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Pedro Chagas Freitas recorda noite dramática com o filho: "Acordou a sangrar. Estava desesperado e assustado"

O escritor Pedro Chagas Freitas fez um relato intenso sobre um momento vivido durante o período em que o filho travou uma luta contra um problema de saúde.

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Pedro Chagas Freitas dividiu com os seguidores do Instagram, recentemente, um texto que vai constar do próximo livro do escritor e que aborda um momento dramático vivido com o filho, Benjamim.

"Um dos sintomas da doença do meu filho era o sangramento nasal abundante. Quando acontecia, às vezes tínhamos de ir ao hospital. No limite, podia significar internamento. Uma criança aprende a fazer contas ao medo: sangue significa médico; médico significa hospital; hospital significa internamento; internamento significa dor. O meu filho fez a conta cedo demais. Sempre que começava a sangrar pelo nariz, entrava em pânico. E sangrava demasiadas vezes. Uma noite, acordou a sangrar, a cama manchada de vermelho. Estava desesperado, assustado. No meio do terror, aconteceu magia. As crianças vêem portas onde os adultos vêem paredes", começou por escrever Pedro Chagas Freitas.

"Será que as girafas também sangram pelo nariz?", questionou, então, o menino. "Aquela pergunta era uma tentativa de diluir a tragédia. Se as girafas também sangram, isto não é nada de especial", refletiu o autor. "Claro que sim. As girafas estão sempre a sangrar pelo nariz. Todos os dias", responderam a Benjamim.

"Os pais inventam realidades para proteger a respiração dos filhos. Ele ficou uns segundos a misturar a imaginação e a lógica", relatou Pedro Chagas Freitas, revelando o que o filho disse: "Ah! Então isso quer dizer que se estiver uma girafa a sangrar pelo nariz no meio da selva e vier um rinoceronte..."

"Pensei no pior. Nós, adultos, quando vemos fragilidade, imaginamos alguém a explorá-la", prosseguiu o escritor, contando o que Benjamim ainda disse: "... o rinoceronte vai dar-lhe um lencinho."

Pedro Chagas Freitas, então, assumiu: "Ficámos sem palavras. Já vimos demasiados rinocerontes maus. O cérebro habitua-se, torna-se frio, antecipa a violência antes de antecipar a bondade. Onde nós vimos uma oportunidade de humilhação, de brutalidade, ele viu uma oportunidade de empatia. A infância é a filosofia moral intacta. O bullying é o rinoceronte mau: alguém mostra uma vulnerabilidade num recreio, num escritório, numa rede social; outro decide pisá-la, quer sentir-se maior durante alguns segundos."

"Desde aquela noite, ando à procura do rinoceronte bom. Não é fácil. Vivemos num zoológico dominado pelos outros, pelos maus. Fazem mais barulho, têm mais espaço. Prometo continuar à procura. Prometo continuar a acreditar que, algures, no meio da selva, há rinocerontes que levam lenços", garantiu.

 

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