Crónicas

"O eclipse vem aí, mas calma com o Apocalipse", por Vera Xavier

Esta quarta-feira, dia 12 de agosto, vamos ter um eclipse solar e, como seria de esperar, já começou a circular pela internet aquela mistura irresistível de fascínio, profecia e ligeiro prenúncio de desgraça que parece acompanhar qualquer fenómeno celeste suficientemente raro.

  • 12 ago, 11:39

Há quem recorde que os antigos interpretavam os eclipses como sinais; quem olhe para os três que vão atravessar a Península Ibérica entre 2026 e 2028 - só dois são totais - e ache difícil acreditar que seja "só" astronomia e, inevitavelmente, há quem deixe no ar a pergunta que faz maravilhas pelas audiências: e se os antigos estiverem certos, o que é que nos espera?

Vamos pensar juntos: pode esperar-nos muita coisa, porque a vida não costuma sofrer de falta de criatividade, mas também pode não acontecer absolutamente nada por causa do eclipse, que já é suficientemente extraordinário sem precisarmos de lhe acrescentar quatro cavaleiros, duas trombetas e um senhor de túnica branca a correr pela A5 afora.

Tal como nada aconteceu a 21 de dezembro de 2012. Lembrais-vos? Eu lembro-me perfeitamente, porque aquilo não foi uma pequena excentricidade de meia dúzia de pessoas mais maluquinhas da tola. Não, instalou-se uma verdadeira histeria mundial. O calendário maia ia acabar, portanto, os pólos iam inverter-se, vinham catástrofes, alinhamentos planetários, saltos de consciência, mudanças de dimensão e o fim do mundo propriamente dito. Havia teorias suficientes para acabarmos todos várias vezes, o que me parece excessivo até para um Apocalipse… um basta.

O busílis? Os Maias nunca anunciaram o fim do mundo. Simplesmente, terminava um ciclo do seu calendário. Nós é que pegámos num sistema de contagem do tempo de uma civilização antiga e fizemos dele o trailer do Armagedão. Chegou o dia 22 e eis que o planeta continuava cá e, numa demonstração particularmente cruel da normalidade, o raio das contas também!

Talvez por isso fique de pé atrás quando vejo um eclipse transformar-se imediatamente num presságio e nunca positivo. E antes que alguém pense que estou a pôr a astrologia no saco das superstições, convém esclarecer: eu estudei astrologia e tive excelentes professores. Conheço-a suficientemente para lhe dar o devido respeito e, precisamente por isso, tenho alguma dificuldade em aceitar tudo o que se inventa a partir dela.

Aliás, tenho uma pergunta que costuma desarmar quem despacha a astrologia com aquele arzinho superior de quem acabou de descobrir a racionalidade: Tu, então, não acreditas em Fernando Pessoa, é isso? (Viram como me contive e não insultei a criatura? Bem, na verdade insultei mas de forma bastante subtil)

Fernando Pessoa estudou astrologia profunda e seriamente, tinha uma biblioteca, de causar inveja a mim, sobre o assunto, fazia mapas astrológicos à mão e calculou os mapas dos seus próprios heterónimos. Isto não prova que a astrologia funcione. Prova apenas que tratá-la como passatempo exclusivo de gente pouco instruída é capaz de ser uma ideia com alguns problemazinhos.

Mas atão, vamos lá a ver, se durante milhares de anos os eclipses foram interpretados como presságios, isso significa que os presságios se cumpriam? Não necessariamente. Se eu vivesse há três mil anos, se estivesse sugadita a tratar da minha vidinha e, de repente, o Sol desaparecesse sem explicação, também admito que pudesse suspeitar que os deuses estavam ligeiramente aborrecidos connosco. Na verdade, existem textos antigos que associam eclipses à morte de reis, guerras, fome e queda de cidades, mas não encontrei evidência histórica sólida de que um eclipse, per se, tenha permitido prever de forma consistente uma determinada catástrofe. Muito menos encontrei uma profecia antiga específica sobre estes três eclipses que agora vão cruzar a Península Ibérica.

Por isso, quando leio "se os antigos estiverem certos", não digo imediatamente que é um disparate. Pergunto: quais antigos? O que disseram exatamente? Onde está escrito?

E aqui Sócrates continua a ser bastante mais moderno do que muita gente nas redes sociais. Reconhecer os limites do que sabemos é um excelente ponto de partida, embora dê péssimos títulos. O "não sei" exige humildade; já o "eu sei o que isto significa" pode dar estatuto, audiência e, com sorte, seguidores. Se juntarmos medo, melhor ainda: durante um nanosegundo, quem acha que sabe aquilo que os outros não sabem ganha poder sobre os pobres ignorantes. O pequeno inconveniente é que, muitas vezes, continua tão ignorante como eles. Só fala mais alto.

Só que, e aqui entramos noutro campo da Astrologia, quando saímos dos eclipses isolados e entramos nos grandes trânsitos astrológicos, a conversa torna-se bem mais interessante e inacessível para muitos.

Lembro-me perfeitamente de ouvir, há muitos anos, Luís Resina, meu amigo e professor, um astrólogo extraordinário, profundamente

estudioso e absolutamente nada dado ao sensacionalismo, falar da entrada de Plutão em Capricórnio, em 2008. O Luís chamou a atenção para um período de grandes transformações estruturais, em que instituições, grandes empresas, sistemas financeiros e formas de poder que julgávamos sólidas poderiam atravessar tempos muito complicados. Não vou inventar-lhe frases quase vinte anos depois, mas lembro-me perfeitamente da mensagem porque me marcou.

Eis que veio 2008, com a crise financeira mundial, bancos que pareciam intocáveis a caírem como castelos de cartas, empresas a desaparecerem e governos obrigados a intervir, enquanto algumas das estruturas económicas mais poderosas do mundo descobriam, com manifesta falta de elegância, que também tinham pés de barro

Foi Plutão em Capricórnio? Para mim, a correspondência é demasiado interessante para ser descartada. Uma correspondência destas merece respeito e investigação e não ser automaticamente promovida a causalidade.. É precisamente por respeitar a astrologia que não preciso de a transformar num GPS infalível do destino.

Há, porém, outra possibilidade que me interessa ainda mais: se determinados aspectos astrológicos se repetem sem produzirem exatamente os mesmos acontecimentos, e se nós também aprendermos? Depois de uma grande crise mudam-se leis, criam-se mecanismos de proteção, governos e bancos centrais preparam outras respostas e estruturas. Ainda que admitíssemos que certos ciclos correspondem a períodos de maior tensão, há uma variável que nunca regressa ao mesmo lugar: nós.

Deixo-te esta provocação: se alguém me avisar que, à velocidade a que conduzo, vou bater com os ditos numa parede e eu travar, a previsão estava errada ou cumpriu exatamente a sua função? Hum? Pois é…

Talvez o livre-arbítrio não seja a fantasia grandiosa de controlarmos tudo o que nos acontece. Talvez seja algo bem menos espectacular e muito mais exigente: a possibilidade de não estarmos condenados a dar sempre a mesma resposta quando a vida nos volta a fazer uma pergunta parecida.

Por isso, no dia 12 vou olhar para o eclipse com o fascínio que merece. Só peço que, antes de começarem a espalhar ondas de choque e medo, me digam quais foram os antigos, o que disseram exactamente e, já agora, onde deixaram a bibliografia.

Pode soar pouco espiritual, mas eu cá acho que duvidar também é sagrado.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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