Riga é uma cidade de cartão-postal: ruas alinhadas, fachadas coloridas, igrejas que parecem tiradas de livros antigos. Mas para lá da beleza aparente, sente-se a dureza do seu povo – divididos, grosso modo, entre uma simpatia desarmante e uma rudeza que corta como vidro. Não é de estranhar. A História deixou marcas profundas. Entre invasões e guerras, entre avanços e traições, este povo aprendeu a proteger-se. Talvez seja esse o motivo de não sorrirem facilmente. Mas quando o fazem, é de dentro para fora, é um sorriso raro, mas genuíno.
Ainda hoje, cerca de 30% da população é russa. Porquê, pergunto-me? Divergência de ideologias? Herança inevitável? Bom, adiante.
A cultura, a língua, os gestos carregam essa fusão, e sente-se que o coletivo letão carrega uma memória pesada, uma herança de resistência. São tesos, rijos, não se vergam facilmente.
Mas Riga também me deu momentos que nunca esquecerei. Como aqueles quatro homens adultos, de cerveja na mão, sentados em… baloiços. Uma cena improvável de masculinidade leve, simples, natural. Pedi para gravar. A resposta, num inglês perfeito, arrancou-me um sorriso: "Com os modelos?". Sim, com os modelos, queria registar aquele instante puro, de descontração e simpatia genuínas.
Ou o velhinho cantor, numa esquina do mercado central, sentado numa cadeira de praia, a cantar mal, muito mal. Credo, tão mal que me deu um aperto o peito. Estava tão cabisbaixo que senti que tinha de fazer alguma coisa. E fiz. Pedi para gravar e ele anuiu com a cabeça, não fosse perder o… ritmo. Incentivei-o com palmas, "uh uh", "bravo!", até que se levantou, com dificuldade, e deu uns passos de dança cheios de estilo. Bastou um simples incentivo para ele oferecer o seu melhor. De repente, havia um pequeno grupo em volta, contagiado pela energia. Não somos nós todos ainda assim? Continuamos à espera da validação dos outros para darmos o nosso melhor?
Antes de me ir embora, ele perguntou: "Queres ouvir a Ave Maria de Schubert?" O meu coração parou. Essa música tão especial para mim… e, ali, vinda de uma voz descompassada, soou perfeita. Porque a gratidão tem este dom: transforma o imperfeito em sublime.
E houve ainda um momento íntimo, quase sagrado. Entrei na Catedral de Riga - linda por dentro e por fora - e ali estava Ela, a Virgem Negra. (E não, não tem nada a ver com magia negra nem com superstições esquisitas.) O culto à Virgem Negra é muito, muito antigo e sagrado. Ao fundo, ouvia-se uma ladainha, talvez o equivalente ortodoxo ao nosso terço. Aquela imagem, aquelas vozes ecoaram de tal forma em mim que as minhas pernas cederam. Caí de joelhos e chorei como há muito não chorava. Raramente o faço. Talvez a última vez tenha sido na Índia, no templo de Arunachalesvara, em Thiruvannamalai, quando um homem entoava cânticos devocionais que me levaram a uma catarse avassaladora. Senti que chorei durante umas quatro horas seguidas. Em Riga, como então, ninguém me interrompeu, mas percebi que havia pessoas que se mantinham por perto, em silêncio respeitoso. E esse silêncio partilhado foi, ele próprio, um abraço.
Foi uma viagem de sonho. A minha bucket list ficou recheada – está quase completa. Resta-me o Peru, as profundezas da terra e as medicinas sagradas.
O mais importante é isto: perceber que viajar é sempre um exercício de alma. Viajar abre os olhos da mente, sim.
E que bom é regressar a casa! Que bom é pousar os olhos na nossa terra e compreender, mais uma vez, que só saindo do nosso cantinho conseguimos valorizá-lo. É curioso observar quem critica tanto o nosso cantinho; é quem nunca saiu do seu bairro.
Depois de tantas fronteiras, percebi: Portugal nunca foi pequeno. Pequena, às vezes, é só a forma como escolhemos olhá-lo.
