"Afinal, a quem pertence o corpo da mulher quando as suas próprias pares são as primeiras a vigiá-lo?"
A Herança da Submissão
Como bem defendeu Simone de Beauvoir, "não se nasce mulher, torna-se mulher". Esta construção social do "feminino" incluiu a ideia perigosa de que o corpo da mulher é um bem público. Sob a perspetiva histórica e sociológica, fomos ensinadas a moldar a nossa anatomia para servir à reprodução, ao desejo alheio ou às normas de etiqueta. Politicamente, o corpo feminino é o último reduto de controlo. Reclamar a sua posse total é o ato mais radical de saúde mental que uma mulher pode exercer.
O Veneno da Falsa Sororidade
Contudo, precisamos de falar sobre a sombra que habita nos nossos círculos. Enquanto o patriarcado se sustenta numa "irmandade" de proteção mútua de privilégios, a propalada sororidade tem-se revelado, muitas vezes, um conceito teórico e, por vezes, venenoso.
Na prática clínica, é doloroso observar como as mulheres são as primeiras a policiar-se. Sob o conceito de Sombra de Carl Jung, percebemos que a mulher que ainda vive acorrentada a inseguranças projeta a sua frustração naquela que se atreve a ser livre. A inveja, neste contexto, não é pelo que a outra tem, mas pelo que a outra ousa ser...
...uma mulher empoderada, dona da sua estética e do seu prazer, que não pede licença para existir.
Quando uma mulher critica o corpo ou a liberdade de outra, está, na verdade, a atacar a liberdade que não se permite ter. A verdade é que, frequentemente, as mulheres sabotam-se para garantir a aprovação de um sistema que as oprime, preferindo derrubar a "mulher alfa" do que aprender com a sua autonomia.
A Cura pela Autonomia Absoluta
O direito ao corpo é o fundamento da identidade. Ser livre significa ter o poder de envelhecer sem pedir desculpa, de ocupar espaço sem se encolher e de decidir o destino da sua biologia sem prestar contas à "polícia da moralidade" feminina.
A felicidade da mulher moderna não reside na perfeição imposta, mas na concordância. É o estado em que o corpo obedece apenas à alma que o habita. É tempo de substituir a sororidade de fachada por uma lealdade profunda, onde a liberdade de uma mulher seja vista como uma vitória coletiva, e não como uma ameaça ao status quo.
O corpo da mulher pertence a si mesma. E a maior revolução que pode praticar hoje é olhar para uma mulher livre e, em vez de a tentar diminuir, reconhecer nela o espelho da sua própria capacidade de libertação.
