"Dizem-me que isto é um corredor do IPO de Lisboa. Dizem-me que neste corredor circulam crianças doentes. Eu não sei se acredito. Eu não quero acreditar. Não pode ser", começou por escrever Pedro Chagas Freitas, na legenda de uma imagem captada naquela unidade de saúde, lamentando: "Dizem-me ainda que cheira a mofo, que chove lá dentro, que está tudo a cair de podre. Eu não sei se acredito. Eu não quero acreditar. Não pode ser. A decadência pode ser um insulto. Um corredor onde passam crianças doentes deveria ser um templo clínico, jamais este epitáfio de azulejos a desfazerem-se. Este lugar não devia envelhecer, não poderia envelhecer. Envelhece. Envelhecem hospitais, escolas, corpos frágeis, a decência."
"A decadência instala-se no interior da indiferença. Estas paredes descascadas são uma tese completa, dizem mais sobre nós do que mil relatórios parlamentares. Um país revela-se naquilo que permite que apodreça. É absurdo, asqueroso: crianças de bata a avançarem por um corredor que parece desistir antes delas. Quem tem responsabilidade nisto tem deveres. Falhou todos. Há aqui uma ruína total: política, ética, civilizacional, emocional. Eu não sei se acredito. Eu não quero acreditar", rematou o escritor.
Mais tarde, Pedro Chagas Freitas comentou uma mensagem que recebeu na qual o seguidor questionava a utilidade de se gastar um milhão de euros num corredor: "O corredor (basta ler as centenas de comentários de pais e de utilizadores, essa torrente quase anónima de desespero) é um lugar por onde passam pessoas doentes, frágeis ao ponto de a própria respiração lhes ser uma ameaça. Houve quem relatasse ter de cobrir totalmente uma criança para que o simples acto de atravessar aquele espaço não significasse um risco inaceitável. Quem tenta ocultar isto, quem insiste na narrativa higienizada, fá-lo porque não pensa no essencial: a vulnerabilidade absoluta dos doentes. Depois colocam-nos diante desta escolha indecente, medieval, como se estivéssemos condenados a decidir entre duas possibilidades elementares, quase animais. É trágico. É uma miséria moral. Mas aqui estamos. A pergunta tornou-se inevitável, amarga,humilhante: chegámos mesmo a este ponto?".
Já esta terça-feira, dia 18, o escritor regressou às redes sociais para fazer uma atualização acerca da situação e deixar um agradecimento especial: "Ao que parece, as obras para melhorar o corredor do IPO de Lisboa sobre o qual escrevi ontem já começaram hoje a ser feitas. Vamos esperar que sejam breves e eficazes. A bem de todos. É sempre isso o mais importante. Sempre. Aproveito para enviar a todos os profissionais daquela Instituição um abraço imenso. Sou vosso fã incondicional. Fico emocionado com a maneira como, tal como tantos outros milhares de profissionais do SNS, conseguem às vezes fazer omeletes maravilhosas com tão poucos ovos. Rendo-me à vossa coragem, à vossa dedicação, ao vosso carinho, ao vosso amor. Obrigado."
