Crónicas

"Adeus, Ronaldo? Que piada", por Vera de Melo

"Foi o meu último Campeonato do Mundo." Bastou esta frase para começarem as homenagens. Os vídeos. Os "obrigado". Os "até sempre". Os "o fim de uma era".

  • 7 jul, 15:06

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Mas posso fazer uma pergunta incómoda?
Adeus a quem?

Na minha opinião, o maior erro que estamos a cometer é despedirmo-nos de Cristiano Ronaldo.

A psicologia explica porquê.
Só nos despedimos verdadeiramente daquilo que nunca fez parte da nossa identidade. Porque aquilo que nos transforma não desaparece. Integra-se em quem somos.

É isso que acontece com as grandes figuras das nossas vidas. Não deixamos de ouvir os conselhos dos nossos pais quando eles já não estão ao nosso lado. Não esquecemos um professor que mudou o nosso caminho. Não apagamos um amor que nos marcou apenas porque a relação terminou.

O cérebro não arquiva as pessoas que mudam a nossa história. Incorpora-as.
Cristiano Ronaldo pode deixar de jogar um Campeonato do Mundo. Pode, um dia, deixar de vestir a camisola da Seleção. Mas nunca deixará de ocupar um lugar na identidade emocional de Portugal.

Há mais de duas décadas que assistimos ao mesmo ritual: um país inteiro para para acreditar. Crianças imitam a sua celebração. Jovens aprendem que o talento, por si só, nunca chega. Adultos emocionam-se porque alguém lhes mostrou, vezes sem conta, que a disciplina pode levar um rapaz da Madeira ao topo do mundo.

Isto não são apenas golos.
São memórias emocionais.
E a psicologia sabe que as memórias associadas a emoções intensas são das mais resistentes que existem. Permanecem porque passaram a fazer parte daquilo que somos.

É por isso que um simples "obrigado" não chega.
Porque agradecer dá a sensação de que a dívida ficou paga.
E há dívidas que nunca se pagam.

Como se agradecem mais de vinte anos de sonhos? Como se agradecem os abraços entre desconhecidos, os gritos de alegria, as lágrimas, o orgulho de ouvir um hino cantado com o coração apertado? Como se agradece alguém que ensinou milhões de pessoas que desistir nunca pode ser a primeira opção?
Não se agradece.
Reconhece-se.
Também não se diz adeus.

Porque há pessoas que deixam o palco, mas nunca deixam a história.
Há pessoas que deixam de jogar, mas continuam a inspirar.
Há pessoas que deixam de aparecer, mas permanecem para sempre dentro de nós.
Por isso, não.
Não lhe digam adeus.
E, sinceramente, também não lhe digam apenas obrigado.

Há pessoas cuja maior conquista não são os troféus que levantaram.
É terem conseguido tornar-se inesquecíveis enquanto ainda estão vivas.
Porque um dia deixaremos de contar os golos.
Mas nunca deixaremos de contar a história.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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