Crónicas

"Dormir em camas separadas pode salvar uma relação?", por psicóloga Vera de Melo

Dormir em camas separadas pode ser o princípio do fim de uma relação. Ou pode ser precisamente aquilo que a salva. Parece contraditório, mas não é.

  • 3 set, 13:08

A prendemos a imaginar que um casal feliz dorme em conjunto. A mesma cama, o mesmo quarto, a mesma rotina. Como se a proximidade física durante a noite fosse uma espécie de certificado de que a relação está bem.

E quando alguém diz "nós dormimos em camas separadas", surgem logo os diagnósticos: "Estão mal"; "Já não há amor"; "Devem estar a pensar em separar-se."

Mas será mesmo? Talvez precisemos de parar de confundir intimidade com proximidade física permanente.

Porque podemos dormir a dez centímetros de alguém e sentirmo-nos emocionalmente a quilómetros de distância. E também podemos dormir em camas diferentes e continuar profundamente ligados.

Aliás, para alguns casais, partilhar a mesma cama é uma fonte diária de desgaste. Um ressona. O outro mexe-se a noite inteira. Um levanta-se às seis da manhã. O outro trabalha até tarde. Um tem calor. O outro está sempre com frio. Um quer dormir com a televisão ligada. O outro precisa de silêncio absoluto. E aquilo que deveria ser descanso transforma-se numa pequena guerra todas as noites.

O problema é que, depois de várias noites mal dormidas, já não estamos apenas cansados. Estamos irritáveis. Menos pacientes. Mais impulsivos. Mais propensos a discutir.

E aqui a psicologia é bastante clara: o sono tem um papel importante na regulação emocional. Dormir mal pode aumentar a irritabilidade, diminuir a capacidade de regular emoções e tornar mais difícil lidar com conflitos.

Ou seja, às vezes o casal não está a discutir porque deixou de se amar. Está a discutir porque ninguém dorme decentemente há meses. E isto parece uma coisa pequena. Até percebermos que estamos a falar de uma das necessidades básicas do funcionamento humano.

É por isso que, em determinadas situações, dormir separadamente pode ser uma decisão de cuidado e não de afastamento. Pode ser dizer: "Eu amo-te demasiado para continuar a transformar o meu cansaço em ressentimento."

Mas há uma condição importante. Dormir em camas separadas não pode ser uma forma de fugir da relação. Porque aí a história é outra.

Se um casal deixa de partilhar a cama porque já não suporta a presença do outro, porque não quer conversar, porque existe ressentimento acumulado ou porque a intimidade desapareceu completamente e ninguém quer abordar o assunto, então a cama separada pode ser apenas o sintoma de um problema maior.

Não é a solução. É o sinal de que existe alguma coisa que precisa de ser olhada. E esta diferença é fundamental.

Dormir separado para dormir melhor é uma coisa. Dormir separado para não ter de estar com o outro é outra. Uma aproxima. A outra afasta. E às vezes a diferença não está sequer na cama. Está na intenção.

Há casais que dormem separados e continuam a ter uma vida de casal muito próxima. Jantam juntos. Conversam. Namoram. Têm relações sexuais. Brincam. Planeiam coisas. Cuidam um do outro. E simplesmente dormem melhor em camas diferentes.

Há outros que partilham a mesma cama todas as noites e praticamente não têm relação. Dormem lado a lado. Vivem emocionalmente separados.

E talvez seja aqui que tenhamos de questionar uma ideia muito antiga: ser um casal não significa fazer tudo juntos. Não significa dormir sempre juntos. Não significa passar todas as horas livres juntos. Não significa gostar das mesmas coisas. Nem sequer significa precisar da mesma quantidade de proximidade.

Existem pessoas que precisam de muito espaço para se sentirem bem numa relação. Outras precisam de muito contacto. E nenhuma destas necessidades é necessariamente errada.

O problema aparece quando um tenta convencer o outro de que a sua necessidade é a única normal. É aqui que entra a negociação.

Se uma pessoa precisa de dormir sozinha para descansar e a outra interpreta isso como rejeição, temos um problema emocional para conversar.

Porque talvez a pessoa não esteja a ouvir: "Preciso de dormir melhor." Está a ouvir: "Já não me queres." E estas duas mensagens são completamente diferentes.

Por isso, antes de transformar duas camas numa crise conjugal, é preciso perceber o que elas significam. O que está a acontecer entre nós quando vamos dormir? Existe carinho? Existe desejo? Existe conversa? Existe contacto físico? Existe vontade de estar juntos? Ou simplesmente existe uma cama que está a funcionar como palco de um problema que ninguém quer enfrentar?

Porque se existe intimidade durante o dia, se existe desejo, carinho e cumplicidade, duas camas podem não significar absolutamente nada de grave.

Mas se já não existe toque, conversa, interesse, vontade de estar juntos e, além disso, cada pessoa procura uma cama diferente para fugir da outra, talvez seja altura de parar de discutir sobre colchões. E começar a falar da relação.

Também existe outra questão que raramente se discute: o sexo. Algumas pessoas associam automaticamente dormir juntos a ter mais oportunidades de intimidade. Mas a realidade pode ser exactamente a oposta.

Quando dormir juntos significa noites mal dormidas, irritação e cansaço, o desejo sexual pode sofrer. É difícil sentir desejo quando passámos a noite inteira a lutar pelo edredão. É difícil ter paciência para seduzir alguém quando estamos exaustos. E é difícil manter a ternura quando estamos permanentemente irritados. Por vezes, dormir melhor pode melhorar a relação sexual precisamente porque devolve energia, disponibilidade e vontade de estar próximo.

Mas existe aqui uma regra de ouro: não deixem que camas separadas se transformem em vidas separadas. Podem dormir separados e continuar a escolher-se. Podem ter quartos diferentes e continuar a procurar-se. Podem precisar de espaço e continuar a construir intimidade.

O que não pode acontecer é utilizar a cama como castigo. "Fizeste isto, hoje dormes no sofá";"Estou zangada, não quero dormir contigo"; "Não me apetece falar, vou para outro quarto."

Aí já não estamos a falar de uma estratégia de sono. Estamos a falar de afastamento emocional. E esse comportamento, quando se torna repetido, pode aumentar a distância entre o casal.

Porque uma coisa é criar espaço para descansar. Outra é criar distância para punir. No fundo, talvez a pergunta não devesse ser: "Um casal saudável tem de dormir na mesma cama?" Talvez devesse ser: "Estamos a fazer escolhas que nos aproximam ou que nos afastam?"

Se duas camas permitem que ambos durmam melhor, acordem com mais paciência, discutam menos e tenham mais vontade de estar juntos, então talvez duas camas estejam a fazer mais pela relação do que uma.

Mas se duas camas são apenas a forma mais confortável de evitar olhar para aquilo que já não funciona, nenhum colchão vai resolver.

Porque o problema nunca foi a cama. É aquilo que está a acontecer entre as duas pessoas que nela deveriam querer estar.

E talvez uma relação saudável não seja aquela em que duas pessoas fazem tudo juntas. É aquela em que conseguem dizer: "Isto é o que preciso para estar melhor." E o outro consegue ouvir: "Isso não significa que te amo menos."

Porque, às vezes, dormir separados não é afastarmo-nos. É descansar para conseguirmos voltar a encontrar-nos.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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