Crónicas

"Sabes quem é a Lilith?", por Vera Xavier

Todas a temos latente em nós, mulheres.

  • 2 ago, 14:39

Esta história começa com sexo… vá, mais ou menos.

O que é ótimo, porque já chega de não contar a História das mulheres porque não interessa ao patriarcado instalado há… milénios. Vamos a ela?

O mito de Lilith: Na bíblia em Génesis 1.27 e 28 diz “Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança (dizem as más línguas, que, entretanto o homem só conseguiu preservar a imagem, a semelhança perdeu-se no tempo… eu cá para mim acho que nem a imagem manteve); Ele criou o homem e a mulher; Abençoando-os Deus disse: Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra. (Esta parte, do dominai, convenhamos, Deus devia ter ponderado mais) Repara, aqui não foi dado um nome, portanto, poderia ter sido Lilith. Só seria o primeiro nome feminino a ser apagado da História. Milhares se seguiram.

Ora, mais à frente, tendo o tradutor de aramaico, ou hebreu, ou grego, ou… número 20.460 se esquecido do que tinha dito, eis que diz no versículo 2.18 “O Senhor Deus disse "Não é conveniente esteja só; vou dar (…way for it…) uma auxiliar semelhante a ele. Ênfase na palavra auxiliar, claro. Espera, ainda não acabámos. Continuando em Génesis 2, o fabrico da mulher, diz assim: Então, o senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e enquanto ele dormia tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem o senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. Ao vê-la o homem exclamou “Esta é realmente osso dos meus ossos carne da minha carne chamar-se-á mulher, visto de ter sido tirada do homem." Eis o primeiro milagre de sempre: uma mulher que nasceu de um homem! Que incrível!

Ora, então, vamos continuar, mas voltando à Lilith - a mulher que desapareceu misteriosamente da história no Éden: Adão quer que Lilith fique por baixo. Lilith pergunta porquê. Foram ambos criados da mesma terra, têm a mesma origem e, tanto quanto se sabe, nenhum deles recebeu um organograma divino a explicar quem ficava por cima. Porém, Adão entende que a posição lhe pertence. Lilith entende que, para acontecer, os dois têm de querer.

Consigo imaginá-la a olhá-lo de igual para igual e a dizer:

"Por baixo, Adão? Primeiro, temos de ser os dois a querer, chérie. Segundo, tenho uma reunião com as leoas às quatro e estamos a lançar uma linha de peles que vai ser um estrondo na Mesopotâmia. Tatá!"

Ela vai-se embora… para sempre. Deduzo que a coleção de peles tenha de facto ter sido um sucesso.

Repara neste pormenor, porque é delicioso: nesta história, Lilith não é expulsa do Éden. Sai pelo próprio pé. Adão, compreensivelmente pouco encantado com a estreia mundial da autodeterminação feminina, apresenta uma reclamação à administração celestial e são enviados três anjos para a trazer de volta. Ela recusa.

Qual era exatamente o crime desta mulher? Não querer obedecer a um homem? Querer decidir sobre o próprio corpo? Ou ter saído antes de lhe explicarem, durante quarenta e cinco minutos, que a hierarquia era para o bem dela? Que familiar é esta explicação, não é?

Há qualquer coisa nesta história que atravessa os séculos e ressoa, não há? Tu dizes não, mas a conversa deixa de ser sobre o teu não e passa a ser sobre o teu tom. Tu discordas, mas o problema torna-se a tua "agressividade". Tu desejas mais, mas alguém pergunta porque não consegues simplesmente estar satisfeita com o que tens.

A mulher pode ter razão - e geralmente tem - desde que a exponha num volume baixo, com um sorriso agradável e sem amarfanhar o ego do homem. Onde achas que nasceu a arte da manipulação tão feminina?

A tua Lilith não desapareceu!

Quando uma mulher aprende que certas partes de si ameaçam o ’amor’ tradicional - seja lá o que isso for -, precisam de aprovação ou de pertença, de sobreviver. A nossa amígdala está sempre em alerta porque caso não pertencêssemos morreríamos de fome. Estou a exagerar? Olha que não. Que opções tinham as mulheres solteiras, escorraçadas ou viúvas? Prostituição, a mais velha profissão do mundo. Pobres irmãs…

Escondes a voz para não parecer autoritária? Escondes ambição para não incomodar e para não seres julgada? Guardas a raiva até ela começar a sair em pequenas farpas dirigidas a quem não tem culpa nenhuma, incluindo a senhora da operadora de telecomunicações, que também já tem problemas suficientes? Ou, ainda mais comum, quando bates com o dedo mindinho na esquina da porta e voltas todos os teus fantasmas, demónios, assombrações, encostos e outros que tais? Sabes que à mulher não é permitida a expressão da raiva, pois não? Essa é a única emoção que o homem pode expressar.

Sabes que agora no mundial de futebol, a violência doméstica aumentou 30%? Sim, ainda estamos neste ponto muito crítico.

O que podes fazer para despertar a Lilith em ti?

Não procures uma resposta rápida que agrade o teu ego, irmã. Procura uma resposta pensada e concreta.

Talvez tenhas adormecido a mulher que quer ganhar mais do que o pai, a mãe, o marido ou as amigas.

Talvez tenhas camuflado a mulher que deseja ter prazer sem o justificar com amor eterno e música de violinos.

Talvez tenhas exilado a mulher que sabe que aquela relação terminou, aquele projecto perdeu o brilho ou que aquela família se habituou demasiado à sua disponibilidade. Já não é disponibilidade, é abuso.

Pensa na parte de ti que foi chamada egoísta, distante, vaidosa, que ouviu "tens a mania que és boa?", quando tentou sobreviver ou arrogante quando reconheceu o próprio valor. Será também essa a parte que os outros começaram a considerar “difícil” no dia em que deixou de responder “sim” antes de perceber a pergunta?

Recuperar essa mulher poderosa não significa obedecer-lhe cegamente. A raiva pode proteger uma fronteira, mas também pode ferir; a ambição pode criar, mas também pode devorar; a independência pode libertar, mas também pode impedir intimidade. Consciência é conseguires escutar essas forças sem lhes entregar o controlo total.

Quando Lilith regressa à nossa vida interior, não vem pedir que destruamos o jardim. Vem perguntar quem decidiu as regras, porque aceitámos algumas sem as examinar e que preço continuamos a pagar para ficar nele.

As nossas avós e mães abriram portas à força. A nossa geração tem de perceber porque ainda entra nelas de cabeça baixa!

Na próxima vez que reprimires uma vontade ; que recusares um elogio ; que esconderes uma ambição ou aceitares uma posição que não te valoriza, não te condenes! Faz uma pergunta:

"Se eu acreditasse, realmente, que fui feita da mesma terra que Adão, o que faria agora?"

Depois escuta -te, levanta-te, endireita as costas, inspira poder e expira toda a toxicidade que tens ouvido e sentido.

Power Pose, sis!

Pode ser que as leoas já estejam à tua espera.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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