Crónicas

Entre o furacão e a calmaria: o que é, afinal, ser borderline?

Viver com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é, muitas vezes, sentir que se nasceu sem uma "pele emocional". Enquanto a maioria das pessoas sente as batidas da vida como uma brisa, para quem é borderline, qualquer sopro pode parecer um vendaval, explica a psicóloga Tatiana A. Santos.

Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844
  • 22 abr, 14:56
Borderline

Se já sentiu que as suas emoções têm um volume que vai do 0 ao 100 em segundos, ou se conhece alguém que ama intensamente, mas que desmorona diante de um "visto" não respondido no WhatsApp, esta crónica é para si. Vamos desmistificar este diagnóstico com a compaixão que ele merece.

 

O mundo em cores (demasiado) vivas

Para o senso comum, o borderline é rotulado como "difícil" ou "instável". Mas, por trás desse rótulo, existe uma hipersensibilidade profunda.

Imagine estas situações do dia a dia:

O atraso do amigo: para muitos, é apenas um imprevisto. Para o borderline, aqueles 15 minutos de espera podem transformar-se numa certeza absoluta de que "ninguém gosta de mim" ou "vou ser abandonado".

A crítica no trabalho: um pequeno reparo do chefe não é visto como uma oportunidade de melhoria, mas como um veredito de que somos um fracasso total.

O amor "tudo ou nada": pela manhã, o parceiro é a alma gémea perfeita mas à noite, após uma pequena discussão, ele torna-se o vilão que destruiu a nossa vida.

Essa montanha-russa não é falta de caráter nem drama gratuito. É uma forma de processar o mundo onde o medo do abandono e a dor emocional são sentidos fisicamente, como uma queimadura de terceiro grau na alma.

 

A terapia: não é sobre "cura", é sobre "liberdade"

Existe um mito de que o borderline é uma sentença de prisão perpétua no caos. Não é. Mas aqui está a verdade que liberta. A terapia não procura a "cura" no sentido de apagar quem você é. O objetivo não é deixar de ser sensível, afinal, essa mesma sensibilidade é o que faz do borderline uma pessoa muitas vezes empática, criativa e apaixonada.
A terapia serve para:

Construir uma "pele": aprender a processar a dor sem que ela nos destrua.

Regular o volume: aprender que, embora a emoção tenha chegado ao 100, a nossa reação pode ficar nos 40.

Devolver o leme: em vez de ser levado pela correnteza do sentimento, você aprende a navegar o barco.

A terapia não nos torna pessoas 'cinzentas' e sem emoção. Ela apenas nos ensina a não morrer afogados nas nossas próprias cores.

 

O poder de voltar para casa

Otimismo não é negar a dificuldade, é acreditar na funcionalidade. Hoje, com abordagens como a Terapia de Aceitação e Compromisso e outras da chamada terceira vaga de terapias cognitivo-comportamentais, sabemos que é perfeitamente possível ter uma vida estável, manter relacionamentos saudáveis e ter uma carreira de sucesso sendo borderline.

A maior vitória de quem faz terapia não é nunca mais sentir raiva ou tristeza. A vitória é o dia em que o telemóvel não toca e você, em vez de entrar em pânico, respira fundo e pensa: "Tudo bem, vou aproveitar este tempo para ler um livro".

Ser borderline não é o seu fim, é apenas a forma como o seu sistema operativo funciona. E, com as ferramentas certas, esse sistema pode criar coisas maravilhosas. Você não é o seu transtorno mas a pessoa que sobreviveu a ele todos os dias. E isso, por si só, já é uma prova de uma força extraordinária.

Se se identificou, saiba que há luz, há controlo e, acima de tudo, há uma vida linda à espera de ser vivida com equilíbrio.

Tatiana A. Santos
Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844

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