Crónicas

"Crise de meia-idade ou despertar da alma?", por Tatiana A. Santos

Chegar aos 40 ou 50 anos é, para muitos, como atingir o cume de uma montanha. Olhamos para trás e vemos as conquistas: a carreira construída, a família, o lugar no mundo. Mas, curiosamente, é nesse topo que muitos sentem uma brisa gelada e um vazio inesperado.

Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844
  • 5 mai, 18:33
Tatiana A. Santos

É aqui que a Psicologia Analítica, fundada por Carl Jung, nos oferece uma perspetiva revolucionária...a segunda metade da vida não é o início do fim, mas o verdadeiro início da Jornada do Ser.

 

A mudança de turno: do ego para o si-mesmo

 

Na primeira metade da vida, o nosso foco é o Ego. Precisamos dele para nos afirmarmos, para sermos "alguém", para competir e construir. É a fase da expansão externa. No entanto, Jung defendia que o que era verdade de manhã, tornar-se-á mentira à tarde.

"Não podemos viver a tarde da vida de acordo com o programa da manhã da vida, pois o que era muito de manhã será pouco à tarde, e o que era verdadeiro de manhã será, à tarde, uma mentira." — Carl Jung

A partir da maturidade, a energia psíquica exige uma inversão. O foco deixa de ser o "ter" ou o "parecer" e passa a ser o sentido. É aqui que a espiritualidade entra, não necessariamente como uma religião dogmática, mas como uma ligação profunda com algo maior. Aquilo que Jung chamava de processo de Individuação.

 

Por que a espiritualidade se torna essencial agora?

O encontro com a sombra: 
Na juventude, escondemos as nossas falhas para sermos aceites. Na segunda metade, a alma pede integração. A espiritualidade dá-nos o suporte ético e emocional para olharmos para as nossas sombras e aceitarmos a nossa totalidade.

A relativização do sucesso: 
Percebemos que nenhum aplauso externo preenche o silêncio interno. A dimensão espiritual oferece o conforto de saber que o nosso valor não depende da produtividade, mas da nossa essência.

A preparação para o mistério: 
Se a primeira metade serve para criar raízes na terra, a segunda serve para abrir ramos em direção ao céu. Desenvolver uma vida interior rica permite encarar a finitude não com desespero, mas com curiosidade e serenidade.


Viver a espiritualidade na maturidade é, acima de tudo, aprender a ouvir a "voz mansa e delicada" da intuição. É trocar o barulho das festas pelo prazer de uma conversa profunda, a pressa de chegar pelo prazer de caminhar.

Se sente um apelo para o autoconhecimento, para a meditação ou para o silêncio, não o ignore. Não é uma crise de meia-idade! É a sua alma a pedir para finalmente ser convidada para a mesa. Afinal, a segunda metade da vida é a oportunidade de deixarmos de ser o que os outros esperavam, para nos tornarmos, finalmente, naquilo que realmente somos.

A pergunta que fica para esta tarde da vida é: agora que já conquistou o mundo, quando é que vai conquistar o seu próprio interior?

Tatiana A. Santos
Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844

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