"Hoje, quero mexer na ferida", começou por escrever Pedro Chagas Freitas, numa publicação realizada no Instagram, esta terça-feira, dia 16.
"Vai doer, vai levantar algumas ondas, algumas delas podem muito bem aparecer nos comentários", constatou o escritor, antes de continuar: "Hoje vou mexer nesta ferida, sinto que é importante fazer olhar para ela, fazer com que os holofotes se centrem nela, para ver se nos salvamos todos dela, nem que seja um pouco, nem que sirva como grito silencioso já serviu para alguma coisa."
"Há tantas violações dentro de casamentos", afirmou, taxativamente, Pedro Chagas Freitas, frisando: "Mulheres que não querem, que são coagidas, manipuladas, levadas a crer que afinal querem, a ter relações sexuais pelos maridos, como se fossem obrigadas a isso. No dia seguinte, tudo segue naturalmente, como se fosse normal. Como se fosse mais um ato de amor. Não é. É uma violação."
"Vivemos numa organização social em que se confunde posse com ternura, que ainda acredita que o amor é um contrato, uma sentença vitalícia. Não pode ser. Nenhum papel assinado, verbalizado, dá esse poder a alguém. O casamento não é salvo-conduto para violar, não é um álibi para a violência", considerou o escritor.
"O corpo não é uma dívida. Que nenhuma mulher, que nenhuma pessoa, se entregue sem querer, só porque tem de ser. Se é o que tem de ser, já não é amor; é invasão. É, sim, violação. Sem gritos, sem queixa explícita, sem polícia. Só com silêncio. O silêncio dói mais do que a penetração forçada. O silêncio corrói, destrói, encolhe, amedronta. Apaga. O amor não pode ser obrigação. O amor que se impõe não é amor. A violência disfarçada de carinho é o mais repugnante dos disfarces", dissertou Pedro Chagas Freitas, antes de rematar: "Talvez escrever isto não mude quase nada. Não o escrever teria mudado ainda menos."
