Pedro Chagas Freitas revelou, nas redes sociais, que já sofreu de preconceito.
"Já fui acusado de ser bonito demais para ser escritor. Já me disseram, por exemplo, que o meu rosto não devia estar na badana de um livro, mas sim num catálogo da Massimo Dutti. Parece uma piada fraquinha; é só preconceito. A estupidez tem muitas formas. Esta é mais uma: acreditar que a literatura tem de ser escrita a partir da fealdade visível. Que palermice: a pele não serve de certidão do espírito. Escrever não exige coerência estética", começou por escrever.
"Se és feio (o que é isso de ser feio ou bonito, afinal? Cada vez acredito menos na ditadura dos olhos, do que se vê com os olhos; é tão curto, tão pequeno; a beleza tem camadas, tantas, e cada vez mais aprecio as de lá de baixo, as que só aparecem quando se descobre mesmo a pessoa, a beleza da pessoa, a história da pessoa, a dor da pessoa, os medos da pessoa, a pessoa da pessoa) e escreves, encaixas no cliché — confirmas a narrativa reconfortante de que a arte é refúgio para os deserdados da carne. A burrice precisa sempre de coerência", continuou.
"O preconceito estético é um veneno subtil. Chega no subtexto, às vezes no não-dito, no comentário leve, no riso disfarçado, no aparentemente inócuo 'não tens ar de escritor'. Parece pouco; pode ser devastador. É uma forma de te negar a dor, de te roubar o direito de escrever a partir do osso", lamentou.
"Um rosto simétrico não faz prova de ausência de abismo. A literatura não nasce da cara; nasce da carne interior, da podridão íntima, do vazio, da sensibilidade que magoa, da intensidade que corrói em silêncio. Escrevo contra esse tribunal esdrúxulo, quase dogmático, que confunde estética com verdade. Habituo-me à ferida; não a esqueço. Tenho medo de que muitos caiam perante ela, esmagados pela acusação invisível de não terem direito ao sofrimento. Escrevo também por eles. Para lembrar que a dor não precisa de rosto: precisa de existir. Enquanto houver um leitor para me ler, continuarei em busca da beleza que interessa. Isso basta-me", rematou Pedro Chagas Freitas.
