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Pedro Chagas Freitas: "O suicídio não é um fantasma longínquo; é um vizinho"

No Instagram, Pedro Chagas Freitas partilhou uma emotiva reflexão acerca de um tema na ordem do dia.

Como vem sendo hábito, Pedro Chagas Freitas usou as redes sociais para partilhar um excerto do livro Hospital de Alfaces, desta vez sobre um tema na ordem do dia: a saúde mental e a prevenção do suicídio.

"Vivemos enfiados na cave húmida da nossa própria cabeça. A vida acontece cá dentro, no visco escuro da mente. Lá, ninguém nos vê. Nunca sabemos quem está prestes a desistir. A corda pode estar comprada, o frasco de comprimidos já pode estar alinhado na mesa-de-cabeceira — e nós a falarmos da chuva, do calor, do trânsito, de mais uma vitória da Seleção", começou por refletir o escritor.

De seguida, Pedro Chagas Freitas afirmou: "O suicídio não é um fantasma longínquo; é um vizinho. Pode estar sentado junto a nós no autocarro, pode trabalhar na secretária ao lado, pode deitar-se na mesma cama que nós todas as noites. O que pode segurar alguém à vida é ridiculamente frágil: um telefonema de vinte segundos todos os dias, uma mensagem a dizer 'estás bem' de vez em quando, uma palavra dita na hora certa. É isso o que impede a corda de se soltar na garganta."

"Amar não pode ser só uma declaração; tem de ser prática diária, músculo treinado, repetição obsessiva, intensiva. Temos de amar como se estivéssemos nos Cuidados Intensivos. Não é pôr corações em fotografias; é aparecer quando ninguém aparece, é dizer 'estou aqui' quando o outro já não acredita em nada. Se o fundo do poço chegar, o que nos puxa para cima é o amor que sabemos que não nos deixa cair sozinhos", acrescentou o escritor, antes de rematar: "Viver não é um ato de coragem; é um ato de teimosia. É insultar a morte todos os dias, cuspir-lhe na cara, dizer-lhe baixinho ao ouvido: 'ainda não, cabra, ainda não.' Por mais que a vida se empenhe em convencer-nos do contrário, há sempre um resto de luz escondido em algum lugar. Temos de amar visivelmente, descaradamente, desavergonhadamente. A nós mesmos, aos outros, à vida que temos à nossa frente. Temos de repetir até acreditarmos: eu mereço estar vivo, eu quero estar vivo. E viver, porra. Viver é tão bom."

 

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