"Por estes dias, no meio de tantas tragédias, recebi muitas mensagens de pessoas e associações revoltadas com o que as pessoas que doam estão a doar. Resolvi escrever-te, a ti, que o fazes, que o fizeste", começou por referir Pedro Chagas Freitas numa publicação divulgada na respetiva página de Instagram.
De seguida, o escritor assinalou: "Quando decides doar, há em ti a ideia de ajudar. Mas pensa bem: quando colocas numa caixa algo que já não usarias, algo gasto, algo que estava esquecido no fundo de um armário, talvez penses: 'Para quem não tem nada, isto serve.' Não é assim. Não pode ser assim. A perda do outro não diminui o seu direito ao cuidado. Quem recebe não deixou de sentir, não deixou de reparar no cheiro, na nódoa, na quebra, no desgaste. A fragilidade económica não anestesia a dignidade; pode até torná-la mais sensível."
"São pessoas que perderam casa, rotina, segurança, aquilo que julgavam ser a sua vida inteira. Doar é um gesto estranho: obriga a imaginar o outro, obriga a perguntar: 'Isto teria lugar na minha própria vida?'", acrescentou.
"Não digo isto para te ferir. A solidariedade, quando é verdadeira, é uma forma de reconhecimento entre iguais. Não é um movimento de cima para baixo; é de lado: de humano para humano. Um objecto transporta uma mensagem. Pode dizer 'lembrei-me de ti'; pode dizer 'isto já não presta para mim'. Quem recebe sente a diferença. Se doares, fá-lo como se estivesses a preparar uma caixa para ti num momento difícil: com cuidado, com atenção. A solidariedade não é para ajudar a libertar espaço na tua casa. É para ajudar a libertar um pouco o mundo que alguém perdeu", completou.
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