Crónicas

"Prazer sexual: a fatura que ainda nos chega com IVA de culpa", pela psicóloga Tatiana A. Santos

Imagine a seguinte cena, tão quotidiana quanto secreta: está no pico de um momento de puro deleite. Pode ser aquela colherada num bolo de chocolate indecentemente húmido, uma tarde inteira de absoluto ócio sem responder a e-mails ou, vamos lá diretos ao assunto, um orgasmo daqueles que fazem os dedos dos pés encaracolarem em sinal de rendição.

  • 19 jul, 19:19
Tatiana A. Santos
Tatiana A. Santos Foto: D.R.

O corpo relaxa, o sistema nervoso celebra e, de repente, vinda das catacumbas mais escuras do seu cérebro, surge uma voz sussurrada: "Olha que amanhã tens de acordar cedo", ou "Será que desliguei o fogão?", ou a clássica rasteira existencial "Eu não devia estar a gostar tanto disto."

Parabéns. Acaba de ser assaltada pela temida patrulha da culpa do prazer. No divã da sexologia e da terapia sexual, esta é uma das queixas mais recorrentes, ainda que mascarada sob outros nomes...disfunção do desejo, dificuldade em atingir o clímax ou simplesmente um cansaço crónico de viver.

Mas porque raio é que a nossa espécie, biologicamente desenhada para procurar a recompensa, passa tanto tempo a castigar-se quando a encontra?

 

O triângulo amoroso na nossa cabeça: Id, ego e a avó de xaile negro

Para compreendermos este fenómeno, temos de fazer uma rápida vistoria à arquitetura da nossa mente. Sigmund Freud pode ter tido algumas obsessões questionáveis, mas descreveu com brilhantismo o drama constante que se passa nos bastidores da nossa psique através de três personagens clássicas.

O Id é o nosso animal interno. Quer prazer, quer intimidade, quer pele com pele, e quer agora, sem filtros nem preces. O SuperEgo é a voz da nossa herança cultural, uma mistura de regras vitorianas, moralidade judaico-cristã e aquela tia-avó ultra-conservadora que desconfia de quem sorri muito. Por fim, o Ego é você, a tentar mediar uma discussão acesa entre ambos enquanto tenta, simplesmente, ter uma vida sexual satisfatória.

Quando sentimos prazer, o Id está a festejar de forma ruidosa. No entanto, o SuperEgo, programado por gerações que associaram o sexo estritamente à reprodução, entra em campo a apitar falta. A culpa é, do ponto de vista dinâmico, a multa que o SuperEgo passa ao Ego por se ter divertido sem pedir autorização prévia à sociedade.

 

A Neurobiologia da "Ressaca Moral"

Mas não atiremos a responsabilidade apenas para a educação moral. Há uma engrenagem neuroquímica implacável a acontecer atrás dos nossos olhos. Durante a fase de excitação e orgasmo, o cérebro é inundado por uma descarga maciça de dopamina (o neurotransmissor da busca e da recompensa) e de oxitocina (a hormona do vínculo e do aconchego). É a tempestade perfeita do bem-estar.

Contudo, na fase de resolução física, o chamado período refratário, os níveis de dopamina caem abruptamente e entra em cena a prolactina, a hormona que diz ao corpo que a festa acabou. Esta transição química súbita pode provocar uma breve quebra emocional, um vazio existencial conhecido na literatura clínica como disforia pós-coital (ou a melancólica tristitia post coitum descrita desde a antiguidade).

Se o seu historial pessoal carregar vergonha corporal, crenças limitadoras ou repressão inconsciente, o seu cérebro, perante essa descida de neurotransmissores, não hesitará em preencher o vazio com narrativas de culpa. É a física aplicada à psicologia. Tudo o que sobe muito rápido, por vezes, desce de paraquedas moralista.

 

O mito do "prazer merecido" e a ditadura da produtividade

Em terapia sexual, percebemos rapidamente que o maior obstáculo ao prazer não é a falta de técnica ou de anatomia. É o ruído cognitivo. Fomos condicionados a ver o prazer como uma moeda de troca. Só nos damos ao direito de desfrutar se tivermos trabalhado doze horas, se o ginásio estiver pago, se a casa estiver impecavelmente limpa e se tivermos sofrido um bocadinho antes. Esta mentalidade transforma a nossa intimidade numa folha de Excel.

Se decide masturbar-se ou ter um momento de intimidade a meio de uma tarde de terça-feira, a sua mente inconsciente processa esse ato quase como uma fraude fiscal contra o sistema de produtividade moderno. Sentimo-nos impostores do nosso próprio corpo. O ruído cognitivo é, de facto, o maior contracetivo que existe. Não são as hormonas que falham na hora H, é a lista de supermercado e as exigências profissionais que se deitam connosco na cama.

Como terapeutas, o nosso papel é recordar-lhe o óbvio científico... o prazer não é um prémio de fim de ano por bom comportamento. É um mecanismo biológico vital para a regulação do stress, redução do cortisol e fortalecimento do sistema imunitário. Sentir prazer é, genuinamente, uma questão de saúde pública pessoal.

Da próxima vez que a culpa lhe bater à porta após um momento de prazer, não discuta com ela. Respire fundo, saboreie a oxitocina e diga mentalmente ao seu SuperEgo: "Obrigado pela preocupação, mas hoje a minha biologia pagou a conta por inteiro." Afinal, a vida já tem demasiadas portagens. Não faça do seu próprio corpo mais uma delas.

Tatiana A. Santos
Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844

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