Entrevistas

A emoção de quem grita "golo" na rádio: conheça Ricardo Barras, que está a dar cartas no futebol!

A SELFIE esteve à conversa, em exclusivo, com o narrador de futebol Ricardo Barras.

Certamente, já o ouviu na rádio. Agora, mostramos-lhe a cara de Ricardo Barras: veja as fotos!

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Aos 32 anos, Ricardo Barras é, atualmente, o dono de uma das vozes mais promissoras da narração de futebol. A SELFIE esteve à conversa com o alentejano, que certamente já ouviu na TSF, na DAZN, no FlashScore ou na LiveMode.

Sempre sonhou ser narrador?
Não, nunca! O meu sonho foi sempre a imprensa escrita, especificamente escrever para o jornal A Bola. Foi o jornal da minha adolescência, lembro-me de, todos os fins de semana, ir à papelaria ao fundo da minha rua comprá-lo e lê-lo de uma ponta à outra. Deve ser por causa desses tempos que o cheiro do papel ainda hoje mexe comigo. Felizmente, consegui cumprir esse sonho, mesmo que durante pouco tempo. A rádio e os relatos acabaram por surgir por acaso e desde então tem sido esse o meu foco.

Deixa-se levar muitas vezes pela emoção?
A emoção faz parte de um relato de futebol. É, aliás, um ingrediente fundamental. Temos de saber aproveitá-la da melhor maneira, sabendo que não podemos deixar-nos levar totalmente por ela, com risco de perdermos alguma clarividência do que está a acontecer. É uma linha ténue, mas com tempo vais conseguindo equilibrar-te em cima dela. Deixo para outra altura a questão sobre se um relato de futebol é jornalismo (risos).

Há uns dias, partilhou um vídeo que tem sido amplamente partilhado. Qual o feedback que tem sentido do público?
Não estava à espera do alcance que o vídeo teve, até porque foi a primeira vez que partilhei algo do género. Tinha o vídeo feito há algum tempo e estive numa luta interna sobre se deveria publicá-lo ou não. É uma desconstrução que ando a tentar fazer. Tenho uma relação complicada e de muitas dúvidas com as redes sociais e o seu papel nos dias que correm. Apesar disso, foi bom ler as mensagens das pessoas, acho que foi a primeira vez que tive um feedback tão direto do público. Ri-me bastante com a ideia de acharem que tenho voz de uma pessoa de 50 ou 60 anos (risos). Se calhar as redes sociais têm alguma coisa de positivo…

Ainda se recorda do seu primeiro jogo? Qual foi e o que sentiu nesse dia?
Só me lembro do enorme nervosismo que sentia. O primeiro jogo na rádio foi em setembro de 2014, fiz reportagem à distância do empate entre o Shakhtar e FC Porto na Liga dos Campeões (2-2). O primeiro jogo em estádio foi mais marcante e aconteceu algumas semanas depois, curiosamente também do FC Porto, na casa do Estoril Praia (2-2). Recordo-me perfeitamente da equipa que estava comigo: fiz reportagem juntamente com o Diogo Varela (hoje na rádio Observador), com comentários do Tuck (hoje adjunto de Jorge Jesus) e com relato do enorme Óscar Cordeiro (hoje na Benfica FM). Lembro-me de referir que o Brahimi era como o algodão na reportagem do primeiro golo do FC Porto (risos).

Quem são as suas referências?
Não cresci a idolatrar nenhum narrador em concreto, porque o meu olhar não estava virado para aí. Ainda assim, tenho guardadas na memória as vozes do Alexandre Afonso e do Nuno Matos nas tardes da Antena 1. Também a do João Ricardo Pateiro na TSF. São as lembranças mais diretas que tenho. Hoje em dia, existe uma nova e muito boa geração de narradores que mantêm a chama dos relatos na rádio bem acesa: António Botelho, André Maia, Hugo Miguel Taveira, André Cruz, João Correia e tantos outros. Tento ouvir todos e aprender com cada um.

Chegou a narrar com o João Ricardo Pateiro?
Não chegámos a relatar um jogo em conjunto (os dois em simultâneo a fazer relato), mas fui repórter dele num jogo da Seleção Nacional. Lembro-me perfeitamente de dicas e conselhos que me transmitiu nessa altura e que ainda hoje guardo comigo e utilizo nos meus relatos. Há duas ou três pessoas incontornáveis no meu percurso e o João é uma delas. Foi ele que me convidou para ir relatar na TSF e certamente que não estaria onde estou hoje se não fosse por essa oportunidade que ele me concedeu. Além da carreira e do legado extraordinários, é uma grande pessoa e tenho a sorte de o considerar um amigo.

Tem acumulado vários projetos. Como faz a gestão disso e o que sente por ser uma aposta de vários canais/rádio?
Não é fácil conciliar tudo, é preciso fazer alguma ginástica, não apenas a nível profissional, mas pessoal também. Diria que a maior dificuldade é mesmo a preparação dos jogos, quando há muitos em simultâneo e num curto espaço de tempo. Normalmente, faço quatro, por vezes cinco jogos por fim de semana. Acabas por não conseguir mergulhar a fundo em termos de informação em alguns deles, especialmente nos jogos estrangeiros que faço para a televisão e que dão mais trabalho. Sou um bocado obcecado por isso, tento saber tanto de Benfica, Sporting ou FC Porto como do Bétis, do Crystal Palace ou do Estugarda. Quero estar por dentro da realidade desses clubes também, mas nem sempre consigo.

Como é relatar um jogo de Portugal?
Se calhar, não é a resposta que estão à espera, mas não sinto que seja diferente relatar um jogo de Portugal do que um jogo dos três grandes, do Torreense ou do Casa Pia. A equidistância que faço questão de ter nos relatos e com a qual vivo durante toda a época acaba por levar a melhor sobre a emoção que existe em narrar um jogo do meu próprio país. É claro que isto não significa que grito os golos das outras seleções, não me interpretem mal. Há realmente mais espaço nos jogos da Seleção para sermos um bocadinho mais flexíveis, mais soltos, deitarmos mais cá para fora a tal emoção que referia anteriormente e que é importantíssima. Mas acho que a verdadeira razão é esta: eu gosto muito mais de futebol e de relatos do que gosto da Seleção ou de qualquer outro clube. É isso o que mais me estimula.

Portugal não entrou propriamente com o pé direito neste Mundial 2026. Considera, mesmo assim, que podemos ir longe?
Portugal tem todas as ferramentas para ir muito longe neste Mundial, resta saber se as conseguirá utilizar corretamente. Estamos perante um dos melhores grupos de jogadores em termos de qualidade individual que me recordo. Eventualmente, isso poderá chegar só por si, mas normalmente é preciso algo mais do que isso. E há que dizê-lo que várias outras seleções também têm essa qualidade e talento diferenciado. Nestas alturas de europeus ou mundiais, o povo português acaba por empolar muito as qualidades da nossa Seleção, esquecendo-se que há outras igualmente capazes de ganhar. Faz parte do espírito, mas é bom lembrar que só ganha uma. Portugal até poderá fazer um torneio supermeritório e mesmo assim não dar para ser campeão. Faz parte do futebol e está tudo bem com isso.

Não será propriamente fácil estar 90 minutos a falar. Quais os segredos para se conseguir fazer um bom trabalho? Muita água? Muita imaginação?
A água é a tua melhor amiga durante um relato (risos). Na rádio, felizmente, estou sempre acompanhado de um repórter e de um comentador, o que facilita bastante a coisa. Não tenho de estar 90 minutos constantemente em pré-paragem cardíaca (risos). Costuma-se dizer, dentro do meio jornalístico, que o narrador é a parte mais importante do relato, é o seu elemento principal. Há alguma razão nesta ideia, mas só até determinado ponto. No meu entendimento, um repórter e um comentador são igualmente importantes e um bom relato não dispensa a sua contribuição. É muito mais um trabalho de equipa do que aquilo que parece.

O que gostaria ainda de fazer?
Não sou de traçar objetivos a médio/longo prazo. Foco-me sobretudo no trabalho, empenho, profissionalismo e brio que tento colocar em tudo aquilo que faço, acreditando que, dessa forma, as oportunidades vão surgindo. O meu percurso tem sido feito dessa forma desde que saí de Montemor-o-Novo para Lisboa. Acho que poderia estar pior (risos).

Veja, agora, algumas das melhores fotografias de Ricardo Barras, na galeria que preparámos para si!

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