Crónicas

O labirinto invisível: o que a PHDA faz quando ninguém está a ver

Vive num mundo que corre a uma velocidade diferente. Para quem observa de fora, pode parecer apenas distração, um certo "ar na lua" ou aquela tendência crónica para perder as chaves de casa. Mas, para quem convive diariamente com a PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção), a realidade é um labirinto invisível de rituais e desafios que raramente chegam às conversas de café.

Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844
  • 15 abr, 14:23
Mulher

A PHDA não se resume à incapacidade de estar parado. É, acima de tudo, uma forma diferente de processar a existência.

 

A Paralisia do Relógio

Um dos comportamentos mais silenciosos, mas mais limitadores, é o chamado "modo de espera". Se tem um compromisso marcado para as 15h, o dia de quem tem PHDA fica, efetivamente, suspenso. Existe uma incapacidade visceral de iniciar qualquer tarefa produtiva nas horas que antecedem o evento. O cérebro fica "refém" do horário, temendo que qualquer distração cause um atraso imperdoável. É uma paralisia mental que consome energia, mesmo quando o corpo parece estar apenas sentado no sofá.

 

Ver sem Olhar

Depois, há a curiosa "cegueira doméstica". Não se trata de desleixo. O cérebro PHDA tem uma capacidade fascinante de transformar objetos fora do lugar em parte integrante da paisagem. Uma caixa deixada no corredor pode permanecer lá durante semanas; a pessoa passa por ela, desvia-se, mas o seu sistema visual deixa de a processar como "lixo" ou "algo para arrumar". Até que, subitamente, num pico de dopamina, o objeto "reaparece" e a urgência de arrumar torna-se absoluta.

 

O Ruído que Acalma

A necessidade de estímulo secundário é outra das facetas pouco compreendidas. Para conseguir focar-se numa tarefa aborrecida, como dobrar a roupa ou preencher um relatório, a pessoa com PHDA precisa de barulho. Um podcast, uma série que já viu dez vezes a passar ao lado, ou música repetitiva. Curiosamente, o silêncio absoluto é, muitas vezes, demasiado barulhento para quem tem uma mente que nunca se cala.

 

A Dor da Rejeição Percebida

Talvez o ponto mais sensível seja a Disforia Sensível à Rejeição. Uma resposta curta numa mensagem de WhatsApp ou um olhar mais frio de um colega pode ser sentido como uma dor física. A pessoa com PHDA tende a hiper-analisar as interações sociais, antecipando críticas que, muitas vezes, nem existem. É um cansaço emocional constante, uma tentativa de ler nas entrelinhas para garantir que está "tudo bem".

Compreender a PHDA é ir além do óbvio. É perceber que, por trás de uma agenda desorganizada, existe muitas vezes um esforço hercúleo para manter o barco a navegar. Não é falta de vontade, nem falta de inteligência. É, simplesmente, uma biologia que pede estratégias diferentes para um mundo que ainda valoriza demasiado a norma.

Tatiana A. Santos
Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844

Relacionados