Patrícia Ribeiro: "Houve momentos em que quis voltar para a prisão"
Entre a luta pela identidade, a música, a queda e um difícil recomeço, Patrícia Ribeiro atravessou duas décadas de profundas transformações. Hoje, revisita sem filtros as conquistas, os erros e as cicatrizes de uma vida em reconstrução.
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Cátia Soares
- 29 ago, 14:00
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Foi uma das primeiras mulheres trans em Portugal a expor publicamente a sua história, enfrentou o preconceito, lutou pelo reconhecimento legal da sua identidade e encontrou na música uma forma de se afirmar. Depois, a vida levou-a a um dos seus capítulos mais difíceis: seis anos de reclusão, a queda de uma carreira e a necessidade de reaprender a viver em liberdade. Hoje, Patrícia Ribeiro não apaga o passado nem foge aos erros. Assume-os, pede perdão e fala de uma segunda oportunidade. Numa entrevista exclusiva à SELFIE marcada pela fé e pela vontade de recomeçar, a cantora revisita duas décadas de uma vida feita de conquistas e quedas, e explica por que acredita que ninguém deve ficar condenado para sempre à pior página da sua história.
Foi uma das primeiras mulheres trans em Portugal a assumir publicamente a sua identidade. Como era viver essa realidade há 20 anos?
Assumir a identidade de género há 20 anos foi bem mais difícil pela questão dos meios de comunicação, que eram praticamente inexistentes. Os casos em Portugal também eram muito poucos e havia pouca informação sobre os procedimentos para dar início a um processo de identidade de género. Sobretudo para mim, que sou neta de um oficial da Marinha e filha de um militar do Exército, foi bem difícil pelas questões familiares e por uma educação muito rígida e rigorosa. Foi bem difícil naquela época.
Sente que abriu caminho para muitas pessoas?
Acho que a minha história contribuiu positivamente através das entrevistas que dei na altura, através também de uma biografia e do documentário que realizei. Acho que contribuiu para abrir mentalidades e, sobretudo, para esclarecer as famílias. Isto porque, às vezes, as famílias ficam sem saber o que fazer perante um caso desses no seu seio. Então, acho que os testemunhos de histórias reais são sempre um incentivo e acabam por ser uma troca de informações. Naquela época, fui contactada por muitos que não sabiam o que fazer ou como lidar com a situação, pois bem sabemos que somos um país conservador.
O que era mais difícil naquela altura: o preconceito social ou a falta de apoio institucional?
Senti muito o preconceito, tanto social como institucional. As crianças são muito cruéis e eu sofri muito na escola; passei por muito bullying. Escondiam a minha mochila e eu tinha medo até de ir às aulas, porque nunca sabia como é que terminava o dia. Era uma caixinha de surpresas. Claro que, há 20 anos, isto ainda era um estigma. As pessoas não estavam preparadas para estes casos. Além disso, eu morava na Margem Sul, um meio mais pequeno e diferente da capital, Lisboa. Foi difícil, porque as pessoas conheciam-me desde criança. As próprias instituições, naquela época, também não tinham as informações que existem hoje. Agora, há mais organizações não-governamentais e há a Internet, que veio mudar muita coisa. Naquela altura, não havia esses mecanismos digitais.
"Eu abri a porta para estas novas gerações trans, porque hoje em dia está tudo mais facilitado."
Hoje existe mais liberdade para pessoas trans… mas sente também mais confusão à volta do tema?
No meu caso pessoal, sinto que contribuí para uma mudança importante em Portugal. Ou seja, abri a porta para estas novas gerações trans, porque, hoje em dia, está tudo mais facilitado. No entanto, também está tudo muito mais confuso. Existem casos que não são casos de mulheres trans e que confundem, de facto, a opinião pública. Isso faz com que possa existir um retrocesso e, às vezes, coloca em causa toda uma luta e o erguer de uma bandeira. Às vezes, tenho receio de que possa cair tudo por terra.
"É uma decisão irreversível para a vida e eu acho que é necessário e fulcral o acompanhamento psicológico."
Costuma dizer que algumas discussões atuais não representam aquilo que foi a sua luta inicial. O que quer dizer com isso?
Existem casos que não são de mulheres trans. Ser uma mulher trans é ser uma mulher que se identifica com o universo feminino. Não é acordar João e amanhã querer ser Maria. Existe todo um processo médico e legal. O meu processo demorou mais de três anos. Fui seguida por psicólogos e por psiquiatras. Naquela época, eles eram bem rigorosos para testar se a pessoa era realmente uma mulher trans de verdade. Na minha biografia, eu tenho até os testes de cérebro. Foram exames muito exaustivos. Na altura, o processo corria na Ordem dos Médicos e, depois de ser todo analisado, era a Ordem dos Médicos que dava a autorização para se fazer a cirurgia. Então, foi um processo muito complexo. É uma decisão irreversível para a vida e eu acho que é necessário e fulcral o acompanhamento psicológico.
"Às vezes tenho receio de que possa cair tudo por terra."
Há situações que considera difíceis de explicar à opinião pública? Ou acredita que a sociedade já está preparada para discutir este tema sem extremos?
Existem casos que não são de mulheres de verdade. É inaceitável um homem com uma peruca, adereços femininos ou com as unhas pintadas entrar numa casa de banho feminina. Não podemos fazer com que a sociedade aceite coisas que não pertencem aos padrões comuns de uma sociedade. Obviamente que não é aceitável entrarem na casa de banho feminina pessoas que realmente não são trans de verdade. Além de confundir a opinião pública, deixa as pessoas com uma imagem completamente errada daquelas que são realmente trans de verdade e que lutaram toda uma vida. Isso é inaceitável. Outra coisa: deparo-me diariamente com casos em que são publicados vídeos nas redes sociais para chocar a sociedade e ter envolvimento (engajamento). Isso não dá uma imagem credível das mulheres trans que lutaram pela causa durante anos. Isso descredibiliza a comunidade por completo e deita por terra tudo aquilo que foi conquistado outrora.
"Ser trans não é ser chacota. Ser trans é representar tudo o que é o universo feminino."
Para si, o que significa verdadeiramente ser trans?
Ser trans não é ser chacota. Ser trans é representar tudo o que é o universo feminino. Ser trans é crescer igual à imagem da mulher: a imagem da mulher delicada, a imagem de uma mulher que constrói uma vida numa sociedade comum como mulher e, sobretudo, que respeita o próximo. Existem mulheres trans que são mães, que adotaram crianças e têm as suas atividades normais.
Hoje sente que existe uma diferença entre viver uma transição profunda… e assumir apenas uma identidade?
Há pessoas que, às vezes, parece que querem ser trans por uma questão de moda. Está na moda, não porque se sintam mulheres de verdade. Isto acaba por ser muito perigoso para a própria pessoa em si.
As mudanças legais e sociais tornaram alguns processos mais rápidos ou mais demorados? Portugal já evoluiu o suficiente no apoio médico às pessoas trans?
Acho que, na época em que fiz a cirurgia pelo Serviço Nacional de Saúde aqui em Portugal, nos anos 2000, as coisas eram bem mais rápidas. Também só existia um cirurgião, o Dr. João Décio Ferreira, que realmente foi um homem que deu felicidade a muitas vidas. Foi uma referência nesta temática e ele mesmo lutou muito por esta causa também. Acho que, agora, as coisas aqui estão mais complicadas. Os processos estão mais demorados e, às vezes, as pessoas realmente desesperam e dirigem-se para fora de Portugal.
Defende mais acompanhamento psicológico antes de decisões irreversíveis?
Esta é uma decisão irreversível, para a vida, e, se não for feita com todo o acompanhamento psicológico, pode causar lesões psicológicas gravíssimas na pessoa. São deveras preocupantes os casos de destransição. Eu dei palestras com a minha biografia e sempre toquei nesse ponto: o acompanhamento psicológico é fundamental. É fundamental para o paciente, para esclarecer todas as dúvidas e para fazer todas as perguntas sobre o processo de identidade de género em si, porque é uma decisão para toda a vida.
Acha perigoso haver pessoas a fazer cirurgias sem apoio psicológico adequado e que, muitas vezes, viajam para fora de Portugal para serem operadas?
Existem muitas pessoas a recorrer a serviços privados, não só aqui em Portugal, mas também no estrangeiro, e não fazem qualquer acompanhamento psicológico. Dirigem-se a hospitais privados e fazem essa cirurgia de redesignação sexual sem qualquer acompanhamento médico ou psicológico, pagando a cirurgia. Posteriormente é que surgem os problemas, porque a pessoa não fez o acompanhamento psicológico e, às vezes, até nem estava preparada para viver totalmente na condição de mulher. O que é que acontece? Casos de grandes depressões e suicídios, porque a decisão é, de facto, irreversível.
O aumento de casos de destransição deve fazer a sociedade refletir?
Eu vejo diariamente na internet inúmeros casos de destransição de pessoas que fizeram o processo por moda ou por quererem aparecer. Isso não são exemplos de mulheres trans de verdade.
Há jovens a tomar decisões demasiado cedo?
Eu acho que quando a pessoa é realmente acompanhada desde muito cedo, as coisas correm melhor. Tenho visto pais a quem realmente tiro o chapéu por acompanharem desde cedo os seus filhos, logo na adolescência, quando percebem que é um caso de identidade de género. Eu acho que isso é fundamental. Começar logo desde o início o processo de acompanhamento psicológico é bom para que não haja essas dúvidas. Às vezes, quanto mais cedo melhor. Mas, pela aceitação social e por todas as questões da sociedade, também existem casos de pessoas que conseguem dar esse passo muitos anos mais tarde, até quando já têm uma vida social bem avançada.
Há muitos anos, lutou contra o Estado para conseguir a comparticipação da sua cirurgia. Como foi essa batalha? Sente orgulho por ter ajudado a abrir precedentes legais?
Na altura, realmente, foi um processo rápido. Mas eu nunca pensei que teria uma nova batalha pela frente. Ou seja, já existia na época uma lacuna na lei. O Estado participou na minha cirurgia, o cirurgião atestou o sexo feminino, mas depois não havia uma Lei de Identidade de Género para poder alterar o meu nome nos documentos. Então, teve de ser interposta uma ação judicial contra o próprio Estado para que eu conseguisse mudar a minha identidade. Foi curioso: foram dois anos e meio de espera e, no dia em que estava marcado no Palácio da Justiça o julgamento desta causa, foi aprovada em Portugal a Lei da Identidade de Género. Acabámos por não fazer o julgamento e, claro, dirigi-me à Conservatória do Registo Civil para finalmente alterar o meu nome para Patrícia Ribeiro.
"Tenho consciência de que fui responsável por uma grande mudança legal em Portugal, e claro que isso me deixa muito orgulhosa."
O que sentiu quando passou a ser reconhecida oficialmente com o seu nome?
Antes, sendo legalmente e sexualmente uma mulher, mas ainda com o nome masculino, foi um tormento. Foi realmente uma luta muito grande, mas com um final muito feliz, porque a identidade é o que nos representa como mulher. Antes disso, eu passei por situações muito constrangedoras. Foi um culminar de felicidade que abriu portas para que todas as outras pessoas se pudessem dirigir ao Registo Civil e mudar a sua identidade nos documentos. Portanto, tenho consciência de que fui responsável por uma grande mudança legal em Portugal, e claro que isso me deixa muito orgulhosa.
Sente que atualmente a imagem pública sobre as pessoas trans ficou mais polarizada?
Acho que esta nova era de influenciadores digitais, principalmente influenciadores trans, apresenta conteúdos que, muitas vezes, não são muito positivos para a população em geral. Por vezes, isso confunde a opinião pública e deixa as pessoas com uma imagem não muito agradável das pessoas trans. Eu, na verdade, depois de tudo o que se passou na minha vida — onde fiquei excluída durante seis anos —, senti realmente que houve um retrocesso. Essa é a minha opinião sincera devido a estas novas eras digitais. Não se pode expor tudo na Internet, porque sabemos que vai alcançar milhões de pessoas. Às vezes, são conteúdos positivos, mas outros conteúdos negativos acabam por manchar toda uma comunidade e o trabalho de aceitação, integração e inclusão que foi construído ao longo de uma vida. Isso acaba por causar desconforto e conflitos na própria comunidade, até porque agora existem trans de esquerda e trans de direita, e no meu tempo não havia nada desses pormenores.
Há figuras públicas e influenciadores trans que, na sua opinião, prejudicam essa imagem?
Outro comportamento com que também me deparei recentemente, vindo de uma influenciadora trans, foi o de comportamentos agressivos nas redes sociais. Isso não me identifica de todo, nem a mim, nem a todas aquelas mulheres trans que lutaram durante anos para levantar a bandeira para estas novas gerações. Violência gera violência e eu sou contra todo o tipo de comportamentos agressivos e ofensas, pois eles constituem crimes.
Já teve medo de dizer aquilo que pensa por receio de críticas? Considera-se uma voz incómoda dentro da própria comunidade?
Eu considero-me uma voz importante, não só em Portugal como também no Brasil, porque a minha figura acabou por ser uma referência nesta questão da transexualidade. Acho que, quando me posiciono sobre estas temáticas, acabo sempre por contribuir com algo positivo para as pessoas que assistem aos meus vídeos e aos meus posts.
Apesar de todos os avanços, continua a existir muita violência contra pessoas trans?
Todos os dias me deparo com mortes de pessoas trans no Brasil. Aliás, o país é o que tem mais mortes por dia e por hora de pessoas trans no mundo. Sinceramente, é uma realidade que me assusta. Como eu disse atrás na entrevista, violência gera violência. Eu abomino esse tipo de comportamentos violentos e criminosos, mas é uma realidade que me assusta: a quantidade de mulheres trans que são assassinadas diariamente, a cada hora, no Brasil.
Alguma vez teve medo pela sua segurança?
É curioso que muitas vezes me perguntam se, em todas as minhas passagens pelo Brasil, eu tive medo. Até porque só estive em dois estados, que são dois dos maiores do Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro, onde existe também, às vezes, muita violência. Mas, por acaso, nunca senti essa insegurança, porque lidei sempre com as pessoas certas e estive também nos locais certos e nas horas certas. Como costumam dizer, às vezes, estamos no local errado e à hora errada. Mas, claro, assustam-me todas as notícias com que me deparo todos os dias na televisão e nas redes sociais.
Sente que as pessoas esquecem o lado humano por trás destas discussões?
Acho que é muito importante aproveitar a visibilidade daquelas mulheres trans que são referência no mundo para alertar sobre estas questões das desigualdades e da violência contra as mulheres trans. É o que eu tenciono fazer também quando lançar agora a minha nova biografia: fazer palestras motivacionais pelo mundo. Acho que são questões que realmente têm de ser tratadas com delicadeza e aprofundadas até nas escolas, quando as crianças ainda estão no início dos seus estudos. Falar desta questão trans nas escolas é importante mesmo para estas gerações mais novas.
"A prisão acabou por manchar e prejudicar a minha imagem e a minha carreira."
O seu percurso também ficou marcado pela prisão. Sente que isso destruiu parte da sua credibilidade pública?
Obviamente que não posso esquecer que a questão da reclusão — este meu problema que tive com a justiça — acabou por manchar e prejudicar a minha imagem e a minha carreira. Eu era uma pessoa de referência aqui em Portugal, a minha história foi icónica, fui das primeiras. Obviamente que esse meu problema com a justiça acabou por me retirar um pouco daquela credibilidade que eu transmitia às pessoas. Até porque nós sabemos que somos um país muito conservador, um país religioso, e estas questões com a justiça acabam sempre por manchar a imagem de qualquer artista, quer queiramos, quer não.
Foi difícil voltar a reconstruir a sua imagem?
Não foi fácil, porque os recomeços nunca são fáceis. Mas isto é como tudo na vida: recomeçar é sempre um degrau de cada vez. Às vezes, quando estamos lá em cima, no auge, para cair é num ápice. Mas recomeçar do zero é difícil. É difícil se não tivermos uma base familiar, aquele apoio, a nossa estrutura. Fica tudo bem mais difícil. Mesmo assim, eu penso que tudo acontece no tempo que Deus quer. Aprendi muito dentro da prisão a ter calma, a ter serenidade. Aprofundei a minha ligação com Deus, com a fé, e aprendi a controlar os meus impulsos. Tudo isto através de uma boa psicóloga, que fez um trabalho maravilhoso comigo dentro da instituição prisional e que me fez ver a vida de uma outra forma. Por isso, se hoje sou uma nova mulher, foi com ela que eu mudei muito também. Às vezes, não é uma questão de mudar tudo, nós podemos moldar e limar algumas arestas, algumas coisas que não estão bem em nós. Ela realmente fez um trabalho excelente comigo, eu vejo a vida de uma outra forma e acho que as coisas acontecem quando têm de acontecer, no tempo de Deus.
Há portas que nunca mais se abriram depois desse capítulo da prisão?
Penso que algumas portas se fecharam, senti isso no meio artístico, mas também senti portas que se abriram e que eu não estava à espera. Nomeadamente, o meu sucesso com a música "Quero Ser Feliz", no "Big Brother". Isso, sem dúvida, para mim, foi uma conquista muito grande. Foi algo que aconteceu inesperadamente, de forma natural, e, para mim, foi gratificante, porque foi o meu regresso à música, e isso vai ficar marcado para o resto da minha vida.
"Sei que causei traumas psicológicos, estou profundamente arrependida e, mais uma vez, peço perdão."
Arrepende-se profundamente do que aconteceu e a levou à prisão?
Arrependo-me profundamente daquilo que fiz, porque não foi essa a educação, não foram esses os princípios, não foi essa a identidade que a minha família me deu enquanto criança. Apesar de ser filha de pais separados, sempre tive uma educação muito rígida e rigorosa, com princípios e com respeito. Realmente, tenho plena consciência de que o que fiz foi doloroso, foi violento psicologicamente para a vítima e para a sua família. Estou profundamente arrependida. Mas as pessoas também não podem julgar por um ato isolado. Foi uma situação única, eu nunca tinha tido problemas com a justiça, não tenho antecedentes criminais. Realmente, peço mais uma vez perdão publicamente à vítima, porque sei que o que fiz durante muitos anos foi violento, foi doloroso. Sei que causei traumas psicológicos, estou profundamente arrependida e, mais uma vez, peço perdão.
"Houve momentos em que quis voltar para a prisão."
O peso da culpa acompanha-a diariamente?
Sim, há dias em que, realmente, penso na prisão. Há dias em que estou mais pensativa, faz parte do ser humano. Vivi situações com que me deparei cá fora, no exterior, que me deixaram um pouquinho assustada. Confesso uma coisa: houve momentos em que, por não ter a noção da realidade cá fora, eu quis voltar para a prisão, acredite. É aquilo que eu falo, não foi fácil recomeçar depois de seis anos dentro de uma prisão.
Precisou de reaprender a viver depois da prisão?
Sem dúvida alguma, foi igual a uma criança a dar os primeiros passos. Tive de reaprender a viver em sociedade, porque durante seis anos acabas por viver ali dentro de um quadrado, 24 sobre 24 horas. Ali dentro, as pessoas acabam por ser a tua família. Se tens um conflito ou bates de frente com alguém, tu não podes virar a esquina, estás ali confinada naquele espaço 24 sobre 24 horas com aquelas mulheres. Ou seja, tens de aprender a viver ali. A prisão é um mundo à parte da sociedade e chegar cá fora foi realmente reaprender a viver em sociedade, recomeçar tudo novamente como uma criança em crescimento.
"Tive de reaprender a viver em sociedade."
A reclusão mudou a sua forma de olhar para a vida?
A reclusão ajuda muito a ver a vida de uma outra forma. Dentro da prisão, além do acompanhamento psicológico que tive, e sabendo que as ferramentas que existem nas instituições prisionais são escassas, existem algumas ocupações laborais. Tentei ocupar o meu tempo da melhor forma possível: sempre trabalhei na prisão, frequentei vários cursos e todos esses cursos que fiz ajudaram-me a ver a vida de uma outra forma. Aprendi a colocar-me no lugar do outro, portanto, acho que, dentro da reclusão, aproveitei as ferramentas que foram disponibilizadas da melhor forma possível. Isso fez com que me tornasse uma pessoa melhor.
Acredita em redenção? Sente que a sociedade permite realmente que uma pessoa mude?
Acredito, sim, em reintegração e em redenção. Se a pessoa estiver realmente motivada para a mudança, tudo é possível. Tem de haver força de vontade. A prisão é uma escola da vida, ou seja, é uma preparação para a realidade no exterior. Ali aprende-se a ter rotinas de trabalho e rotinas saudáveis. Há horários para acordar, horários para o encerramento das celas, horários para ir para a escola e horários para os cursos. Portanto, acho que aquele espaço, além de ser um lugar de redenção, acaba por ser também uma preparação para a sociedade. Mas, claro, tem de existir a força de vontade e a vontade de mudar dentro da pessoa. Obviamente que é possível fazer uma reintegração social do recluso.
"Agradeço a Deus por ter sido presa. Hoje, poderia não estar aqui."
Houve momentos em que pensou desistir de tudo?
Nunca pensei em desistir, porque aprofundei a minha ligação com Deus ali dentro. O terço e as orações faziam parte de mim diariamente, de manhã e à noite. O terço que a minha avó Antonina me levou na cadeia está hoje comigo. Todos os dias agradeço a Deus quando acordo e faço as minhas orações. Todas as semanas vou à igreja. Por isso, nunca pensei em desistir, porque sei que Deus está sempre comigo. Deus foi a minha salvação quando eu estava perdida. Agradeço a Deus por ter sido presa, porque, se calhar, hoje poderia não estar aqui para contar a minha história.
"Através da música, eu conseguia muitas vezes acalmar a minha dor."
A música também a ajudou a sobreviver emocionalmente?
A música era a minha companhia dentro da prisão. Ouvia aquelas rádios que tinham discos pedidos. A música foi, sem dúvida, o meu balancé, a minha companhia. Através da música, conseguia muitas vezes acalmar a minha dor. A saudade dos meus entes queridos era grande, e a música era um bálsamo.
O palco ainda é o lugar onde se sente mais livre?
O palco é uma forma de comunicar. A música sempre me acompanhou desde criança. Acho que, no palco, nós conseguimos transmitir às pessoas realmente o amor que sentimos por aquilo que fazemos. Através da música, posso transmitir muitas emoções a quem nos está a assistir. A música é, sem dúvida, a minha grande paixão.
"Estava perdida num abismo sem fim, numa maré de autodestruição."
O destino teve sempre um papel importante na sua vida?Acredita que tudo acontece por uma razão?
O nosso destino está traçado, e eu senti que o meu destino tinha de passar pela prisão para ver a vida de outra forma, para me conseguir reerguer. Estava perdida num abismo sem fim, numa maré de autodestruição.
"Eu gostava que as pessoas percebessem que é possível mudar."
O que gostaria que as pessoas percebessem finalmente sobre si?
Gostava que as pessoas percebessem que é possível mudar. Depois de errar, tropeçar e cair, é possível a mudança. É possível a pessoa conseguir reerguer-se e mostrar que houve uma mudança positiva em mim.
"Tenho saudades da Patrícia de há 20 anos. Era mais pura, mais ingénua."
E o que diria hoje à Patrícia de há 20 anos?
Eu sinto muitas saudades dos tempos de há 20 anos. Eu era mais pura, era mais ingénua. Se soubesse o que sei hoje, realmente nada disto teria acontecido na minha vida. É tão bom recordar, é tão bom relembrar aqueles tempos! A luta foi longa, mas foi uma luta saudável e positiva, que culminou numa grande felicidade. Tenho saudades dessa Patrícia de há 20 anos.
Olhando para trás, guarda algum arrependimento?
O meu destino foi passar naquele lugar para eu sair dali fortalecida e ser uma nova mulher, pronta para viver em sociedade. Tudo nesta vida tem uma razão de ser.
"Se eu sou quem sou e se continuo firme e de pé, é pelo apoio e carinho que ela me dá diariamente."
Onde se imagina daqui a 10 anos?
Daqui a uns 10 anos, gostava de estabilizar a minha vida e ter o meu próprio negócio. Quero dedicar-me a questões ligadas ao mercado digital. Quem sabe ter uma plataforma digital em que possa dar algumas palestras online. Gostaria muito de realizar um sonho antigo de ter um negócio de moda, uma lojinha de roupa, e um espaço ligado à estética. Quero estabilizar a minha vida como uma futura empresária.
Quem foi e será sempre a peça fundamental da sua vida?
O meu grande amor é, sem dúvida, a minha avó. Sou apaixonada pela minha querida avó. Ela é a minha rainha, a minha guerreira, uma mulher de luta, de garra e resiliente. É uma mulher com 86 anos e é, sem dúvida, o amor da minha vida. Se eu sou quem sou e se continuo firme e de pé, é pelo apoio e carinho que ela me dá diariamente. Espero que ela viva muitos e muitos anos. Quero continuar a ser a cuidadora dela, pois ela fez tudo por mim. Passou por tantas situações difíceis para me defender de tudo e de todos. Ela é, sem dúvida, o amor da minha vida.
