Crónicas

"Santo António, senta-te, temos de conversar", por Vera Xavier

Santo António, temos um problema.

  • 14 jun, 18:09
Vera Xavier
Vera Xavier | Foto: D.R.

Sabemos que estás a celebrar mais um ano de sucesso retumbante na tua área de especialização, portanto, antes de mais nada, parabéns! Lisboa inteira andou de manjerico na mão, as marchas desfilaram com o entusiasmo de quem acredita mesmo que vai encontrar o amor da vida ainda naquela semana. Estatisticamente, é preciso dizer, tu entregas. A taxa de divórcio anda perto dos 50%. É bem mais difícil ganhar o euromilhões, certo? Sim, senhora!

Casa-se gente. Casa-se muita gente. Tu és, sem exagero, o profissional mais bem-sucedido do mercado português de encontros, com séculos de resultados comprovados e zero gastos em campanhas de marketing. Invejável.

O busílis, querido António, é que nós aqui, no terreno, andamos a lidar com as consequências do teu sucesso. Pois é…

Porque tu fazes a parte bonita; aproximas duas pessoas, alinhas os astros, entregas o pack completo com noivado, lua de mel e fotografias emolduradas, com mais ou menos gosto. Só que depois desapareces como quem sai pela porta dos fundos antes que alguém peça referências. E o que fica para trás, meu santinho, é uma quantidade verdadeiramente industrial de casais sentados à mesa de jantar (info desatualizada. Já ninguém se senta à mesa para jantar), em silêncio absoluto, onde a única frase ainda trocada com regularidade é sobre quem leva o cão ao veterinário na quinta-feira. E repara, esse silencio acontece numa refeição dentro ou fora de casa! Sim, é vê-lo sentados nos restaurantes de telemóvel na mão num scroll incessante. Eu conheço outras maneiras mais giras de gerar dopamina, certo, António? Desculpa, é verdade, és celibatário. Perdão!

Isto, com todo o respeito pela tradição, isto não é amor! E é aqui, Santo António, que temos de falar de coisas sérias. Esta é uma delas.

Em programação neurolinguística existe um conceito fascinante chamado ganho secundário, que explica porque é que tanta gente permanece em situações que, vistas de fora, parecem absolutamente insustentáveis e outras até parecem decentes, mas não são porque não fazem crescer. Não diálogo. Não há coisas em comum.. E os homens, deixa-me dizê-lo com todo o carinho e uma pontinha de exasperação, são autênticos campeões olímpicos do ganho secundário. Então, este ganho secundário é o 'esforço e a dor que evitam'… como se o fizessem. O esforço e a dor estão lá latentes. Eles ficam e ficam e ficam. Ficam numa relação onde já não há cumplicidade, nem estimulo, nem desejo e muito menos respeito ou admiração reciproca. Ficam a ver a bola com uma cara de paz interior digna de retiro nos Himalaias, ficam porque mudar dá trabalho e o sofrimento em piloto automático, pelo menos já está instalado e a funcionar sem necessidade de atenção ou… decisões.

Chamamos a isto, com a devida vénia ao jargão técnico, conforto com aparência de destino.

As mulheres, por outro lado, costumam seguir um percurso bem mais longo e, digamos, mais trabalhoso. Primeiro vem a conversa séria. Depois a terapia de casal. Depois a terapia individual. Depois os livros de desenvolvimento pessoal - um em cada mão -, lidos à procura de uma resposta que, ironicamente, sempre esteve a bombar na mente delas mas que ainda não tinham conseguido traduzir em português coloquial. Depois vem mais uma tentativa. Agora é que é! Ok, mais uma. Depois há ainda a fase do desespero: os berros, que traduzindo dizem: 'Ouve-me sem te teres a necessidade te de defender! Eu só quero que me ouças!', 'Dá-me atenção!', 'Faz a tua parte porque eu não sou tua criada nem mãe!'

Até que chega o momento em que elas já não têm energia nem para explicar porque deixaram de ter paciência, e aí, finalmente, saem. Homens, quando a mulher se cala fiquem sabendo que acabou. The end. Caputo.

Então, santo Antoinho, entre estes dois movimentos, o ficar confortável masculino e o sair feminino exausto, existe um território vastíssimo a que poderíamos chamar o limbo relacional, e que, sinceramente, António, devia ter direito a uma capela própria, de tão concorrido que é.

Este é o espaço onde vivem presos muitos, demasiados, entre o 'não consigo sair' e o 'não consigo ficar', convencidos de que ambas as opções exigem uma dose de coragem superior àquela que se sente ter, mesmo depois de três cafés e uma mão cheia de podcasts motivacionais.

Por isso, António, e digo-te com a maior estima, está na hora de actualizares o teu portefólio de serviços. Sim, sim.

Continuas, sem dúvida, como padroeiro dos casamentos. A marca está consolidada, publico fidelizado, ninguém pretende mexer numa fórmula vencedora. Manténs o teu branding que está impecável e em que não gastaste um tosto! Invejável. Mas acrescenta-lhe, se faz favor, uma nova área de competência: padroeiro da coragem de sair quando o amor já se foi, especialmente dirigido aos senhores que confundem comodidade com lealdade. E já agora, ficas também padroeiro do discernimento feminino, para que tantas mulheres maravilhosas parem de aceitar migalhas convencidas de que aquilo é bolo inteiro, só porque têm a percepção errada de que as relações são todas 'difíceis'. Não são! Têm desafios? Claro que sim, mas há sentimentos - respeito! - e projetos em comum.

A coragem a sério, essa que devia ter direito a procissão própria, está na pergunta que quase ninguém se atreve a fazer ao espelho, talvez porque já suspeita da resposta e sabe que ela não vem embrulhada em conforto nem em justificações bonitas: estou aqui porque escolho esta pessoa todos os dias ou porque a alternativa me assusta mais do que a infelicidade a que me habituei?

Porque, convenhamos, António, permanecer numa relação onde já não existe amor, admiração, desejo, curiosidade ou sequer vontade de ouvir o outro respirar sem irritação não é propriamente uma demonstração de virtude. É mais uma espécie de arrendamento emocional com renovação automática, daqueles contratos que ninguém lê, ninguém questiona e que continuam a existir apenas porque dá uma preguiça tremenda tratar da papelada.

E é aqui que entra o verdadeiro milagre que te queria pedir.

Não é juntares mais pessoas. Nisso já és especialista. Tens séculos de experiência, uma reputação invejável e um reconhecimento de marca que faria qualquer consultor de marketing chorar de emoção.

O que eu gostava mesmo era que começasses a distribuir algum discernimento. Pequenas doses. Nada de exageros. Um sopro aqui, uma iluminação ali, um toque subtil na consciência de quem anda há doze anos a chamar "fase complicada" a uma relação que, observada de fora, já parece um museu de história natural.

Imagino, por exemplo, uma intervenção tua às três da manhã. Nada assustador. Apenas uma voz serena a sussurrar ao ouvido:

"Boa noite, sou o Santo António, o vosso casamenteiro! Lamento interromper o teu sono, mas achei relevante informar que vocês já não são um casal. Neste momento funcionam sobretudo como uma empresa de gestão doméstica, com uma excelente capacidade logística, mas fraca actividade romântica e, sim, algum desinteressante coito ocasional. Esta info foi a Vera que me passou…

Escusadinho!

Ou então, espera, Tony, faz uma aparição discreta durante o jantar. Nada de luzes divinas nem trombetas celestiais. Apenas tu, sentado à frente do cesto do pão e do garrafão de vinho — não é pecado, Santo António, é estratégia terapêutica. A taxa de homicídios tem baixado, portanto, deixa lá estar o vinho —, a observar aquele silêncio confrangedor que dura há quarenta e cinco minutos, até dizeres com a delicadeza possível:

"Peço desculpa, morcões, por interromper, mas discutir sobre a marca das cápsulas da máquina do café não conta como comunicação emocional."

Era útil, António. Muito útil! Estás a apontar?

Porque há casais que já não trocam beijos nem passwords do Wi-Fi. Já não fazem planos para a vida, fazem comparações de salários. Já não sonham juntos; renovam seguros de saúde. E conhecem tão bem as alergias, os medicamentos e o NIF um do outro que, por vezes, parecem mais irmãos e não amantes. ’Amante’ é uma palavra bonita, António! Não precisas corar. Os muçulmanos usam muito para se referirem a Deus, certo? Ai essa mente…

Bom, suspeito que não era exactamente isto que tinhas em mente quando começaste esta actividade. Bem sei.

Por isso, neste Santo António, não te peço mais casamentos. Não, não. Peço-te melhor pontaria e paciência.

Trava as pessoas desesperadas que têm medo de ficar para 'tias'.

Depois explico, António. Foca-te. Menos gente a confundir comodidade com Amor. Menos gente a transformar medo em compromisso só porque a palavra soa mais bonita. E mais pessoas capazes de ficar e lutar quando vale a pena, de sair quando já não vale e, sobretudo, de perceber a diferença entre uma coisa e outra. Soa-te familiar? É do teu colega São Francisco de Assis… bem, na verdade não é, mas… Vera, foco.

Vamos lá a ver, o Amor nunca foi uma prisão e nunca será. É na verdade a antítese. O amor é uma escolha consciente e quando deixa de o ser, o mínimo que merece é uma conversa honesta e… wait for it… madura!

Pronto, tenho dito! Agora vou deixar-te trabalhar porque Lisboa inteira continua a depositar em ti todas expectativas. Em partilhar depois do aparecimento de Walt Disney. Havemos de falar sobre isso, António! Que raio?! Foram felizes para sempre?

Fica o alerta: se para o ano a estatística continuar a mesma, voltamos a reunir, combinado? E dessa vez, meu mui querido António, traz relatórios, gráficos, indicadores de desempenho e um plano estratégico para o século XXI, porque isto de juntar pessoas é bonito, mas mantê-las felizes parece estar a precisar de uma actualização de software asap.

Feliz aniversário, Toni!

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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