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Após tragédia, Pedro Chagas Freitas escreve carta aberta aos funcionários de lar de Mirandela

A propósito do trágico incêndio que provocou a morte de seis idosos num lar em Mirandela, Pedro Chagas Freitas escreveu uma carta aberta dirigida aos funcionários da instituição.

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"Escrevo-vos porque sei que vão acordar à noite muitas vezes com o cheiro a fumo, a queimado, preso ao corpo. Sei que vão ver a cena numa repetição infinita: as mãos que não chegaram a tempo, os olhos que se fecharam para sempre, o silêncio dos alarmes, os gritos pelos corredores. Sei que vocês tentaram. Deram corpo, e pulmão, e braços, e desespero, e doeu tanto, tanto. Alguns morreram, que m****, que m****; mas dezenas viveram porque vocês não desistiram", começou por considerar Pedro Chagas Freitas, numa publicação realizada no Instagram, dirigida aos funcionários do Lar de Idosos Bom Samaritano, em Mirandela.

"Muita gente vai ser cruel convosco: vai chamar-vos negligentes, vai apontar-vos o dedo, vai ofender se puder, vai magoar se puder. Descansem: muitos vão saber, como eu sei, que não era possível salvar todos num minuto de fogo. Estamos cada vez mais viciados em culpados. Deve ser o mecanismo mais fácil para lidar com as misérias da vida. Não aceitem essa sentença", aconselhou o escritor, antes de acrescentar: "Reaprendam. Reaprendam a entrar em quartos, a arrumar camas, a dar banho, a dar um ombro, ou os dois, a quem muito deles precisa. A memória vai empurrar-vos muitas vezes para aquela madrugada. Haverá noites em que sentirão que estão a morrer com aquelas pessoas. É natural. Mas o trabalho que fazem é maior do que as mortes que não puderam evitar. Continuem. Persistam. Sejam a última pele que toca na pele dos velhos, o último colo, a última tentativa de dignidade, da esperança que não pode acabar antes de a vida acabar. Não deixem que o fumo vos mate por dentro. O inferno é fácil, está sempre à espera, hospitaleiro. O difícil é regressar. Continuem, mesmo que doa — e vai doer. Continuem. Alguém precisa que o vosso gesto exista."

No final, Pedro Chagas Freitas deixou uma garantia: "Se precisarem de mim, estarei aqui para o que for necessário. Quando puderem, se quiserem, faço questão de ir aí abraçar-vos todos, um a um. Aguentem-se, sim? Com respeito, com admiração, Pedro."

Recorde-se que o incêndio que deflagrou na madrugada de sábado, dia 16, no lar Bom Samaritano, da Santa Casa da Misericórdia de Mirandela, matou seis idosos e deixou 25 feridos.

 

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