Entrevistas

Pérola desabafa: "Temos de provar mais enquanto mulheres"

Joana Freitas Araújo entrevistou para a SELFIE a cantora Pérola.

  • 25 ago, 15:49
Cantora Pérola
Cantora Pérola Foto: Instagram

Estive à conversa com a cantora Pérola, que se preparar para subir ao palco do Salão Preto e Prata do Casino Estoril.

Tens mais de 20 anos de carreira e começaste a cantar ainda criança. A Pérola que sonhava com este futuro reconheceria a mulher que se tornou?
Canto desde que me lembro. Aos oito anos já cantava para a família e para os vizinhos, no Huambo, e aos 13, já na Namíbia, comecei a dar os primeiros passos na música, integrando grupos e participando em concursos de talentos. Naquela altura, só sabia que cantar me fazia feliz. Sonhava com a música, claro, mas a minha família sempre me mostrou também a importância dos estudos, e foi por isso que segui esse percurso e me licenciei em Direito. Acho que aquela menina reconheceria em mim a mesma paixão e ficaria feliz por ver até onde ela me trouxe.

Ao longo destes anos, tiveste de crescer enquanto artista e enquanto mulher, muitas vezes aos olhos de toda a gente. O que é que aprendeste sobre ti da forma mais difícil?
Considero-me uma pessoa tranquila, mas a vida ensinou-me a ser mais resiliente e paciente. Percebi que nem sempre temos de reagir imediatamente ou avançar a qualquer custo. Há momentos em que parar, observar e escolher com calma é a melhor decisão. Também percebi que, enquanto mulher, muitas vezes temos de trabalhar mais e provar mais para conquistar certos espaços. Felizmente, muita coisa tem mudado, mas ainda existem diferenças. Isso tornou-me mais resiliente e ensinou-me a acreditar ainda mais no meu valor. Hoje sou muito ponderada e procuro respeitar o meu tempo, sem sentir que tenho de acompanhar o ritmo de toda a gente.

Já tiveste de escolher entre aquilo que querias artisticamente e aquilo que sabias que o público esperava de ti? E houve alguma vez em que escolheste a tua vontade, mesmo sabendo que podias desiludir alguém?
Muitas vezes. Acho que uma das partes mais interessantes de ser artista é precisamente encontrar esse equilíbrio entre o que queremos criar e aquilo que o público recebe de nós. Já tive músicas que se tornaram favoritas dos fãs sem eu imaginar, e outras em que apostei muito e que tiveram uma reação diferente da que esperava. Há até temas que nunca foram pensados como singles e que acabam por ganhar tanta força junto do público que começam a pedir um videoclipe. Com o tempo, fui percebendo melhor essa relação, mas continuo a acreditar que também é importante surpreender e seguir a minha intuição. Nem sempre vou conseguir agradar a todos, e faz parte.

Construíste uma carreira num mundo que está constantemente a pedir novidade. O que é que te recusaste a mudar em ti só porque o mundo mudou?
A minha essência. Posso experimentar novos sons, novas imagens e acompanhar a evolução da música, mas há uma parte de mim que não quero negociar. Se tentasse ser algo que não sou apenas para acompanhar uma tendência, o meu trabalho perderia verdade. A música, tal como a moda, é cíclica. Gosto de me adaptar e de explorar, mas quero continuar a reconhecer-me naquilo que faço.

Tens músicas que marcaram diferentes fases da tua vida. Há alguma que hoje te conte uma história completamente diferente daquela que contava quando a gravaste?
Muitas. Há músicas que hoje ouço com outros ouvidos, porque a pessoa que as canta já não é exatamente a mesma que as gravou. Algumas transportam-me imediatamente para o estúdio, para o que estava a sentir naquele dia e até para as expectativas que tinha naquela fase da minha vida. “Omboio”, por exemplo, nasceu como uma homenagem às minhas raízes. Hoje, quando a canto, é como se regressasse ao Huambo, à infância, a ouvir a minha avó, a minha mãe e as minhas tias cantarolar temas mais tradicionais e folclóricos. Foi também daí que nasceu o meu gosto por esse estilo musical, por isso é uma canção que me liga de forma muito especial às minhas origens.

Já conquistaste palcos, reconhecimento e uma carreira longa. Mas há algum sonho que ainda te deixe empolgada?
Claro. Ainda tenho algumas coisas que gostaria muito de concretizar, sobretudo parcerias musicais que já vivem aqui na minha cabeça. Mas, para já, vou guardá-las para mim. Dizem que os sonhos têm mais força quando ainda são segredo. O meu último trabalho fala muito de amor e tem uma sonoridade mais calma e romântica, mas não excluo a possibilidade de um dia voltar a fazer um álbum mais pop. E, antes disso, já há novidade a caminho. Tenho um single no forno, prestes a sair, e o videoclipe já está gravado.

Depois de tantos anos a seres Pérola para o público, o que é que ainda estás a descobrir sobre a Jandira?
A Pérola não existe sem a Jandira, e a Jandira também bebe muito da Pérola. Não consigo separar completamente as duas. O que ainda descubro sobre a Jandira é que ela é muito mais persistente do que às vezes pensa. É teimosa, tem dúvidas, questiona-se bastante, mas acaba sempre por continuar. E há momentos em que é precisamente a Pérola que lhe recorda tudo o que já conseguiu fazer e lhe dá aquele empurrão de que precisava.

Vais apresentar “Melhor de Mim”. O que é, hoje, o melhor de ti, e o que é que ainda estás a aprender a melhorar?
Hoje, o melhor de mim talvez seja saber quem sou com muito mais clareza. Tenho a experiência de tudo o que vivi, mas continuo a ter curiosidade e vontade de fazer coisas novas. O que ainda estou a aprender é a simplificar algumas decisões. Sou muito ponderada e gosto de olhar para as coisas com calma, mas tenho percebido que nem tudo precisa de ser pensado ao detalhe. Às vezes, também é importante confiar no instinto, arriscar um pouco mais e deixar espaço para o inesperado.

Joana Freitas Araújo
Relações públicas - "Dois às 10" e "Em Família"

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