"Mulher, nunca fomos rivais. Fizeram-nos acreditar que éramos!", por Vera Xavier
Durante séculos disseram-nos que havia lugar para apenas uma mulher. Talvez esteja na hora de percebermos que o verdadeiro poder nunca esteve na competição, mas na sororidade.
- 19 jul, 21:55
Fomos ensinadas a competir, está na hora de desaprender. Sobre a raiz histórica da rivalidade feminina, o software de sobrevivência de que já não precisamos, e a sororidade como acto de coragem.
Reparemos nesta cena, porque se repete todos os dias e quase sempre em silêncio. Entra uma mulher numa sala e, num piscar de olhos, já a medimos de cima a baixo: o cabelo, os sapatos, o anel, a maneira como cumprimenta. Não há maldade, nem sequer pensamento consciente. Há um reflexo antigo, rápido e automático, tão nosso como respirar. A pergunta que interessa não é se o fazemos, porque fazêmo-lo quase todas. É porquê, e se ainda faz algum sentido continuarmos a repeti-lo.
Adianto já a resposta, para não ficarmos em suspense até… à morte da bezerra: não faz. Mas, para percebermos porque insistimos, temos de recuar muito. Bem mais do que gostaríamos.
Conta-se, e a arqueologia da nossa imaginação adora esta história, que no tempo dos uga-bugas (sim, é o termo científico) a mulher que deixava de servir para procriar era posta de lado, enquanto os homens partiam em busca de exemplares mais jovens para a substituir. Não sabemos se foi bem assim, porque as cavernas não deixaram atas de reunião. Mas o que a história documentada mostra a seguir dispensa suposições. Chamemos as coisas pelos nomes: a História sempre foi cruel com as mulheres.
Durante séculos, e em quase todas as latitudes, a nossa segurança não dependia de nós. Dependia de estarmos ligadas a um homem: a um pai, a um marido, a um clã. Sem essa ligação não havia terra, não havia herança, não havia teto, muitas vezes não havia sequer comida. Havia haréns onde muitas competiam pela atenção de um só, dotes que transformavam filhas em transações, leis que nos proibiam de possuir, de trabalhar, de assinar o nosso próprio nome. E havia dois fantasmas a assombrar qualquer rapariga desde garota: a viúva sem estatuto e a solteirona sem lugar.
Neste jogo havia habitualmente uma única cadeira reservada a uma mulher. Uma! E às vezes na copa. E, em vez de nos ensinarem a perguntar por que raio a mesa tinha tantos lugares para eles e um só para nós, ensinaram-nos a lutar umas com as outras por essa cadeira. A rival era a outra, a que podia ficar com o nosso lugar, com o nosso homem, com o nosso pão. A desconfiança não era mesquinhez, mas, sim, uma estratégia de sobrevivência, tão racional como fechar a porta à chave numa rua perigosa.
Simone de Beauvoir viu isto com uma clareza que ainda arrepia. Escreveu, no Segundo Sexo, que as mulheres não dizem "nós". Os homens dizem "as mulheres", e nós repetimos a mesma palavra a falar de nós mesmas, como se fôssemos uma categoria vista de fora e não um sujeito coletivo. Vamos começar a dizer "NÓS, MULHERES"?! Então, diz "Nós, Mulheres, Irmãs!"
E convém definir a palavra que dá título a esta conversa, porque ainda soa a novidade, e isso só por si já diz tudo.
Sororidade vem do latim soror, irmã, e é para nós aquilo que a fraternidade sempre foi para os homens: uma irmandade escolhida, um pacto de lealdade entre iguais. Reparemos na injustiça da própria gramática: a fraternidade, de frater, irmão, está gravada nos ideais das revoluções há mais de dois séculos; a sororidade é palavra recém-escavada à força da História, que só agora ganhou lugar no dicionário. Tivemos nome para a irmandade deles muito antes de termos nome para a nossa, e ninguém vive em plenitude aquilo que ainda nem sequer tem nome.
O motor de tudo tem um nome desarmante de tão simples: comparação. Krishnamurti dizia que no instante em que nos comparamos já perdemos, porque ou nos sentimos superiores e incha-nos o ego, ou inferiores e morde-nos a inveja. Venha o diabo e escolha. E Jung foi mais fundo: aquilo que mais nos irrita nas outras é, tantas vezes, o que exilámos em nós próprias. A que se mostra livre incomoda a que se calou. A que ocupa espaço e brilha fere a que aprendeu a esconder-se. Atacamos na outra o retrato do que não nos deixaram ser.
Inveja e admiração são as duas faces da mesma moeda.
Em 1973, os investigadores Graham Staines, Carol Tavris e Toby Jayaratne deram nome, na Psychology Today, à síndrome da abelha rainha: a mulher que, chegada ao topo, trata as outras mulheres pior do que trata os homens. E já então perceberam que não era maldade, era adaptação. Eram mulheres a sobreviver em salas com lugar para exatamente uma. A abelha rainha não é uma vilã: é uma náufraga que aprendeu, à força, que o bote só leva uma pessoa.
Vamos às boas notícias? Vamos! O jogo mudou, Mulher. Já quase não vivemos em haréns, e digo quase porque a instituição não é tão coisa do passado como gostávamos de crer: o harém real de Marrocos só foi dissolvido em 1999, e o rei de Eswatini soma, ainda hoje, dezasseis esposas. Postos de lado esses recantos do mundo, já não morremos de fome por não pertencermos a um clã, já podemos possuir, ganhar, votar, divorciar-nos, viajar sozinhas e existir, quem diria, sem pedir autorização a ninguém. BOOM! A mesa, que durante milénios teve uma só cadeira para nós, tem agora as que nós quisermos! A ameaça que justificava a rivalidade desapareceu. O busílis é que o programa que ela instalou continua a correr, teimosamente, em segundo plano na nossa mona linda.
Temos instalado um software de sobrevivência antiquíssimo, a correr num computador que já foi todo trocado. Um antivírus velho que dispara sempre que outra mulher entra na sala, mesmo quando ela vem em paz e, muito provavelmente, traz um bolo.
Quando a psicóloga Shelley Taylor, da Universidade da Califórnia, estudou como reagimos ao stress e publicou as suas conclusões em 2000, descobriu que o nosso corpo, sob pressão, não corre só para o modo ‘lutar, congelar ou fugir’. Faz outra coisa, o cuidar e apaziguar, tend and befriend no original. Quando o mundo aperta, a nossa biologia, a bombar oxitocina, pede tribo, pede colo e pede aliança. A sororidade não é uma trend inventada por meia dúzia de idealistas fanáticas: é o nosso instinto mais antigo, aquilo que a natureza nos gravou no corpo. A rivalidade é que veio depois, ensinada e imposta por cima.
Convém não romantizar, que não sou nada dada a unicórnios: sororidade não é gostarmos automaticamente de todas as mulheres nem desculpar comportamentos indignos. É a recusa deliberada e consciente de continuarmos a permitir que este código antigo nos controle. Madeleine Albright disse um dos axiomas da minha vida: há um lugar especial no inferno para as mulheres que não ajudam outras mulheres. E basta tão pouco: elogiarmos a colega em voz alta em vez de a avaliarmos em silêncio, passarmos um contacto que vai ajudar, dizermos o nome dela na sala onde ela não está para se defender, orientarmos a mais nova em vez de a temermos como substituta. Coisas pequenas que desmontam séculos este processo mental inconsciente, um gesto de cada vez.
Fica o exercício da semana, pode ser? Da próxima vez que entrar uma mulher na sala e sentirmos o velho reflexo a ligar-se, apanhemo-lo em flagrante e façamos o contrário exacto: procuremos nela uma coisa, uma só, que possamos admirar, e digamo-la em voz alta. Custa, ao início. Mas, de repente e sem aviso, a sala fica mais leve… e tu também.
Nós nunca fomos rivais, irmãs. Fomos sobreviventes de um jogo que nos obrigaram a jogar umas contra as outras, para que nunca reparássemos em quem tinha montado o tabuleiro. E a diferença entre continuarmos sobreviventes ou nos tornarmos, enfim, livres está numa única pergunta: continuamos a defender a cadeira, ou temos a ousadia de construir a mesa juntas?
