Crónicas

O eixo intestino-boca: porque a digestão começa antes do estômago!

Há qualquer coisa de fascinante no momento em que damos a primeira dentada numa maçã, O som crocante, a frescura na boca. Mas raramente pensamos no que realmente está a acontecer ali. A digestão, esse processo que imaginamos a ocorrer muito para lá do estômago, começa afinal muito antes, começa na boca.

Cirurgia Oral e Implantologia / OMD - 04663
  • 9 mar, 16:00
Saúde Oral

Durante anos, a Medicina tratou a boca e o intestino como departamentos estanques. Mas a investigação mais recente veio mostrar que esta separação não faz sentido. A boca e o intestino conversam entre si permanentemente.

 

Aquilo que a boca esconde

   

A cavidade oral é um universo povoado por milhões de microrganismos. Mais de setecentas espécies diferentes de bactérias vivem na nossa boca, instaladas nos dentes, na língua, nas bochechas.

Quando tudo funciona bem, estas comunidades coexistem pacificamente connosco. As bactérias benéficas ocupam o território, impedindo que as mais agressivas se instalem.

O problema é que este equilíbrio facilidade desaparece. E pode acontecer por diversos factores: higiene oral descuidada, alimentação excessivamente doce, tabaco, stresse. As bactérias mais agressivas proliferam, a gengiva inflama e a cárie instala-se.

Já reparou como as gengivas sangram quando está mais stressado? Ou como surgem aftas depois de semanas complicadas? Não é coincidência.

 

A viagem que começa na boca

 

Todos os dias engolimos milhões de bactérias provenientes da nossa própria boca. Com cada deglutição, enviamos um pequeno contingente bacteriano em direção ao estômago.

A maior parte não sobrevive à travessia. Mas algumas resistem e certas bactérias orais chegam intactas ao intestino e podem alterar a composição do microbioma intestinal.

Quando a boca está saudável, as bactérias que enviamos são inofensivas. Mas quando há doença oral, quando as gengivas sangram e as bactérias agressivas dominam, o que segue viagem é um exército de potenciais agentes patogénicos.

A situação agrava-se porque a inflamação crónica das gengivas cria uma porta de entrada alternativa. As bactérias podem passar para a corrente sanguínea e chegar ao intestino por via sistémica.

 

Quando o intestino responde

 

Esta relação não é de sentido único. Se a boca influencia o intestino, também o intestino interfere  na boca.

Pessoas com doenças inflamatórias intestinais apresentam frequentemente manifestações na cavidade oral. Aftas que não cicatrizam, língua com aspecto geográfico, mau hálito persistente – estes sinais podem ser o primeiro aviso de que algo não está bem no intestino.

Conhece alguém com problemas intestinais que tenha constantemente a boca seca ou aftas? Não é invenção nem exagero; a ligação existe.

 

O que podemos fazer no dia a dia

 

Cuidar da saúde oral é também cuidar da saúde intestinal.
Uma higiene oral cuidada continua a ser a base. Escovar os dentes depois das refeições, usar fio dentário diariamente e limpar a língua, são gestos simples que mantêm o microbioma oral equilibrado.

A alimentação é igualmente determinante. O açúcar é o principal inimigo, alimentando as bactérias agressivas. Uma dieta rica em fibras, legumes e alimentos fermentados promove a diversidade microbiana. Beber água estimula a produção de saliva.

Outro aspecto importante são as visitas regulares ao médico dentista e não apenas quando dói. A gengivite é reversível com tratamento adequado; mas quando ignorada, pode evoluir para periodontite, com impacto sistémico.

 

Uma nova forma de olhar para a saúde

 

O reconhecimento do eixo intestino-boca insere-se numa tendência mais ampla: olhar para o paciente como um todo. A boca não é um órgão isolado.

Da próxima vez que escovar os dentes, lembre-se disto. O que faz na boca não fica na boca. A saúde começa realmente aí.

Prof. Doutor João Espírito Santo
Cirurgia Oral e Implantologia / OMD - 04663

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