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"Socorro, o meu filho namora. E agora?!", por psicóloga Inês Miranda

Num dia estão a pedir ajuda para atar os atacadores. No outro, passam horas a trocar mensagens com alguém especial. É aqui que muitos pais percebem: "o meu filho gosta de alguém."

  • 16 jun, 17:52
Namoro adolescentes (imagem meramente ilustrativa)
Namoro adolescentes (imagem meramente ilustrativa) | Foto: César O'neill/Pexels

Para alguns, este momento chega com ternura e curiosidade. Para outros, com preocupação. E para muitos, com uma mistura das duas.

Surge uma avalanche de perguntas:
"Será demasiado cedo?"
"E se sofrer?"
"Será que está preparado?"
"Tenho de dizer alguma coisa?"
"Faço perguntas ou deixo andar?"
"Será que já pensa em sexualidade?"
"Vai ocupar a cabeça com o namoro e esquecer os estudos?"

Se te revês nisto, respira.

O namoro faz parte do desenvolvimento emocional e social dos adolescentes. Embora possa ser desafiante para pais e filhos, é também uma oportunidade única de crescimento.

É através das primeiras relações que muitos adolescentes começam a conhecer melhor quem são, aquilo de que gostam, os seus limites, a forma como comunicam, como lidam com a rejeição e como se relacionam com os outros.Por outras palavras, o namoro não é apenas sobre gostar de alguém. É também sobre descobrir-se a si próprio.

 

O erro que muitos pais cometem sem querer

Quando o filho fala sobre alguém de quem gosta, alguns pais tendem a minimizar:
"Isso passa."
"Daqui a duas semanas já nem te lembras."
"É só uma fase."

Embora a intenção seja proteger, o resultado costuma ser o contrário.

Quando os adolescentes sentem que as suas emoções são desvalorizadas, aprendem uma coisa: "não vale a pena falar disto com os meus pais."
E é precisamente nesta fase que queremos manter as portas abertas.

Não precisas de concordar com tudo. Mas ajuda muito validares aquilo que o teu filho sente.
Podes dizer:
"Percebo que isso seja importante para ti."
"Imagino que estejas muito feliz."
"Entendo porque estás triste."

Validar não é incentivar.
É mostrar disponibilidade.

E a sexualidade?
Para muitos pais, esta é uma das maiores fontes de ansiedade.

A verdade é que o início dos relacionamentos costuma trazer curiosidade sobre intimidade, corpo e sexualidade. Ignorar este tema não faz com que ele desapareça.
Pelo contrário.

Os adolescentes tendem a procurar respostas. A questão é perceber onde as vão encontrar.
Falar sobre sexualidade não significa incentivar comportamentos. Significa ajudar os jovens a tomar decisões mais informadas, responsáveis e seguras.

Mais do que fazer um discurso único, importa criar um ambiente onde o adolescente saiba que pode colocar dúvidas sem medo de ser julgado.

 

Então devo preocupar-me?

Depende.

Gostar de alguém, querer estar junto dessa pessoa, passar mais tempo ao telemóvel ou falar frequentemente sobre ela são comportamentos perfeitamente naturais.

O que merece mais atenção é quando o adolescente:
* abandona amizades importantes;
* deixa de fazer atividades de que gostava;
* se isola da família;
* aceita comportamentos desrespeitadores;
* muda radicalmente a forma de ser para agradar ao outro;
* apresenta sinais persistentes de sofrimento emocional.

Nestas situações, mais do que falar sobre o namoro, importa perceber o que está a acontecer emocionalmente.

 

O que os adolescentes realmente precisam dos pais nesta fase?

Curiosamente, não precisam que os pais sejam detetives.
Nem interrogadores.
Nem especialistas em relacionamentos.

Precisam sobretudo de três coisas:
Segurança
Saber que podem falar sem serem julgados.
Disponibilidade
Sentir que os pais estão presentes quando precisam.
Confiança
Perceber que os pais acreditam na sua capacidade para aprender, errar e crescer.

 

No final de contas...

O primeiro namoro do teu filho não é apenas uma história de amor.
É também uma história de crescimento.
Sobre aprender a gostar.
Sobre criar limites.
Sobre lidar com rejeição.
Sobre descobrir quem se é.

E embora seja tentador protegê-los de todas as desilusões, há experiências que fazem parte do caminho.
Talvez o teu papel não seja evitar que sofram.
Talvez seja garantir que sabem que, aconteça o que acontecer, têm sempre um lugar seguro para voltar.
Mesmo quando o coração está partido.
Porque, no fundo, o objetivo não é impedir os filhos de se apaixonarem.
É garantir que, enquanto aprendem a amar alguém, não deixam de se sentir amados em casa.

Inês Miranda
Psicóloga Clínica

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