Durante décadas, fomos diagnosticadas com "histeria" se mostrássemos desejo a mais, e com "frigidez" se mostrássemos de menos. Basicamente, ou o motor estava avariado ou estava prestes a explodir.
Felizmente, a psicologia cresceu, emancipou-se e, tal como nós numa boa noite de sexta-feira, decidiu deixar de dar ouvidos a teorias ultrapassadas.
Dizer que o orgasmo feminino é um mistério é o primeiro grande mito que precisamos de desmistificar. Não é um mistério. É anatomia combinada com a maior e mais potente zona erógena que possuímos: a nossa mente.
Sigmund Freud, com todo o respeito pelo seu legado e pelo divã, prestou-nos um enorme desserviço ao inventar a distinção entre o orgasmo clitoridiano (que ele considerava "imaturo") e o vaginal (o "maduro").
Spoilers da psicologia moderna: biologicamente, o prazer feminino não tem um certificado de maturidade passado por terceiros. O clitóris, essa estrutura maravilhosa com milhares de terminações nervosas que serve única e exclusivamente para nos dar prazer (uma obra-prima do design evolutivo!), é o verdadeiro protagonista. E não há nada de imaturo nisso. É apenas eficácia.
"O clitóris não vem com manual de instruções (e a culpa não é de Freud)!"
A grande viragem da psicologia moderna e da sexologia foi perceber que o orgasmo não acontece apenas "abaixo da cintura". O segredo está no "andar de cima". Enquanto o modelo de resposta sexual masculina tende a ser mais linear (uma espécie de autoestrada direta e sem portagens), a resposta sexual feminina funciona mais como uma viagem panorâmica, influenciada pelo trânsito, pela música que dá na rádio e pelo humor de quem conduz.
Para uma mulher atingir o clímax, o cérebro precisa de receber um aviso de receção que diga "Podes relaxar, o ambiente é seguro". É aqui que entra o toque feminista da psicologia atual. O maior inimigo do orgasmo feminino não é a falta de técnica...é a carga mental. É a lista do supermercado que teima em aparecer no ecrã mental a meio do ato, a autocrítica sobre a luz do candeeiro focar aquele ângulo menos favorável, ou a pressão cultural para performar um clímax digno de um filme de Hollywood para não ferir o ego do parceiro ou da parceira.
Validar o prazer feminino é um ato político e de saúde mental. Quando a psicologia valida a diversidade do prazer das mulheres, aceitando que algumas chegam lá mais depressa, outras precisam de mais tempo, umas através da penetração, a esmagadora maioria através da estimulação externa, e muitas através de uma boa dose de fantasia, estamos a libertar as mulheres de uma ansiedade de desempenho que nunca deveria ter sido nossa.
O orgasmo não é uma obrigação, um troféu ou uma prova de aferição. É uma celebração do corpo e da mente em sintonia. Por isso, da próxima vez que a mente tentar sabotar o momento com dúvidas ou inseguranças, respire fundo, mude o foco e lembre-se que o seu prazer pertence-lhe. E a psicologia está, finalmente, do seu lado para aplaudir.
