Tudo o Que Não Disse é o nome do primeiro livro de Diogo Alexandre Pires, lançado poucos meses depois de ter vencido a oitava edição de "Secret Story - Casa dos Segredos". É sobre esta obra que o primeiro classificado do reality show da TVI fala numa grande entrevista à SELFIE, na qual aborda ainda a relação com o pai.
Era um sonho escrever um livro ou nunca tinha pensado nisso?
Já tinha pensado, sim, há muitos anos. Era algo que me motivava, mas teria de ser sobre um tema que eu soubesse que iria chegar a muitas pessoas e que pudesse acrescentar às suas vidas. Até então, eu sabia sobre alguns temas, mas acredito que foi graças ao programa e à exposição que tive que se tornou também possível tornar este tema mais interessante para todas as pessoas que possam ler. Porque viram e presenciaram - muitos durante três meses e meio. Uma coisa é ler um livro de alguém, outra coisa é ver o comportamento dessa pessoa e, depois, sim, ler com base naquilo que já viram, podendo confiar.
Como surgiu a oportunidade de escrever este livro?
Tive o privilégio de ter falado com o Flávio Furtado, que me deu o contacto desta editora. Eles tiveram interesse em pegar em mim, poder dar vida a este meu livro e acrescentar muitas ideias. O facto de ter um QR Code e permitir ser multiplataforma... Não ser só leitura, leitura, mas ter também áudios, vídeos e fotografias... Torna este livro algo diferente do que estamos habituados.
O que o público pode ler nesta obra? O título já é muito sugestivo...
A verdade é que abordo temas que nunca tinha tido a oportunidade de falar. Coisas da minha vida íntima, a nível de relacionamentos, amizades... Coisas que muitas das pessoas que se identificaram comigo dentro do programa também já viveram. Com este livro, consigo abordar estes temas de forma mais intimista, para que me conheçam ao detalhe. Acabo por partilhar também algumas ferramentas que eu utilizo na minha vida pessoal para conseguir ser aquilo que as pessoas viram no programa. Eu acredito que, com essas ferramentas, se pode viver não tão em sofrimento. Às vezes, acabamos por sofrer com coisas que nos são alheias, com comportamentos dos outros... Em jeito de brincadeira, acredito que é o primeiro livro em Portugal que também poderá dar conselhos a quem quer inscrever-se e participar num reality show. Acaba por ser quase uma bíblia para quem queira passar por lá.
Pegando no título do livro - Tudo o Que Não Disse -, diga-nos uma coisa que nunca disse e que está na obra.
Alguns motivos que me levaram a suportar relacionamentos que acabavam por ser prejudiciais e eu via que eram prejudiciais, mas que foram importantes para que eu me tornasse na pessoa que sou hoje. Caso contrário, ainda hoje estaria a pensar "E se eu tivesse feito diferente? E se eu tivesse ajudado de outra forma?". Então, entro muito ao detalhe no aspeto da parte amorosa, relacionamentos e amizades, para que as pessoas não tenham de ir até a um extremo para decidir que, naquele momento, já é o ideal para terminar - quer seja uma amizade ou um relacionamento.
O que as pessoas têm dito?
Felizmente, têm sido críticas muito positivas. É algo que está a encher-me o coração. Aconselham aos familiares! Uma mãe mandou-me uma mensagem a dizer que consegue ver muitas das atitudes do filho em mim. Ler o meu livro permitiu lidar de forma melhor com o filho e já está a ter resultados com a própria relação com o filho. Achei isso magnífico. Dá um propósito ao meu livro, muito maior do que só dizer coisas que até possam vir a ser polémicas. Se eu tivesse lido um livro semelhante, quando eu era mais pequenino, também me teria ajudado. Há também quem já tenha lido o livro todo e, quando têm alguma dúvida durante o dia, abrem aleatoriamente uma página do meu livro e lêem essa página. É interessante a forma como deixarem ao acaso as coisas acontecerem os pode também transmitir algo de positivo e até arranjarem uma solução para um problema que estão a ter nesse momento.
Quase como um conselheiro.
Sim. Também me sinto bastante entusiasmado por o meu livro estar a ter tanta utilidade e não ficar só na prateleira. "Já o li, está lido". Não, ainda continuam a utilizar o livro.
As vendas estão a correr bem?
Felizmente, sim. Estamos quase a terminar a primeira. Nunca estamos à espera. Se as pessoas vão comprar, se não vão comprar...
É sempre uma incógnita.
Porque uma coisa é gostarem de mim, outra coisa é quererem ler um livro. Mais do que as vendas em si, é saber que tem sido tudo orgânico.
Escolheu Flávio Furtado para escrever o prefácio e também para apresentar o livro. Porquê?
Precisamente porque foi uma das pessoas que me conheceram durante três meses e meio, se calhar até com mais atenção do que alguns amigos meus. E também pelo facto de ele também me ter ajudado a encontrar esta editora. Como também gostei muito da personalidade dele, pensei que fazia todo o sentido ter o Flávio a participar no prefácio e ter um bocado da identidade dele no meu livro. Já li mais de 250 livros ao longo destes últimos cinco anos e confesso que este foi o prefácio mais emocionante que já li.
A apresentação foi num lugar muito especial para si.
É verdade. Na minha escola secundária.
Há quanto tempo não ia lá?
Há cerca de dez anos.
Como viveu esse dia?
Com muita nostalgia. Havia muitas pessoas que me reconheciam da televisão e muitas outras que ainda eram do meu tempo [de escola]. Fiquei muito contente por a Cristina ainda estar na receção, por exemplo. Ao fim destes anos todos, revi alguns professores, que ainda se lembravam da minha cara. Eles também ficaram muito felizes por eu ir às origens. A verdade é que foram muitos anos ali vividos, que moldaram a minha personalidade - como a forma como eu lido com os stresses e com os problemas. Daí eu abordar a passagem pela escola no meu livro.
Estudou lá quantos anos?
Foram cinco anos, até ao 12.º ano.
Não foi fácil esse período?
Houve algumas discussões, como é normal. Acho que é assim em todo lado. Quando envolve muitas crianças, acaba por haver discussões. Eu ter de arranjar formas de lidar com esses conflitos... Foi nesse período que eu experimentei de tudo. Responder com a mesma moeda e ver que resultados é que tinha... Não responder de forma agressiva, responder com amor e ver que resultados é que tinha... E até mesmo a nível das aulas. Eu tinha muita dificuldade em prestar atenção às aulas e, às vezes, acabava por desestabilizar os colegas, porque falava com eles. Desestabilizava também o professor, porque, quando dávamos por isso, já estava a falar com o professor e a perguntar coisas que não tinham nada a ver com a escola.
Deu muito trabalho aos seus pais enquanto adolescente?
Algum... Até ao quinto ano, acredito que tenha dado mais. Depois, já estabilizei, ou seja, tinha alguns problemas que eu próprio ia resolvendo. Havia algumas vezes que eu acabava por ir para o gabinete de apoio ao aluno. Eles acabavam por ficar tristes, mas arranjavam sempre forma de me incentivar a ter mais atenção à aula.
Ainda é o jovem que era?
Continuo a ser um bocado reguila. Acho que isto sempre fará parte de mim. Mas tive que me conter muito. A solução que arranjei para não ter mais problemas, tanto na escola como na própria faculdade, era criar o meu próprio mundo na minha cabeça. Então, às vezes, estou distraído, no meu mundo. Estou com o corpo num sítio e o meu pensamento já vai a divagar. Consegui controlar muito as minhas emoções, para não as exteriorizar de forma a desestabilizar as outras pessoas, e por isso é que, se calhar, eu pareço uma pessoa muito mais calma. Na verdade, sou. Isto também me deu muita força para controlar as minhas emoções.
Voltando ao livro, quem foi a primeira pessoa que o leu?
Foi a minha mãe. Leu mais de oito vezes antes do lançamento. Em todas as vezes, emocionava-se bastante e vinha ter comigo e dizia: "Ó filho, estou tão orgulhosa de ti e do livro que estás a criar".
Com este livro, ela descobriu coisas sobre si que não sabia?
Algumas. Muitas das coisas que ela que acabou por descobrir até foi mesmo no próprio programa. No livro, havia alguns pormenores... Posso dar um spoiler: a relação que eu acabei por ter com uma professora.
A sua mãe não sabia?
Ela disse-me que, nessa altura, desconfiou de qualquer coisa, porque achou estranho ela chegar a ligar para casa. Mas a certeza absoluta nunca teve. Então, agora, acabou por ter a confirmação.
E o seu pai já leu o livro?
Já leu partes. Na verdade, ele não é muito de exteriorizar. Ele é mais recatado, até porque há alguns pontos que podem tocar-lhe e ele acaba por preservar-se. Porque ele sabe que ele próprio pode entrar em conflito se não se conseguir controlar tão bem essas emoções. Então, ele está ainda a amadurecer. Ele diz que já vai na segunda vez que está a ler, porque há certos pontos que ele quer amadurecer antes de vir falar comigo. Também estou curioso para essa conversa acontecer.
Como lida com o facto de ele estar neste período de ponderação?
É algo até muito importante. Lido de forma feliz, porque significa que o que ele leu no livro lhe permitiu também desenvolver-se melhor. Porque ele, antigamente, tornar-se-ia reativo. O facto de ver que ele está mais ponderado diz-me que ele leu o livro e que está a ter efeito nele, porque cada pessoa leva o seu tempo.
Arrependeu-se de alguma coisa que tenha contado no livro?
Não me arrependo, porque acredito que faz parte do meu crescimento. Que todos os erros que eu vou cometendo na minha vida sirvam para alguém aprender com eles e não os cometer. Os livros são a melhor ferramenta para nós aprendermos a não cometer os mesmos erros que alguém já tenha cometido. Eu próprio, ao ler tantos livros como já li, quero aprender com essas pessoas. O que eles fizeram de bom e o que fizeram de mal.
Ficou muita coisa por contar?
[Risos.] Eu não diria por contar. A verdade é que a minha vida tem muito mais peripécias, só que também tenho de escolher as que possam ser mais úteis para as pessoas. Quem sabe, daqui a algum tempo, possa construir algo... Não sobre estes temas. Há muitos outros temas que eu tenho para abordar
Como está a relação com o seu pai? Sente que conseguiu recuperar a relação que tinham?
Bastante. Confesso que, ao início, assim que eu saio do programa, ele estava muito recetivo a tudo. Depois, houve um período em que houve um pouco uma queda, o que é normal. Mas a verdade é que nunca voltou ao que era antigamente. Portanto, eu fico mesmo muito feliz por ter participado neste programa, porque o facto de ele conseguir estar a ver-me durante três meses e meio, a lidar com outras pessoas e a passar por situações desconfortáveis, permitiu que ele pondere mais.
Coloca expectativas nessa relação, ou seja, almeja que a vossa relação de pai e filho chegue a algo?
Já chegou a esse algo. Claro que se formos a dizer que é uma relação perfeita... Acho que seria um pouco imaturo da minha parte esperar que venha uma relação perfeita, porque ele já tem 63 anos e, portanto, tem uma história de vida que eu nem tenho o direito de estar a mudá-lo por completo. Ele próprio já conseguiu encontrar algumas ferramentas para que o nosso convívio seja muito mais saudável e divertido, mas também não quero que ele seja feito à minha figura. Ele tem que ter a individualidade dele. Nós, às vezes, idealizamos uma pessoa perfeita, que nunca vai discutir e que vai sempre ser perfeita à minha maneira. Eu não procuro a perfeição, mas, sim, algo equilibrado. E, sim, está muito, muito mais equilibrado. Agora, se calhar, até pode vir a melhorar ainda mais. Quem sabe... Nota-se muita mais vontade também da parte dele para que isso aconteça.
Veja, agora, nas galerias que preparámos para si, as melhores imagens de Diogo Alexandre Pires.
