida de um filho, a propósito do novo livro do autor.

  • 10 jun, 13:36 Vera de Melo com André Fernandes

A propósito do novo livro de André Fernandes, A Mãe de Alice, que já se encontra em pré-venda, a psicóloga Vera de Melo e o escritor refletem sobre o impacto de uma mãe narcísica na vida de um filho.

 

A mensagem da psicóloga Vera de Melo

Há mães que não deixam faltar comida, roupa ou presença. Mas há ausências que não se veem. Ausências emocionais que atravessam a infância em silêncio e ficam escondidas dentro de crianças que aprenderam demasiado cedo a não incomodar.

Uma mãe narcísica não ama verdadeiramente o filho pelo que ele é. Ama aquilo que ele representa para si. Ama enquanto é admirada, obedecida, necessária ou colocada no centro. E é precisamente por isso que o amor se torna tão confuso para uma criança. Porque num dia existe carinho, proximidade e atenção. No outro, distância, frieza, crítica ou culpa. O afeto nunca é seguro. Nunca é previsível. Nunca repousa.

A criança cresce sem perceber que aquilo que sente não é amor saudável. Acredita apenas que precisa esforçar-se mais. Ser mais calma. Mais perfeita. Mais fácil. Mais silenciosa. Aprende a ler humores antes de aprender a ler emoções. Aprende a pedir desculpa mesmo quando não fez nada. Aprende que, para manter ligação emocional, terá de se afastar de si própria. E talvez essa seja uma das maiores dores: crescer sem espaço para existir de forma autêntica.

Porque o amor de uma mãe deveria ser o lugar onde uma criança descansa do mundo. Mas, para filhos de mães narcísicas, muitas vezes é precisamente o lugar onde nasce a ansiedade, a insegurança e o medo constante de falhar emocionalmente.

Há feridas que não vêm de gritos. Vêm da indiferença. Da manipulação subtil. Da culpa colocada em cima de uma criança que nunca deveria carregar o peso emocional de um adulto. Vêm da sensação de nunca ser suficiente, mesmo fazendo tudo para agradar. Vêm de crescer a acreditar que amor é adaptação, esforço e sobrevivência emocional.

Do ponto de vista psicológico, muitas destas mães não conseguem olhar para o filho como um ser emocional separado delas próprias. Existe uma necessidade profunda de controlo, validação e admiração que, muitas vezes, nasce das próprias feridas emocionais, inseguranças e vazios internos nunca trabalhados. Por detrás da necessidade constante de atenção ou superioridade existe frequentemente uma fragilidade emocional profunda. O problema é que, em vez de lidarem com essa dor internamente, acabam por procurar nos filhos aquilo que lhes falta emocionalmente.

A criança passa então a ocupar um papel impossível: o de preencher necessidades emocionais que nunca deveriam ser colocadas sobre ela.

Quando o filho brilha, a mãe sente-se valorizada. Quando o filho falha, ela vive isso quase como uma ameaça pessoal. Por isso surgem críticas constantes, comparação, culpa ou necessidade de controlo. Não porque exista sempre falta de amor, mas porque existe uma incapacidade emocional de amar de forma segura, empática e verdadeiramente livre.

E o mais cruel é que estas crianças continuam a amar profundamente as mães que as magoam. Continuam à espera daquele momento raro de validação, carinho ou reconhecimento. Porque uma parte delas passa a vida inteira a tentar conquistar um amor que nunca chega de forma completa.

Muitos destes filhos tornam-se adultos emocionalmente cansados. Pessoas que pedem pouco, toleram demasiado e vivem com uma necessidade silenciosa de aprovação. Pessoas que se culpam facilmente, que sentem dificuldade em colocar limites e que confundem amor com sofrimento, precisamente porque foi assim que aprenderam a amar.

O impacto de uma mãe narcísica não está apenas naquilo que ela fez. Está, muitas vezes, naquilo que nunca conseguiu oferecer. Segurança emocional. Empatia. A sensação tranquila de ser amado sem precisar de provar valor.

E há uma frase invisível que muitos destes filhos carregam dentro de si durante anos: "Talvez, se eu fosse diferente, tivesse sido amado da forma certa." Mas nenhuma criança deveria crescer a acreditar que precisa merecer amor. Porque amor verdadeiro não humilha, não manipula, não desaparece quando o outro deixa de corresponder às expectativas. Amor verdadeiro não faz uma criança sentir-se pequena para que um adulto se sinta maior.

 

A mensagem do autor André Fernandes

Na mitologia grega, Narciso estava destinado a cumprir grandes feitos, desde que nunca visse o seu reflexo. Por ter cedido à tentação, Narciso falhou o seu destino. Encantado com a sua imagem, morreu a contemplar-se nas águas de um rio. É desse mito que resulta o termo "narcisismo". A mãe narcísica é a que só vê o seu reflexo, sem que isso implique refletir sobre si. Talvez como Narciso, também esta mãe estivesse destinada a grandes feitos. Talvez ainda esteja… Se for capaz de encarar o espelho. Mas de se ver como é, e não como acredita ser.

É aqui que entra o poder de uma história. Às vezes, é mais fácil ler numa ficção o que não somos ainda capazes de ver na nossa realidade.

Foi assim que nasceu a história de Alice, a protagonista do meu novo romance.

Alice cresceu a amar a mãe e, ao mesmo tempo, a perceber que havia qualquer coisa de errada com ela. Incapaz de dar nome a essa sensação, Alice conta com um desconcertante personagem que surge, para a ajudar: Freud.

O livro parte de uma ficção para ilustrar o que é a realidade de tantas Alices: crescer com o padrão de uma mãe narcisista, tomar consciência dele e quebrar o reflexo. 

A Mãe de Alice é a minha segunda ficção. E põe a descoberto aquilo que muitas vezes evitamos ver: por vezes, o amor que nos criou pode mesmo ser o mesmo que nos sufoca. 

Já em pré-venda, nas plataformas habituais!

André Fernandes e Vera de Melo
Escritor e palestrante e Psicóloga Clínica

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