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Pedro Chagas Freitas: "Eu estava lá quando a polícia bateu à porta"

No Instagram, Pedro Chagas Freitas partilhou uma emotiva reflexão acerca de uma trágica morte que marcou o escritor.

"Foi o meu primeiro encontro com a morte", começou por escrever Pedro Chagas Freitas, na legenda de uma fotografia que partilhou no Instagram, na qual mostra um familiar do escritor que morreu de forma trágica.

"Foi mais um confronto do que um encontro. A morte de quem amamos mata-nos. Um vai, o outro fica. Não sei qual dos dois morre mais. Naquele dia, eu era a criança que soube que o tio Paulo morreu. Ninguém me tinha morrido até àquele dia. Nunca tinha visto o meu avô a chorar, a minha avó a chorar, os meus tios a chorar. Nunca vi uma casa inteira a chorar. Poucas imagens magoam mais do que a da morte dos que amamos no meio da vida dos que amamos", considerou o autor do livro Hospital de Alfaces

"Eu estava lá quando a polícia bateu à porta. Eram dois. Traziam a tristeza de quem não sabe como se carrega a morte de um filho até à mãe que está à frente. O grito da minha avó. O grito de toda a gente. Quando se morre por dentro, resta um grito ou o silêncio. Ou o grito e depois o silêncio. O Paulo morreu. Antes de partir para a última viagem veio lá a casa dar um abraço. Não sei se foi coincidência mas foi assim: 'já sabes chutar com o pé esquerdo, russo?', eu a querer mostrar-lhe num instante que já conseguia, que estava a ficar um craque. As mãos dele no meu cabelo pela última vez, aquele sorriso inteligente (a inteligência vê-se, não vê?), o carro a ir e ele a ir. Só o que não se amou deixa de existir. Há um espaço em nós que não se vê limpidamente, que está desfocado, uma massa infindável de medos, de contradições, de caminhos sem destino, sem denominação, sem definição, intangíveis, intocáveis: inacabáveis. É isso o que somos", relatou Pedro Chagas Freitas

De seguida, o escritor fez uma reflexão: "A imortalidade dos que amava morreu ali, com ele. Eu, menino, a tentar perceber quem seria o próximo. Nessa noite, nem dormi, ou dormi pouco: passei as horas a pensar que iria ver morrer todos aqueles que amava. Eu era o mais novo: iriam todos antes de mim. Chorei ali a morte de cada um, um por um, por antecipação. Ainda cá estamos quase todos. Ainda continuo a ser aquele menino, cheio de medo, embrulhado debaixo dos lençóis a pensar quando será o próximo. Acho que somos todos esse menino debaixo dos lençóis cheio de medo de que a morte chegue. Nunca deixamos de ser esse menino, nunca, nunca. É a nossa desgraça e o nosso milagre. Resta-nos aguentar, aproveitar. Resta-nos amar contra a morte."

 

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